O brasileiro quer mais tempo para viver
Pesquisa mostra que 78% dos brasileiros querem a jornada de trabalho 5x2. O debate vai além da folga, abordando saúde e qualidade de vida.
A discussão sobre a escala 6×1 coloca no centro um ativo que todo mundo tem, mas nem todo mundo consegue usar da mesma forma: o tempo.
Em tese, ele é o ativo mais democrático que existe: todo mundo recebe 24 horas por dia. Mas, para quem vive entre trabalho, bico, transporte, cuidado com os filhos e tarefas domésticas, tempo livre virou artigo de luxo.
Quanto tempo o brasileiro tem para viver depois do expediente?
Pesquisa que realizamos no Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro mostra que 78% dos brasileiros são favoráveis à mudança da jornada de 44 horas semanais, distribuídas em seis dias de trabalho e um de descanso, para uma escala 5×2, com 40 horas semanais. São cerca de 128 milhões de pessoas.
E esse apoio à mudança da escala vai além da polarização política. Entre eleitores de direita, chega a 61%; entre os de esquerda, 96%. Entre as mulheres, 83%, e entre a Geração Z, 86%. Não por acaso, o apoio é mais alto justamente entre grupos para os quais o tempo costuma ser uma questão mais sensível: entre as mulheres, porque a jornada de trabalho frequentemente se soma ao cuidado com a casa e com os filhos; entre os mais jovens, porque cresce a rejeição a uma rotina em que o trabalho ocupa quase todo o dia e deixa pouca margem para estudo, lazer, relações e projetos pessoais.
Quando perguntamos por que defendem a mudança, as respostas ajudam a entender o que está em jogo. 66% dizem que o trabalhador merece mais tempo para si e para a família; 53% afirmam que muita gente usa o único dia de folga para cuidar da casa e dos filhos; e 49% acreditam que um único dia não é suficiente para descansar de verdade.
Porque folga não significa necessariamente descanso. E, para muita gente, o único dia sem expediente é o dia de lavar roupa, limpar a casa, fazer comida para a semana, cuidar dos filhos e resolver tudo aquilo que não coube nos outros seis dias. O trabalho remunerado termina, mas o trabalho necessário, e muitas vezes invisível, para manter a vida da família funcionando continua.
Entre os brasileiros que trabalham em escala 6×1, 69% dizem que ela afeta o tempo com a família e 61% apontam impacto sobre sono e descanso. Outros 67% afirmam que a escala piorou sua saúde mental, 62% relatam piora na saúde física e 63% dizem que sua vida piorou de forma geral.
O brasileiro quer ter mais controle sobre o próprio tempo. Para quem vive uma rotina de trabalho intensa, especialmente para quem vive com menos renda, cada hora é disputada entre trabalho, bico, deslocamento, cuidado, casa e descanso.
O outro lado da discussão também precisa ser considerado. Entre os contrários à mudança, 69% acreditam que a redução da jornada aumentará os custos das empresas e fará com que sejam repassados à população. É uma preocupação legítima. Uma mudança dessa dimensão precisa considerar produtividade, custos e a organização necessária para que diferentes setores continuem funcionando e empregos sejam preservados.
Mas existe outra conta que também precisa entrar nesse debate: o custo de uma sociedade permanentemente cansada.
E é aqui que a tecnologia aparece de forma particularmente relevante. 74% dos brasileiros concordam que ela aumentou a produtividade, mas que esse ganho teria melhorado mais o lucro das empresas do que a vida do trabalhador. Outros 70% entendem que, se a tecnologia aumentou a produtividade, o trabalhador deveria trabalhar menos.
A pergunta é simples: quando uma sociedade consegue produzir mais em menos tempo, quanto desse ganho deve se transformar em tempo para o trabalhador?
O Brasil já passou por discussões sobre direitos que hoje parecem naturais, como férias remuneradas, 13º salário e descanso semanal. Isso não significa que reduzir a jornada seja gratuito. Há custos, e eles precisam ser avaliados. Mas também existe um custo social quando 85% dos brasileiros concordam que muitas pessoas sacrificam saúde e lazer para manter a renda.
Há dois números que resumem esse sentimento: 83% dizem que as pessoas estão vivendo cada vez mais cansadas e 81% afirmam que descansar se tornou um privilégio para a grande maioria dos trabalhadores.
O trabalho continua sendo fonte de renda, autonomia e mobilidade social. É com ele que se paga o aluguel, coloca comida na mesa, permite estudar, melhorar a casa, comprar uma moto e realizar sonhos. Mas família, saúde, descanso, amigos, estudo e lazer também precisam caber na vida.
O desafio é construir uma transição que preserve empregos, dê previsibilidade às empresas e permita discutir como os ganhos de produtividade podem melhorar também a vida de quem trabalha.
Porque a discussão sobre a escala 6×1 é também uma discussão sobre quanto da vida sobra depois do trabalho.
E, para muita gente, sobra pouco demais.







