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Quando a busca por eficiência pode aumentar a corrupção

Um Estado lento, pesado e burocrático seria, por definição, mais vulnerável à corrupção. Reformá-lo, portanto, significava moralizá-lo

Por Felippe Araújo Barbosa da Silva 29 Maio 2026, 10h00
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“Farei realizar rigoroso levantamento e racionalização do setor público, como prova do meu respeito e homenagem aos verdadeiros servidores, aos que se dedicam zelosa e meritoriamente às tarefas do Estado, e que não devem jamais ser confundidos com os que se locupletam de cargos miríficos e salários mirabolantes, sem nenhuma contrapartida social.”

Foi dessa maneira, com um tom incisivo e associando diretamente a reforma do Estado a uma dimensão moral, que o primeiro presidente diretamente eleito da Nova República, Fernando Collor de Mello, apresentou sua proposta de transformação administrativa no discurso de posse.

Nos anos 1990, o Brasil não buscava apenas um Estado mais eficiente. Buscava um Estado mais íntegro. Em meio à crise fiscal, à hiperinflação recente e ao desgaste das instituições públicas, consolidou-se a ideia de que a ineficiência estatal não era apenas um problema técnico, mas também moral. Um Estado lento, pesado e burocrático seria, por definição, mais vulnerável à corrupção. Reformá-lo, portanto, significava não apenas modernizá-lo, mas também moralizá-lo.

Essa ideia atravessou governos. Foi nesse contexto que ganhou força o chamado “paradigma gerencialista”. Inspiradas por experiências internacionais, sobretudo inglesas e americanas, as reformas administrativas daquele período, entre Collor e Fernando Henrique Cardoso, propuseram um Estado novo: mais eficiente, mais racional e, como consequência esperada, menos corrupto.

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Três décadas depois, no entanto, essa promessa merece ser revista com maior cautela.

Houve, sem dúvida, ganhos importantes em áreas como planejamento, monitoramento e avaliação de políticas públicas. Entretanto, a introdução de instrumentos gerenciais e as agendas reformistas não eliminaram as oportunidades de corrupção. Em muitos casos, apenas as transformaram. A ampliação de contratos, parcerias com organizações sociais, terceirizações e novos arranjos institucionais aumentou a complexidade da ação estatal e, com ela, produziu novas zonas de difícil controle.

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Mais do que isso, ao ser apresentada como solução técnica, a agenda de reformas frequentemente ocultou seu caráter político. Reformar o Estado não é apenas torná-lo mais eficiente. Quando essas escolhas são enquadradas como meramente técnicas, o debate público tende a se estreitar. 

Nesse sentido, a própria ideia de eficiência pode operar como um dispositivo de despolitização. Ao deslocar o foco para resultados e desempenho, ela reduz a visibilidade dos meios e dos processos pelos quais esses resultados são alcançados. O risco é que a busca por agilidade venha acompanhada de uma perda de densidade nos controles.

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Além disso, a própria noção de desempenho, central no gerencialismo, pode produzir incentivos perversos. Quando metas são definidas de maneira rígida e descolada das condições reais de implementação, agentes públicos e privados podem ser levados a ajustar procedimentos para alcançá-las. Nesses casos, a pressão por eficiência não reduz a corrupção, apenas a reconfigura.

Outro ponto relevante diz respeito à dimensão cultural. A crença de que reformas institucionais, por si só, seriam capazes de transformar padrões de comportamento mostrou-se otimista demais. A corrupção não é apenas um problema de desenho organizacional, mas também de práticas arraigadas, relações de poder e valores compartilhados. Ignorar essa dimensão, ainda mais em um ano eleitoral, contribui para superestimar o alcance de soluções técnicas.

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Brasílio Sallum Jr., no seu “O impeachment de Fernando Collor – sociologia de uma crise”, aponta que um dos maiores problemas que o governo Collor passou foi a diminuição da importância da política, travando uma agenda de forma praticamente monocrática. Em contrapartida, o governo FHC, com maior relação com a política institucional e realizando várias negociações para instaurar o seu ideário, acabou contribuindo para o pensamento de que a política é um meio para um determinado fim, no caso, a reforma do Estado, como se as análises técnicas fossem, por si só, mais morais.

Revisitar criticamente as reformas dos anos 1990 não significa abandoná-las, mas compreendê-las em seus limites. Se a corrupção persiste, apesar das transformações institucionais, talvez seja porque o problema nunca foi apenas de gestão. E, ao tratar reformas como soluções técnicas neutras, corre-se o risco de obscurecer justamente aquilo que mais importa: as escolhas políticas que definem quem controla, quem decide e sob quais condições o poder é exercido. Nesse cenário, a promessa de eficiência pode, paradoxalmente, conviver com a fragilização da transparência.

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Felippe Araújo Barbosa da Silva é professor e doutorando em História Política pela Unesp

Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA

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