Com a IA, até o profissional júnior precisará chegar mais experiente
Vera Goulart, da SPTech, aponta quais competências ganharam importância para quem está no início da carreira
Alguns profissionais mais velhos olham para jovens iniciantes com desdém, às vezes classificando as novas gerações como “alecrim dourado” ou “mimimizentos”.
É um olhar preconceituoso, sim, e que eu nem precisaria repetir aqui que se deve evitar. Mas que nasce de uma dificuldade real: muitos jovens chegam à vida adulta com menos capacidade de comunicação, menos resiliência e nem sempre prontos para trabalhar em equipe.
Junte a isso a chegada das IAs, assumindo muitas tarefas de entrada na rotina, e está pronta a receita para um futuro ainda mais complicado nos ambientes de trabalho.
Para entender melhor sobre isso, busquei ajuda de alguém que entende tudo a respeito (como se espera de qualquer jornalista, a bem da verdade): Vera Goulart, cofundadora e diretora acadêmica da São Paulo Tech School, aka SPTech, universidade especializada em carreiras tech.
Atualmente com 1.500 alunos ativos, a SPTech propõe como diferencial complementar o ensino da graduação com o que chama de “formação socioemocional”. Conversei com Vera durante o ITForum Praia do Forte, evento realizado pelo IT Forum, frente de negócios do Itaqui.
VEJA: Há quem afirme que cargos juniores serão sido substituídos por modelos de inteligência artificial. Você, que lida diretamente com as novas gerações chegando ao mercado, acredita nisso?
Vera: A IA hoje realmente substitui uma série de tarefas de entrada, mas faz zero sentido falar que não vai mais haver profissionais juniores. Senão, daqui a 5 anos, não teremos pleno e nem sênior, certo?
Existe uma questão de sucessão, com certeza.
As empresas que entendem o processo de formação nos dizem que, quando eu trago o júnior, oxigeno minha equipe. Mas, mais do que isso, faço aquele profissional com anos de experiência em tecnologia se movimentar, porque ele percebe que tem gente nova vindo atrás.
Num cenário em que a IA assume tarefas antes feitas pelo estagiário, o que isso muda no perfil dos jovens?
A gente tinha uma esteira de formação, por exemplo, que começava com um estagiário de programação criando código. Agora, a IA faz isso, então o escopo dele passa a incluir uma série de outras atividades, inclusive validar o que a IA fez.
Esse escopo impacta em termos de repertório, você diz?
O profissional júnior tem que entrar mais bem preparado no mercado de trabalho. Antes, ele ia se desenvolver à medida que a carreira avançasse, entendeu? Agora, precisa já chegar mais preparado.
Quando eu trago o júnior, oxigeno minha equipe e faço aquele profissional com anos de experiência em tecnologia se movimentar
Vera Goulart
Inclusive do ponto de vista socioemocional, não? Vi que vocês trabalham com uma abordagem nesse sentido.
Essa geração mais jovem tem uma grande dificuldade com a questão socioemocional. Eles vêm mais despreparados em características como comunicação, trabalho em equipe, relacionamento, resiliência. Um perfil muito menos resiliente do que a nossa geração foi treinada a ser. Então, isso precisa ser trabalhado na faculdade também.
Um executivo com quem conversei falou que às vezes um profissional é um gênio da computação, mas não tem soft skills para lidar com as pessoas no dia a dia. É isso que você tenta equilibrar com formação socioemocional na graduação?
Tem absolutamente tudo a ver com isso. Fui diretora de RH por muito tempo, e já percebia que muitas vezes a pessoa tem habilidade técnica que destoa do comportamental – ou vice-versa. Levei para a SPTech a convicção que, se quero garantir a empregabilidade do meu aluno, preciso trabalhar esses pontos.
A geração mais jovem vem mais despreparada em características como comunicação, trabalho em equipe, relacionamento, resiliência
Vera Goulart
Em que consiste essa formação, na prática?
Nós desenhamos uma jornada de quatro anos. No primeiro ano, focamos em autoconhecimento e modelagem de comportamento básico, como pontualidade e assiduidade. Mostramos que, se na escola o aluno podia faltar 25% das aulas, na empresa essa ausência gera demissão. Também trabalhamos flexibilidade cognitiva, comunicação e introdução a valores. No segundo ano, quando eles começam a estagiar e a receber salário, entra o planejamento financeiro: criamos uma planilha de receitas e despesas e, todo dia 10, fazemos o aluno preenchê-la para aprender a organizar a própria vida. No terceiro ano, quando o cansaço da rotina dupla aperta, o foco principal passa a ser resiliência e planejamento de carreira. Por fim, no quarto ano, damos maior autonomia ao estudante e trabalhamos temas correlatos que ele queira aprofundar, partindo das experiências práticas que ele acumulou nos primeiros três anos de formação.
Seu relato me faz pensar, por um lado, que isso é superproteger os jovens. Porém, também me parece que eles já chegam até você com essa necessidade, não é que vocês deixam o aluno dependente assim. Vem da criação, parece.
É justamente isso, o aluno já chega infantilizado, ele não tem esse conhecimento. Alguns já vêm com essa característica de se virar sozinho, mas tem caras que vão ficar pelo caminho, e nosso papel como educadores é tentar evitar isso. A gente fala muito sobre autonomia com eles. E chega num nível de desdobramento que eu falo assim: “O que que você precisa fazer amanhã para atingir seu sonho daqui a 30 anos?” Faço a analogia da rodinha da bicicleta. Começo com as duas, que vão sendo retiradas ao longo do curso.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda







