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Por Trás dos Números

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Renato Meirelles é pai da Helena, acredita que a Terra é redonda, está à frente do Instituto Locomotiva e, neste espaço, interpreta os números muito além da planilha Excel

O consumo de 2026 é para organizar a vida

Mesmo com renda pressionada e crédito caro, brasileiro segue planejando compras que ajudam a colocar ordem no cotidiano

Por Renato Meirelles Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 jan 2026, 16h10
O consumo de 2026 é para organizar a vida Priorize VEJA no Google

Quando o brasileiro fala em trocar o celular, comprar um móvel ou planejar uma viagem, ele não está falando de desejo supérfluo. Está falando de sobrevivência organizada. Em 2026, o consumo deixou de ser vitrine e virou manual de instruções da vida real. De acordo com pesquisas recentes sobre consumo realizadas pelo Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, ouvindo brasileiros de todas as regiões e classes sociais, mesmo com renda pressionada e crédito caro, o brasileiro segue planejando compras que ajudam a colocar ordem no cotidiano.

Para quem observa apenas os indicadores macroeconômicos, isso pode parecer contraditório. A economia avança lentamente e o orçamento das famílias segue apertado. Ainda assim, o planejamento de consumo permanece. Não como impulso, mas como estratégia. O celular, por exemplo, deixou de ser símbolo de status há muito tempo. Hoje, ele é ferramenta básica de trabalho, renda e organização da rotina. Sem ele, o entregador não trabalha, a manicure não agenda clientes, o pequeno empreendedor não vende. Trocar o aparelho não é luxo. É manter a capacidade de funcionar.

O mesmo raciocínio vale para móveis e eletrodomésticos. Quando o brasileiro fala em comprar um armário, uma geladeira ou uma máquina de lavar, ele está pensando em ganhar tempo, reduzir esforço físico e organizar a casa para trabalhar e viver melhor. A casa deixou de ser apenas espaço de moradia. Virou também espaço produtivo. Nesse contexto, organizar a casa é organizar a vida.

Por isso, o que muitos chamam de consumo represado é, na prática, consumo funcional. Compra-se menos para ostentar e mais para reduzir improvisos. Planejar virou uma forma de proteção diante de uma rotina instável, em que o tempo é curto, o dinheiro é contado e o cansaço é permanente.

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As pesquisas também mostram que o desejo de viajar cresce, mas com outro significado. Viajar deixou de ser prêmio ou extravagância. Passou a ser uma tentativa de recuperar algum controle sobre o tempo, hoje um dos ativos mais escassos para quem vive no corre. Da mesma forma, o carro perde centralidade, enquanto a moto ganha espaço entre os mais pobres, não apenas como instrumento de trabalho, mas como ferramenta de gestão do tempo. A moto permite escapar do transporte lotado, reduzir horas perdidas no deslocamento e ampliar a quantidade de corridas, entregas ou serviços realizados no dia. É escolha por autonomia de tempo.

Outro ponto relevante é a queda da disposição para recorrer a empréstimos bancários. Não porque o brasileiro esteja menos pressionado financeiramente, mas porque aprendeu, pela experiência, que crédito caro raramente resolve o problema estrutural. Organiza o hoje e complica o amanhã. O aprendizado recente tornou o consumidor mais cauteloso, ainda que siga vivendo no limite.

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O consumo de 2026 é menos sobre desejo e mais sobre controle. Controle do tempo, da rotina, do trabalho e da ansiedade. É uma tentativa contínua de devolver previsibilidade a uma vida marcada por instabilidade. Planejar compras virou uma forma de organizar o caos, não de alimentar sonhos distantes.

Os dados das pesquisas de consumo ajudam a entender esse movimento com clareza. O brasileiro não está comprando mais porque está confiante. Está comprando porque aprendeu que improvisar custa caro. Custa dinheiro, tempo e saúde mental. Em um país onde a margem de erro da vida cotidiana é pequena, cada decisão de consumo carrega uma lógica de sobrevivência.

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Em 2026, o carrinho de compras é menos vitrine e mais mapa. Ele revela escolhas pragmáticas, feitas para manter a vida funcionando. Quem entender isso vai compreender melhor o Brasil real. Quem insistir em olhar apenas para o consumo como desejo continuará sem entender por que, mesmo em tempos difíceis, o brasileiro segue planejando o próximo passo.

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