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Em crise, CVM amplia dependência da Anbima

Autarquia promete ao STF recuperar autonomia, mas amplia poder de entidade privada sobre ofertas públicas

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 jul 2026, 12h30
Em crise, CVM amplia dependência da Anbima Priorizar nos meus resultados Google

Pouco mais de um mês depois de apresentar ao Supremo Tribunal Federal um plano para recuperar sua autonomia tecnológica e supervisora, a Comissão de Valores Mobiliários ampliou a participação da Anbima em atividades estratégicas do regulador.

A contradição consta nos documentos da própria autarquia.

No plano emergencial entregue ao STF em maio, a CVM estabeleceu como prioridade a “internalização de capacidades estratégicas hoje sob entidades de autorregulação”. O texto cita Anbima, B3 e BSM e determina que sistemas, bases de dados e rotinas críticas sejam mapeados para possível internalização, replicação ou auditoria independente.

O objetivo declarado é garantir autonomia para a CVM definir suas prioridades de fiscalização.

Na prática, porém, o movimento recente foi no sentido contrário. Em julho, a autarquia aprovou um acordo de cinco anos para que a Anbima continue responsável por ajustes, correções e melhorias no Sistema SRE, usado no registro de ofertas públicas.

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A CVM também ampliou o número de produtos que podem ser analisados previamente pela associação. Notas comerciais, CRAs e certificados de recebíveis se juntaram a ações, debêntures, CRIs, FIDCs, fundos imobiliários, Fiagros e fundos de infraestrutura.

Com um parecer sem restrições da Anbima, a operação pode receber registro automático, sem nova análise prévia da CVM. Até agora, 105 ofertas, que movimentaram R$ 42 bilhões, passaram pelo modelo.

A Anbima representa bancos, gestoras, corretoras e outras instituições reguladas pela CVM. Também cobra pela análise: em ofertas de CRIs, CRAs e outros títulos de securitização, a taxa pode chegar a R$ 198,4 mil.

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O convênio é permitido pela regulamentação e não há evidência de irregularidade concreta. Mas existe uma tensão evidente quando uma entidade financiada pelo mercado analisa pedidos de seus participantes e produz o parecer que abre caminho para o registro público.

O quadro ganha peso diante da crise da CVM. A autarquia afirma precisar de mais 544 inspetores. Em 2025, arrecadou aproximadamente R$ 1,1 bilhão em taxas de fiscalização, mas contou com R$ 234 milhões para despesas obrigatórias e apenas R$ 35 milhões de orçamento discricionário.

Seu plano emergencial também identificou 1.031 processos com potencial sancionador nas áreas técnicas, cerca de 1.500 casos na supervisão de fundos ainda aguardando avaliação e 160 pendências no colegiado.

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A Anbima não criou esse vazio. Está ocupando um espaço que o Estado deixou aberto.

O problema começa quando a cooperação deixa de ser complementar e se torna dependência. Enquanto promete ao STF recuperar o controle sobre sistemas e funções estratégicas, a CVM amplia o espaço de uma entidade que representa os próprios fiscalizados.

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