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Inteligência artificial, tecnologia e o que tudo isso muda na sua vida

A era do UNreality show: America’s Next Top Model pode ter modelo de IA

Como seria uma competição entre humanos e sintéticos? Talvez a gente descubra na próxima temporada do programa apresentado por Tyra Banks

Por Alvaro Leme 25 jun 2026, 11h55 | Atualizado em 25 jun 2026, 12h22
A era do UNreality show: America’s Next Top Model pode ter modelo de IA Priorizar nos meus resultados Google

Uma modelo feita com inteligência artificial pode participar da próxima edição de America’s Next Top Model (ANTM), programa em que Tyra Banks busca pessoas com potencial de virar estrelas do mundo fashion. Depois de anos fora do ar, há planos de uma nova temporada.

A declaração foi feita por um porta-voz de Tyra à revista estadunidense Entertainment Weekly, e imediatamente causou rebuliço.

Pode ser que seja só para chamar atenção para as tentativas da apresentadora de resgatar a relevância que o reality teve em seus dias de glória, cerca de duas décadas atrás.

Ou não. Embora seja alvo de muitas (merecidas) críticas, ANTM sempre teve o mérito de buscar inserir inovações em seus episódios. Por exemplo, buscou inserir opiniões de redes sociais na avaliação das participantes, numa época em que isso ainda não era corriqueiro.

Um grupo de mulheres jovens, de diversas etnias e cabelos, deitadas juntas em um tecido vermelho, vestindo tops com a inscrição Americas Next Top Model em rosa, preto ou branco, e calças jeans. Elas olham para cima, algumas com expressões sérias, outras com sorrisos sutis
America’s Next Top Model: programa teve 24 temporadas e há planos de uma nova edição (CBS Photo Archive/Getty Images)

Não ficou claro se essa modelo de IA participaria concorrendo com humanas, se seria apenas um avatar da própria Tyra ou uma espécie de consultora. Como boa estratégia de marketing, a equipe da artista divulgou apenas o suficiente para causar burburinho.

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Porém, a simples hipótese permite uma série de perguntas que não precisam envolver apenas fãs do reality, apaixonados por moda ou iniciados nesse formato de entretenimento. A declaração impacta profissionais da tecnologia também, por isso cá estamos falando do tema.

Minhas perguntas e reflexões sobre uma modelo de IA num programa de grande alcance da televisão norte-americana:

1. A Era do UNreality show

É, no mínimo, irônico que um formato de programa criado com a proposta de retratar a realidade (ok, isso ficou sempre longe de ser verdade, eu sei), abrace um personagem que é tudo, menos real.

Considero que caminhamos para a era dos “unreality shows”. O que não tem a ver com o grau de veracidade do que é exibido, mesmo porque os realities sempre foram intensamente roteirizados, mas com a natureza dos participantes.

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Hoje existem reality shows estrelados por frutas feitas com IA, que movimentam atenção massiva nas redes sociais. Aqui, esse componente saltaria para uma competição na televisão do país cuja cultura (ou falta de, em alguns casos) influencia boa parte do mundo.

2. Para quem o público vai torcer?

Nunca vimos, pelo menos não em larga escala e num produto tão pop, uma competição entre humanos e sintéticos. Os espectadores seriam capazes de torcer para as figuras de IA em vez de priorizar gente como a gente?

Arrisco que dependeria da narrativa construída em torno de cada um. O formato é caracterizado por empurrar as preferências da audiência em torno de determinados competidores, criando mocinhos, vilões e outros rótulos. Mas seria interessante de assistir, imagino. Se bem que o episódio em que as participantes mudam de visual talvez não tivesse a mesma graça.

3. Não é concorrência desleal colocar modelo de IA?

As profissionais de carne e osso têm dias ruins, se cansam, nem sempre entendem os pedidos e ordens dos contratantes. São… Humanas! O mesmo não vale para as IAs, que embora careçam do “molho” e (talvez) do carisma de uma pessoa, podem entregar fotos e campanhas que não necessariamente uma modelo normal faria.

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Mulher de pele morena e cabelo curto, sorrindo amplamente com as mãos sobre o peito, vestindo um vestido laranja e dourado de alças finas, em um ambiente interno com quadros ao fundo
Naima Mora, vencedora da temporada 4 do reality America’s Next Top Model (CBS Photo Archive/Getty Images)

4. IAs contra humanos na TV: o nicho

Se ANTM de fato inserir uma modelo de IA como concorrente — e isso fizer um sucesso estrondoso — podemos considerar oficialmente consolidado o nicho de programas com figuras sintéticas na televisão aberta e no streaming. Claro, vai ser preciso contornar o crescimento dos movimentos anti-IA nos Estados Unidos, mas não parece missão impossível dependendo do orçamento de marketing disponível.

5. Impactos no mercado de trabalho

Já existem agências, inclusive no Brasil, que criam versões de suas modelos com IA. Elas entram em ação, por exemplo, para casos em que a profissional humana não pode comparecer. Eu não diria que uma modelo de IA em ANTM ameaça as modelos de carne e osso, portanto. Mas, sim, e com muito mais estrago, as pessoas envolvidas em trabalhos da moda.

Se em vez de um shooting, você tem um prompt, a modelo envolvida e sua agência serão pagos pelo uso da imagem. Fotógrafos podem atuar como consultores técnicos (ou mesmo gerar as imagens). Como ficam, no entanto, os demais profissionais? Produtores de moda, o pessoal do catering, stylists, motoristas, costureiras… Muitas famílias ficam sem seu ganha-pão, e isso tem que ser debatido.

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6. Se a modelo de IA ganhasse, seria justo?

Vamos pensar que uma modelo de IA tenha sido treinada com imagens estáticas, vídeos e incontáveis outros trabalhos de humanas na indústria fashion. Se essa personagem sintética vencesse ANTM, ela venceria com o quê exatamente? Afinal, tudo que ela sabe fazer foi extraído de quem perdeu.

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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda

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