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Vernissage

Por Vitoria Monteiro de Carvalho Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Arte, cultura e tendências pelo mundo. Vitoria Monteiro de Carvalho é historiadora da arte e faz uma curadoria sensível e acessível desse universo encantador.

Quatro obras raras e imperdíveis na ArtRio 2026

A 16ª edição da feira reúne obras históricas de artistas mulheres, do período moderno ao contemporâneo, que seguem escrevendo a história da arte

Por Vitoria Monteiro de Carvalho 16 set 2026, 07h46 | Atualizado em 24 set 2026, 13h37
Quatro obras raras e imperdíveis na ArtRio 2026 Priorize VEJA no Google

A ArtRio abre nesta quarta-feira, 16, para colecionadores, e a partir desta quinta-feira, 17, até domingo, 20, para o público geral, na Marina da Glória. Entre as quase 100 galerias reunidas há um fio condutor que merece atenção: quatro obras imperdíveis assinadas por artistas mulheres.

1) Tarsila do Amaral, Terra, 1943, óleo sobre tela – Galeria Flexa

A mais antiga e talvez a mais simbólica, Tarsila é uma das fundadoras do modernismo brasileiro. Ainda nos anos 1920, esteve em Paris ao lado de Fernand Léger, absorveu o cubismo e o futurismo europeus e voltou ao Brasil decidida a construir uma linguagem própria, genuinamente nacional. A tela Terra, pintada em 1943, carrega essa maturidade artística. Nela, corpo e paisagem dividem os mesmos pigmentos e se fundem em um plano só, e as montanhas se confundem com o cabelo da figura, em um nu feminino de proporções alongadas que dialoga diretamente com o Abaporu, sua obra mais célebre, hoje no museu MALBA, em Buenos Aires. Esta mesma tela agora na ArtRio já foi exposta? pelo Guggenheim Bilbao e pelo Musée du Luxembourg, em Paris. Ver uma obra de Tarsila ao vivo, fora dos museus, é sempre um privilégio raro em uma feira de arte.

Pintura surrealista emoldurada, mostrando um corpo humano desmembrado e alongado, deitado em um deserto árido com cactos verdes e céu azul claro
Pintura de Tarsila do Amaral, Sol Poente, mostra uma figura feminina deitada em um deserto árido, com um cacto verde à direita. O corpo alongado e pálido da mulher, com cabelos esvoaçantes, contrasta com o céu azul e o solo em tons terrosos, transmitindo uma sensação de desolação e melancolia (./Divulgação)

2) Louise Bourgeois, Fallen Woman, 1996, porcelana e ouro fosco – Galeria Flexa 

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Louise Bourgeois nasceu em Paris em 1911 e cresceu em um ateliê de restauro de tapeçarias, onde sua mãe trabalhava como tecelã. É dessa infância entre fios e teares que nasce toda a obsessão da artista por fio, tecido e teia, presente até em sua escultura mais famosa, a aranha gigante Maman. Fallen Woman é um motivo ao qual Bourgeois voltou repetidas vezes ao longo da carreira, associado ao desamparo e ao fracasso, e funciona como crítica direta aos padrões morais impostos à vulnerabilidade feminina. A ideia surgiu em uma pintura ainda nos anos 1940 e retornou décadas depois, em pequenas esculturas como esta.

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Objeto de arte com cabo branco em formato de gota e uma cabeça feminina dourada com cabelos esvoaçantes na ponta, sobre fundo branco
Louise Bourgeois, Fallen Woman, 1996, porcelana e ouro fosco – Galeria Flexa (./Divulgação)

3) Beatriz Milhazes, Açúcar, 2009, xilogravura e serigrafia – Fortes d’Aloia & Gabriel 

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Hoje uma das artistas brasileiras mais valorizadas do mundo, com obras em alguns dos museus internacionais mais prestigiados do mundo, Beatriz Milhazes acaba de inaugurar, há poucos dias, “Pietrolina”, um mural de quase cem metros no novo túnel subterrâneo que liga os dois prédios do MASP na Avenida Paulista. Açúcar integra uma série de gravuras de 2009 cujos títulos evocam cheiros e memórias afetivas da cozinha brasileira, em diálogo direto com as colagens que a artista faz usando papéis reais de embalagens de doces e chocolates. Milhazes desenvolveu uma técnica própria, pintando primeiro sobre folhas de plástico para só depois transferir a imagem à tela, eliminando o gesto direto do pincel e ganhando um rigor formal raro aliado a uma liberdade quase carnavalesca de cor.

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Pintura abstrata com fundo de listras verticais coloridas e onduladas, sobrepostas por círculos pretos, azuis, roxos e vermelhos, alguns com formas internas e contornos
Beatriz Milhazes, Açúcar, 2009, xilogravura e serigrafia – Fortes d’Aloia & Gabriel (./Divulgação)

4) Adriana Varejão, Vaso-plano Maria, 2026, pintura sobre gesso, tela e resina – Galeria Flexa

Adriana Varejão representa o Brasil na Bienal de Veneza deste ano, dividindo o pavilhão brasileiro com Rosana Paulina. Nesta obra, a artista desafia os limites entre pintura e escultura. O objeto tem o formato de um vaso, mas duas faces craqueladas e pintadas, como se fosse ao mesmo tempo objeto e quadro. As fissuras que racham a superfície não são acidentais, a artista deixa o gesso secar naturalmente até craquelar sozinho, como a natureza desenha galhos, raízes e veias, e a pintura literalmente se fratura em busca do próprio equilíbrio. A série nasceu de uma exposição individual da artista em Atenas ano passado, em referência à cerâmica da Grécia Antiga, e ainda tem um detalhe importante: a figura preta pintada na peça vem de uma escultura de Maria Martins, outro nome fundamental do modernismo brasileiro.

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Vaso de cerâmica terracota com rachaduras, formato de ânfora achatada, dois orifícios superiores e pintura preta de uma serpente enrolada no centro, em um fundo branco e chão cinza
Adriana Varejão, Vaso-plano Maria, 2026, pintura sobre gesso, tela e resina – Galeria Flexa (./Divulgação)
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