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Por Ricardo Humberto Rocha Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Professor e coordenador do Programa Avançado em Finanças do Insper. Fatos, dados e histórias do mundo do dinheiro

Quem controla o futuro?

Dos laboratórios da Guerra Fria aos mercados, das criptomoedas aos data centers orbitais, disputa continua sendo por poder, energia e recursos

Por Ricardo Humberto Rocha 21 jul 2026, 15h52 | Atualizado em 21 jul 2026, 15h54
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Prezados leitores da VEJA e da VEJA NEGÓCIOS, há mais de quatro décadas, li uma reportagem em um grande veículo de imprensa que jamais saiu da minha memória. Ela descrevia um cenário que hoje parece distante, mas que naquele momento era tratado com absoluta seriedade por governos, militares e especialistas: a possibilidade de um ataque soviético à Europa Ocidental. Lembro-me particularmente da referência a Paris. Não era ficção. Não era um roteiro de cinema. Era uma análise sobre uma hipótese considerada plausível em pleno auge da Guerra Fria.

A leitura me causou um impacto profundo. Pela primeira vez compreendi que a prosperidade, a paz e a estabilidade econômica não eram permanentes. O mundo que parecia sólido podia ser transformado por decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância.

Ao longo dos anos, voltei muitas vezes àquela lembrança. E talvez a pergunta que mais me acompanhou não tenha vindo dos estrategistas militares ou dos economistas. Veio da literatura.

Machado de Assis observava os seres humanos com uma lucidez rara. Em

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Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, acompanhamos personagens que buscam riqueza, reconhecimento, prestígio e poder, mas que continuam movidos pelas mesmas ambições, vaidades, desejos e medos que acompanham a humanidade há séculos. Talvez a história econômica siga lógica semelhante. As ferramentas mudam. As tecnologias mudam. Os instrumentos mudam. Os seres humanos, nem tanto.

Mais de quatro décadas se passaram. A União Soviética desapareceu. O Muro de Berlim caiu. A internet revolucionou a economia. A inteligência artificial passou a ocupar o centro das atenções. No entanto, ao observar as manchetes atuais, percebo que a essência da preocupação continua a mesma. A incerteza permanece como uma das poucas constantes da história.

Talvez uma das maiores ilusões de cada geração seja acreditar que enfrenta riscos completamente inéditos. Mudam os atores, mudam as tecnologias, mudam os discursos. Mas os desafios fundamentais permanecem surpreendentemente semelhantes. Na década de 1980, temíamos mísseis nucleares apontados para cidades europeias. Hoje discutimos inteligência artificial, minerais críticos, semicondutores, energia nuclear, guerras comerciais, ciberataques, soberania tecnológica e a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. Os temas mudaram. A disputa pelo poder continua.

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Essa reflexão me levou a revisitar dois livros extraordinários de Peter Bernstein. Em Against the Gods (Desafio aos Deuses, na versão brasileira) o autor narra a fascinante trajetória da humanidade na tentativa de compreender e administrar o risco. Durante séculos, as sociedades atribuíram o futuro aos deuses, ao destino ou à sorte. O surgimento da teoria das probabilidades permitiu algo revolucionário: transformar a incerteza em algo mensurável.

Em

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Capital Ideas (A História do Mercado de Capitais, na versão brasileira), Bernstein mostra como essa revolução intelectual foi incorporada pelos mercados financeiros. Modelos quantitativos, teorias de portfólio, precificação de ativos e gestão de riscos transformaram Wall Street em uma sofisticada máquina de cálculo. Mas há um aspecto da obra que merece atenção especial. Muitos dos profissionais que ajudaram a construir a moderna engenharia financeira não eram economistas tradicionais. Eram físicos, matemáticos, engenheiros e especialistas em modelagem quantitativa. Durante décadas, boa parte desse talento esteve associada aos grandes programas científicos e tecnológicos desenvolvidos durante a Guerra Fria.

Quando a tensão entre os blocos começou a diminuir, esses cérebros não desapareceram. Apenas mudaram de endereço.

Os profissionais que antes modelavam trajetórias balísticas, sistemas complexos e cenários estratégicos passaram a modelar mercados, derivativos, volatilidade e risco financeiro.

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O inimigo deixou de ser o bloco soviético.

Passou a ser a incerteza dos mercados.

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Talvez Bernstein e Machado de Assis, cada um em seu campo, tenham estudado o mesmo fenômeno por ângulos diferentes. Bernstein mostrou como aprendemos a medir riscos. Machado provavelmente nos lembraria que continuamos extremamente vulneráveis aos nossos próprios impulsos. Afinal, por trás de cada bolha financeira, de cada crise especulativa, de cada episódio de euforia coletiva ou de pânico generalizado, continuam presentes os mesmos elementos que povoam a literatura há séculos: ganância, medo, esperança, ambição e vaidade.

O século XX foi, em grande medida, a celebração dessa conquista intelectual. Acreditamos que, com dados suficientes, modelos adequados e capacidade computacional crescente, seríamos capazes de compreender praticamente qualquer risco. Mas a história tem o hábito de desafiar nossas certezas.

A crise financeira de 2008 mostrou que os modelos são extremamente úteis, mas não são infalíveis. Mais recentemente, a pandemia, os conflitos geopolíticos, a guerra na Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e China lembraram aos investidores que existem riscos que não cabem perfeitamente em planilhas.

É nesse ponto que outra obra se torna particularmente relevante. Em A Era do Ouro, Vaclav Smil analisa o extraordinário período de prosperidade material construído após a Segunda Guerra Mundial. Seu argumento é simples e poderoso. O crescimento econômico não foi resultado apenas de boas ideias financeiras, inovação ou expansão dos mercados. Ele foi sustentado por energia abundante, recursos naturais, infraestrutura física, avanços científicos e estabilidade institucional.

Durante décadas, acostumamo-nos a pensar que o capital era o principal motor da economia global. Hoje estamos descobrindo que o capital, sozinho, não resolve tudo.

A ascensão da inteligência artificial oferece um exemplo perfeito dessa realidade. Muitas pessoas enxergam a nova economia digital como algo quase imaterial. Mas por trás de cada avanço tecnológico existe uma gigantesca infraestrutura física. Data centers consomem volumes crescentes de eletricidade. Redes elétricas exigem cobre. Baterias demandam lítio, níquel, grafite e cobalto. Semicondutores dependem de cadeias produtivas extremamente sofisticadas. Equipamentos estratégicos utilizam terras raras cuja produção está concentrada em poucos países.

Em outras palavras, a economia mais sofisticada da história continua dependente de elementos extraídos do subsolo.

Essa constatação ajuda a explicar por que os minerais críticos se transformaram em um dos temas centrais da geopolítica contemporânea. Durante grande parte do século XX, o petróleo ocupou o centro das atenções. Hoje, a disputa se amplia para incluir lítio, cobre, urânio, grafite, terras raras e outros recursos essenciais para a transição energética e para a economia digital.

O resultado é uma mudança significativa na forma como governos e empresas enxergam o futuro. Durante os anos 1990 e boa parte dos anos 2000, predominava a visão de que a globalização reduziria conflitos e aproximaria os países. A integração econômica parecia tornar guerras cada vez menos prováveis. Os acontecimentos recentes mostram uma realidade mais complexa.

A geopolítica voltou a ocupar posição central nas decisões de investimento. Questões como segurança energética, independência tecnológica, acesso a recursos estratégicos e resiliência das cadeias produtivas passaram a influenciar governos, empresas e investidores.

A energia nuclear ilustra bem essa transformação. Após décadas de desconfiança em diversos países, ela voltou ao centro do debate. O motivo é simples. Economias cada vez mais digitalizadas exigem fornecimento contínuo e confiável de energia. Fontes renováveis desempenham papel fundamental, mas a necessidade de estabilidade energética reacendeu o interesse por usinas nucleares convencionais e por pequenos reatores modulares.

A nova corrida tecnológica não depende apenas de algoritmos mais sofisticados. Ela depende também de quem será capaz de fornecer energia suficiente para sustentá-los.

Talvez este seja o grande paradoxo do nosso tempo. Enquanto celebramos avanços digitais extraordinários, redescobrimos a importância da geologia. Enquanto discutimos o futuro, voltamos a olhar para minas, portos, usinas, linhas de transmissão e cadeias logísticas.

Essa percepção também ajuda a entender fenômenos mais recentes, como o surgimento das criptomoedas. Durante alguns anos, muitos acreditaram que a riqueza poderia se tornar completamente digital, dissociada do mundo físico. Parecia que códigos de computador seriam suficientes para criar uma nova arquitetura financeira global. Entretanto, até mesmo os criptoativos revelaram suas dependências materiais. Redes descentralizadas exigem energia, equipamentos, conectividade e infraestrutura computacional. O mundo digital jamais abandonou o mundo físico. Apenas tornou essa dependência menos visível.

O mesmo pode ser dito das empresas que lideram a atual revolução tecnológica.

Elon Musk talvez represente melhor do que qualquer outro empresário a convergência entre as forças que definirão o século XXI. Seus empreendimentos reúnem energia, mobilidade elétrica, satélites, inteligência artificial, robótica, infraestrutura espacial e capacidade computacional. Muitos investidores enxergam essas iniciativas como símbolos de uma economia baseada exclusivamente em inovação tecnológica. Na realidade, elas dependem simultaneamente de cobre, lítio, níquel, terras raras, semicondutores, energia elétrica abundante e cadeias produtivas globais altamente sofisticadas.

Talvez nenhum acontecimento recente simbolize melhor as transformações que estamos vivendo do que a abertura de capital da SpaceX. Em condições normais, um IPO já seria um evento relevante para os mercados. Mas a SpaceX não é uma empresa comum. Sua chegada ao mercado representa algo muito maior do que uma simples negociação de ações. Ela simboliza a convergência entre algumas das forças mais poderosas do nosso tempo: tecnologia, energia, defesa, inteligência artificial, conectividade global e exploração espacial.

Se os personagens descritos por Peter Bernstein em Capital Ideas transformaram Wall Street em um laboratório de modelos matemáticos, a SpaceX simboliza uma nova etapa dessa evolução. Pela primeira vez, uma empresa posicionada no centro da economia espacial passou a ser precificada diariamente pelos mercados públicos.

O mercado acompanha há décadas empresas de petróleo, bancos, siderúrgicas, mineradoras e gigantes da tecnologia. Agora começa a precificar algo diferente: infraestrutura econômica fora da Terra.

O IPO da SpaceX também revelou uma mudança profunda na percepção dos investidores. Durante décadas, empresas eram avaliadas principalmente por sua capacidade de produzir bens ou prestar serviços. Hoje, uma parcela crescente do valor atribuído a determinadas companhias está relacionada ao seu potencial de construir plataformas capazes de integrar inteligência artificial, conectividade global, computação distribuída, logística espacial e novos modelos de infraestrutura digital.

Existe uma ironia fascinante nessa trajetória. Durante anos acreditou-se que a economia digital reduziria a importância dos ativos físicos. O sucesso da SpaceX sugere exatamente o contrário. Quanto mais avançada se torna a tecnologia, maior parece ser a necessidade de infraestrutura, energia, materiais estratégicos e capacidade industrial.

Ao refletir sobre essas transformações, é impossível não lembrar de Júlio Verne. Em 1865, quando publicou Da Terra à Lua, a exploração espacial parecia uma fantasia literária. Poucos poderiam imaginar que, pouco mais de um século depois, seres humanos caminhariam sobre a superfície lunar e empresas privadas lançariam centenas de foguetes por ano. Verne não previu a SpaceX, naturalmente. Mas certamente compreenderia o impulso humano que a tornou possível: a combinação entre curiosidade, ambição, tecnologia e a disposição de transformar o aparentemente impossível em realidade.

Talvez seja justamente por isso que o IPO da SpaceX tenha despertado tanto interesse. Mais do que avaliar receitas, margens ou fluxos de caixa futuros, investidores passaram a atribuir valor econômico a uma visão de futuro que durante muito tempo pertenceu à literatura de ficção científica.

Em certo sentido, uma parte de Júlio Verne finalmente encontrou seu caminho até a Nasdaq.

Talvez nenhuma imagem simbolize melhor essa transformação do que as discussões sobre a expansão da infraestrutura computacional para além da Terra. A ideia de utilizar o espaço como plataforma para novas capacidades de processamento parece saída de um romance de ficção científica. No entanto, ela reflete uma lógica econômica bastante concreta: a busca permanente por energia, eficiência, conectividade e escala.

A crescente demanda por processamento de dados, treinamento de modelos e armazenamento digital está levando governos e empresas a estudar alternativas que pareciam impensáveis poucos anos atrás. Entre elas está a possibilidade de data centers orbitais alimentados por energia solar praticamente contínua, conectados por redes globais de satélites e integrados à infraestrutura terrestre.

À primeira vista, a ideia parece pertencer ao domínio da ficção científica.

Mas a própria história da inovação mostra que muitas das tecnologias que hoje consideramos banais foram vistas exatamente da mesma forma em seu nascimento.

O aspecto mais interessante, porém, é outro.

Mesmo um eventual data center em órbita dependerá de foguetes, metais especiais, cobre, terras raras, semicondutores avançados, energia, capacidade industrial e acesso a recursos estratégicos.

A fronteira tecnológica pode mudar de endereço.

Os fundamentos econômicos continuam os mesmos.

Se os leitores do século XIX ficariam impressionados com a ideia de um foguete reutilizável, talvez se surpreendessem ainda mais ao descobrir que já discutimos seriamente a possibilidade de instalar infraestrutura computacional em órbita para atender à crescente demanda por processamento de dados. O futuro que Júlio Verne imaginou continua se expandindo diante de nossos olhos.

Os cientistas que durante a Guerra Fria buscavam prever o comportamento de sistemas militares ajudaram a construir os modelos financeiros modernos. Hoje, empreendedores como Elon Musk tentam expandir os limites físicos da economia para além da atmosfera terrestre. Em ambos os casos, o objetivo permanece o mesmo: compreender, antecipar e moldar o futuro.

Peter Bernstein mostrou como aprendemos a medir riscos. Vaclav Smil nos lembra que a prosperidade possui fundamentos materiais que não podem ser ignorados.

Minha geração cresceu acompanhando um mundo dividido por blocos ideológicos. A geração atual observa a ascensão da inteligência artificial, a disputa por semicondutores, a corrida pelos minerais críticos e a expansão da economia espacial. Talvez ambas estejam observando manifestações diferentes de uma mesma realidade.

O futuro nunca foi controlado pelos deuses. Tampouco será controlado apenas pelos algoritmos.

Durante os anos 1980, acreditávamos que o futuro seria decidido por generais. Nas décadas seguintes, passamos a acreditar que seria decidido por financistas. Hoje muitos apostam que ele será decidido por plataformas digitais, sistemas inteligentes e gigantes da tecnologia.

Talvez a verdade seja mais simples. O futuro continuará sendo decidido pela interação entre conhecimento, capital, energia, tecnologia, poder político e acesso a recursos estratégicos ,exatamente como sempre ocorreu ao longo da história.

Machado de Assis provavelmente sorriria diante dessa discussão.

Júlio Verne talvez se encantasse com ela.

O primeiro nos lembraria dos limites da natureza humana.

O segundo nos lembraria dos limites da imaginação.

Entre um e outro está a história dos últimos 150 anos: uma sucessão de avanços tecnológicos extraordinários conduzidos por seres humanos que continuam movidos pelas mesmas ambições, medos, sonhos e incertezas.

Os instrumentos mudaram. Os cenários mudaram. Gosto de imaginar Júlio Verne acompanhando, em silêncio, a abertura de capital da SpaceX. Não estaria impressionado apenas com os números exibidos nas telas da Nasdaq. Talvez observasse, com a curiosidade de um escritor, milhares de investidores atribuindo valor econômico a uma ideia que, quando a colocou no papel em Da Terra à Lua, em 1865, parecia pura fantasia. Verne talvez não reconhecesse os algoritmos, os modelos quantitativos ou a velocidade dos mercados atuais. Mas reconheceria imediatamente o que realmente estava sendo negociado naquele pregão: a eterna disposição humana de investir no futuro, de financiar a inovação e de transformar a imaginação em realidade econômica.

Os algoritmos mudaram. A natureza humana continua sendo o fator de risco mais difícil de modelar.

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