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Negócios, Mercados & Cia

Estado mínimo, Bolsa Família e o impasse com a Faria Lima

Plano econômico de Flávio Bolsonaro retoma privatizações e aperto fiscal, mas mantém o Bolsa Família; parte do mercado torce o nariz para essa combinação

Por Neuza Sanches Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 mar 2026, 10h00 | Atualizado em 16 mar 2026, 13h52

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro tenta montar um plano econômico que minimize, na prática, um impasse anunciado: de um lado, a retomada de um compromisso com um Estado mínimo, sustentado por uma agenda de privatizações e “tesouraço” fiscal; de outro, a promessa reiterada de não tocar em programas de transferência de renda como o Bolsa Família, num gesto em direção ao eleitor de menor poder aquisitivo – em tese, mais próximo do presidente Lula.

Nos bastidores, auxiliares do presidenciável que conversaram com a coluna descrevem uma “espinha-dorsal” assentada, por enquanto, em três pilares: venda da maior parte das estatais; estímulo à disciplina fiscal; e redução da carga tributária com a promessa de que, assim, o País deixaria para trás o “voo de galinha” para alcançar um crescimento sustentável de longo prazo. O discurso público também não pretende deixar de fora a manutenção de programas sociais. É justamente essa tentativa de conciliar Estado mínimo com vitrine social que hoje alimenta o desconforto de uma parte relevante da Faria Lima, coração do mercado financeiro no País. 

A equipe econômica de Flávio opera, por ora, em modo silencioso, mas com interlocução intensa com investidores e economistas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em reuniões fechadas, o pré-candidato tem repetido que pretende “enxugar” a máquina pública, reduzir tributos e burocracia e promover um corte amplo em gastos considerados supérfluos, numa tentativa de sinalizar compromisso com o equilíbrio das contas sem recorrer aumento de impostos. A mensagem central é de que o governo precisa “gastar menos do que arrecada”, com ajuste concentrado no lado da despesa e retomada de reformas pró-mercado deixadas em suspenso após 2022, depois da posse do presidente Lula.

No centro desse desenho, está a retomada de uma agenda agressiva de privatizações, com venda da maior parte das estatais e enxugamento do papel do Estado na economia. Flávio já falou publicamente em privatizar até 95% das empresas públicas, preservando presença apenas em áreas consideradas estratégicas e ampliando o uso de parcerias público-privadas. A narrativa apresentada a investidores é a de “virar a página da era das estatais” e usar as desestatizações para recompor a confiança na política fiscal e destravar investimentos, discurso que, em linhas gerais, encontra boa receptividade no mercado.

O ponto de fricção surge quando o mesmo projeto rejeita o rótulo de “ultraliberal” e insiste em manter programas de transferência de renda como o Bolsa Família. Os formuladores próximos ao pré-candidato que conversaram com a coluna repetem que “não queremos rotular como projeto liberal, pois manteremos projetos sociais como o Bolsa Família”, numa tentativa de reduzir o desgaste com a base popular e neutralizar a narrativa de que um eventual novo governo cortaria benefícios sociais. A promessa é de que o ajuste viria de cortes em privilégios e ineficiências, sem “mexer” no benefício que garante um piso mínimo de renda às famílias mais vulneráveis.

Em conversas reservadas, gestores e estrategistas que participaram desses encontros com o senador admitiram simpatia pela agenda de privatizações e pelo discurso de previsibilidade fiscal, mas veem com desconfiança a blindagem explícita do Bolsa Família. Um gestor de um grande fundo local resume uma dúvida: é difícil compatibilizar um programa de transferência de renda dessa escala, tratado como intocável, com a promessa de um ajuste profundo e de uma carga tributária mais baixa. Um sócio de banco que esteve em almoço com o pré-candidato em São Paulo avalia que a combinação entre retórica de Estado mínimo e preservação integral de um programa lido como populista pode limitar o espaço para um ciclo de crescimento sustentado apenas com investimento privado e corte de gastos.

À medida que o plano entra na fase de detalhamento, o dilema tende a se acentuar. A campanha enxerga na conciliação entre liberalismo econômico e Bolsa Família uma fórmula eleitoralmente potente, capaz de reduzir o medo de perda de renda entre os mais pobres e ampliar o alcance do discurso pró-mercado. Em contrapartida, parte do mercado avalia que, sem algum tipo de reconfiguração das políticas de transferência, o projeto corre o risco de ficar preso a um meio-termo em que não seria satisfatório nem para o mercado (que defende um corte mais profundo do gasto social em nome de um ajuste das contas públicas) nem o campo dito “progressista” (orientado por um Estado mínimo). É nesse cruzamento entre planilha e palanque que o plano econômico de Flávio Bolsonaro será, em última instância, testado até abril, quando deverá ser lançado juntamente com o seu “Posto Ipiranga” da Economia. 

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