SP-Arte 2026: o que não passou despercebido
Uma seleção de oito estandes que marcaram presença na maior feira de arte da América Latina
Em uma feira de arte com mais de 180 expositores e milhares de obras de arte e objetos singulares, é natural que muitas peças passem despercebidas entre os corredores. Porém, nessa edição da SP-Arte, algumas obras não passaram despercebidas: seja por suas cores vibrantes, seja pela importância de seu contexto histórico.
De quarta a domingo, entre 8 e 12 de abril, o Pavilhão da Bienal — projeto assinado por Oscar Niemeyer — recebeu a maior feira de arte da América Latina: a SP-Arte. Com mais de 180 expositores brasileiros e internacionais dos segmentos de arte e design, a feira é considerada um termômetro do mercado de arte brasileiro, que cresce e se expande ao longo dos anos.
De acordo com o relatório mais recente publicado pela Art Basel em parceria com a UBS, galeristas da América do Sul registraram um forte volume de vendas em 2025 e um crescimento significativo em comparação aos anos anteriores. A SP-Arte é certamente um dos fatores que impulsionam esse fenômeno, reunindo colecionadores e instituições de peso em um mesmo espaço.
A seguir, uma seleção de obras que ilustram a riqueza e diversidade da SP-Arte 2026 — entre períodos históricos, movimentos contemporâneos e uma ampla variedade de linguagens e materiais.
Flexa
Sediada no Rio de Janeiro, a galeria Flexa apresentou obras de renomados artistas nacionais e internacionais, como Anish Kapoor, Louise Bourgeois, Lucio Fontana e Yves Klein. Um dos destaques do estande da galeria esse ano foi um tríptico de Adriana Varejão, uma das mais importantes artistas da atualidade — e que, ao lado de Rosana Paulino, representará o Brasil na Bienal de Veneza de 2026. A obra em questão já foi exposta no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York, em 2002, e no CCBB do Rio de Janeiro, em 2001, além de ser publicada em diversos livros e catálogos de exposições. Os craquelados, que seguem uma ordem natural e orgânica na superfície da obra, dá à pintura um aspecto escultórico — uma técnica desenvolvida por Adriana desde a década de 1990, inspirada nas rachaduras das cerâmicas chinesas da dinastia Song, datadas do século XI.
Fortes d’Aloia & Gabriel
O estande da Fortes d’Aloia & Gabriel reuniu obras de alguns dos mais influentes artistas brasileiros contemporâneos, como Beatriz Milhazes, Luiz Zerbini e Sophia Loeb. Um dos destaques foi uma pintura em grande escala produzida este ano pela artista Janaina Tschäpe. A obra é marcada por gestos expressivos feitos com tinta a óleo e bastão que transmitem uma constante instabilidade, movimento, ritmo e transformação, criando um contraste entre paisagem e abstração. Ao invés de retratar paisagens específicas, Janaina se inspira na atmosfera da natureza, como a umidade e a luz, para criar composições com campos turbulentos de cor, sem formas reconhecíveis que denotem algo acabado, libertas de qualquer controle. A artista tem uma exposição individual recentemente inaugurada no Galpão da Fortes d’Aloia & Gabriel em São Paulo, intitulada Piruetas de Olhos Abertos.
Mendes Wood DM
Com duas galerias em São Paulo (Barra Funda e Casa Iramaia), Nova Iorque, Paris, Bruxelas e Germantown, a Mendes Wood DM trouxe este ano para a sua seleção da SP-Arte obras de artistas modernos e contemporâneos brasileiros e internacionais, como Rosana Paulino, Lygia Pape e Sonia Gomes. Um dos destaques da feira foram duas obras da artista Sanam Khatibi, belga de origem iraniana que vive e trabalha entre Paris e Bruxelas. Com seus quadros enigmáticos e figurativos, a artista explora noções de animalidade e impulsos primitivos, e frequentemente traz elementos clássicos da história da arte, como o chiaroscuro e a natureza-morta. Em Two Weeks at Sea, Sanam retrata uma paisagem dominada por tons de verde onde as árvores se curvam dramaticamente, sugerindo a presença do vento, enquanto uma jarra — possivelmente de cerâmica — derrama leite sobre o solo, integrando a linguagem da artista de evocar paisagens ao mesmo tempo sedutoras, exóticas e perigosas.
LAMB
Sediada em Londres, a LAMB foi uma das poucas galerias internacionais presentes na SP-Arte este ano, representando três artistas. Uma delas foi Maya Weishof, brasileira, que por meio de desenhos de traços fluidos explora narrativas da história da arte, como mitos e lendas, entrelaçadas a memórias pessoais.
Claraboia
Sediada em São Paulo, a Claraboia apresentou uma curadoria de obras — entre esculturas e pinturas — que exploram, cada uma a sua maneira, o olhar sobre a luz que reflete e emana de diferentes superfícies e materiais. Uma das obras em destaque foi da artista brasileira Fiona von Fürstenberg, baseada em Londres. De acordo com a própria artista, por meio das camadas de cor pontilista ela busca capturar o efêmero — explorar a beleza como presença e gratidão. Suas pinturas convidam o observador a embarcar em uma jornada de introspecção, e sua técnica pontilista é inspirada tanto em artistas brasileiros como José Antonio da Silva (1909–1996), quanto na força e movimento presentes no Futurismo italiano — como nas obras de Giacomo Balla (1871–1958). Fiona também usa da poesia, da meditação e de orações para direcionar e guiar suas composições.
Almeida & Dale
A Almeida & Dale trouxe uma das obras mais comentadas da feira: uma pintura de Tarsila do Amaral avaliada em 110 milhões de reais, de inquestionável calibre institucional. A Feira II, de 1925, retrata uma cena de feira brasileira com predominância de vegetação e frutas, a presença pontual de casas de aspecto rural e provincial ao fundo e alguns animais dispersos pela paisagem. Durante essa fase da carreira, Tarsila retratou as classes populares e suas comunidades de forma idílica, com cores vivas e quase lúdicas, revisitando uma visão idealizada das raízes populares brasileiras. Uma composição semelhante à obra exposta na SP-Arte, intitulada Feira I e pintada em 1924, também se encontra em coleção particular. Tarsila do Amaral viveu um ano de destaque internacional em 2025: participou da coletiva Brasil! Brasil! na Royal Academy of Arts em Londres e teve uma mostra individual, Pintando o Brasil Moderno, no Musée du Luxembourg em Paris.
Cassia Bomeny
Sediada no Rio de Janeiro, a galeria apresentou uma seleção de artistas, entre eles Fabiana Gabaskallás. Paulista e formada em Medicina em 1989, a artista retrata a biodiversidade brasileira em composições de forte potência visual, unindo em suas obras história, arte e ciência.
Ateliers Hugo com Gomide & Co
Dividindo o estande com a galeria Gomide & Co, a Ateliers Hugo une joalheria e arte em peças consideradas esculturas para vestir — como colares, broches e brincos. A marca também apresentou itens de mesa, adicionando uma nova camada à diversidade de materiais artísticos presentes na SP-Arte. Ao comando de Nicolas Hugo, o nome da marca remete à família Hugo: desde Victor Hugo, um dos principais autores da literatura francesa, até o ourives François Hugo, avô de Nicolas, que fundou o ateliê em Paris em 1933. Foi François quem produziu botões para as estilistas Coco Chanel e Elsa Schiaparelli no início do século XX — e, a partir dessas colaborações, grandes nomes do modernismo europeu como Pablo Picasso, Max Ernst e Jean Cocteau também passaram a trabalhar com o ateliê. Por volta de 1950, durante a Segunda Guerra Mundial, o ateliê se transferiu para Aix-en-Provence, no sul da França, região menos afetada pelos conflitos do que Paris, onde permanece até hoje. Para a SP-Arte, o Ateliers Hugo apresentou peças feitas e assinadas em prata, ouro e outros materiais preciosos, em colaboração com Jean Arp, Salvador Dalí, Dorothea Tanning, entre outros artistas. Esta foi a primeira vez que o Ateliers Hugo expôs na América Latina.







