Exaustão algorítmica: o que acontece quando as IAs viram nossos chefes?
O que acontece com humanos quando, em vez de tomar nosso emprego, as IAs viram nossos chefes? Esse é um dos cenários futuros que se desenham
Você não vai ser substituído por uma IA. Em vez disso, um agente IA vai microgerenciar suas atividades no trabalho.
Não sei o que é pior, hein!
Desde que li sobre essa ideia, descrita num evento pelo CEO da Nvidia, Jensen Huang, comecei a imaginar o caos de ter uma inteligência artificial como chefe. Embora ele não tenha usado essa palavra, na prática é isso que desenha: mais do que um copiloto passivo, a IA como um monitor controlando os passos das pessoas.
Logo conectei com a ideia de exaustão algorítmica, termo criado pelas pesquisadoras Michelle Prazeres e Issaaf Karhawi para se referir ao impacto da mediação das máquinas sobre o trabalho humano.
O que é exaustão algorítmica?
Exaustão algorítmica é um sentimento permanente de insatisfação, desânimo, ausência de criatividade e medo constante de ser punido por não dar conta das demandas de um chefe-robô. O algoritmo, como o nome do conceito já indica.
A ideia de “chefe-robô” parece meio desconectada da realidade, mas serve para descrever muitas profissões em que a rotina (ou parte dela) passa por controle de alguma IA. Por exemplo, motoristas de aplicativo. Beleza, eles têm escolha, mas a distribuição do trabalho segue a lógica das máquinas e as regras das plataformas.
Criadores de conteúdo também. Aliás, foi no contexto dos influenciadores que Michelle e Issaaf primeiro detectaram gente adoecendo por medo de perder visibilidade, o que no caso de quem paga seus boletos com trabalho nas redes sociais, pode levar a perder seguidores, trabalhos, faturamento… Uma cascata de complicações derivada de não se adequar à insaciável necessidade dos algoritmos por mais conteúdo.
E o que você, que não trabalha em nada do que descrevi acima, tem a ver com isso? Aqui retorno ao Jensen Huang, da Nvidia. Se um cara com tanto peso na indústria comenta com a maior naturalidade do mundo que nossas rotinas serão microgerenciadas por agentes de IA, melhor a gente prestar atenção.
Você se cansa, mas o seu chefe-robô, não
Não comento isso com qualquer caráter de tecnofobia, muito menos proponho que a gente largue as IAs, o que seria contraditório no contexto do meu trabalho. Mas como um alerta de que uma epidemia de exaustão algorítmica pode estar a caminho.
O algoritmo funciona como um chefe sem forma física mas com poder real: quem segue as regras, que mudam o tempo todo, é recompensado. Quem não consegue acompanhar ou se recusa é punido
Pense na sua rotina atual. Lembre dos muitos amigos e colegas que reclamam de se sentirem esgotados. Os sinais estão entre nós há tempo, tanto que o livro Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, virou um sucesso estrondoso nas mais variadas bolhas e espectros políticos. O autor fala da ideia de um “sujeito do desempenho”, que nossas gerações (aqui incluo X, Y e Z) foram moldadas para abraçar.
Todo dia eu penso que preciso produzir mais e sinto culpa se não dou conta da cada vez maior lista de afazeres. Poderia ser apenas problema meu, mas eu sei que não estou sozinho nisso. Porque uma característica do “sujeito do desempenho” é ser exigente consigo mesmo até o limite do Burnout. O que tende a piorar consideravelmente se entra em cena um “chefe” que nunca se cansa.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda






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