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Vida de Imigrante

Por Edison Veiga Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Alegrias e agruras da maior diáspora brasileira da história, a partir do olhar de um entre os 5 milhões que formam o fenômeno.

Comida para quem tem saudade

Forasteiros aproveitamos qualquer oportunidade de veneno antimonotonia gastronômica

Por Edison Veiga 13 mar 2025, 07h01

Eram chineses e estavam felizes entre as gôndolas do supermercado na sexta-feira passada. De wasabi a missô, passando por diferentes tipos de macarrão, cerveja com rótulos orientais e folhas de alga, tudo satisfazia seus olhares e, certamente, aguçava papilas gustativas.

Morar fora tem dessas, sei muito bem. A comida fica como um elo perdido entre o que somos e o que fomos. A comida é o ponto nevrálgico da cultura e, mesmo quando já adaptados ao outro, jamais para um daqui forasteiro a porção de čevapčiči ou a conserva de repolho vai ter aquele quê de afeto e funcionar no estômago como abraço quentinho na alma.

De tempos em tempos uma rede de supermercados que opera na Eslovênia reserva um cantinho para produtos temáticos por eles classificados como exóticos, porque inerentes a outras culturas. Se você me lê de São Paulo, por exemplo, deve achar isso banal: na capital brasileira da gastronomia e da imigração, afinal, é possível passar os 365 dias do ano sem repetir cardápio, passeando por paladares de todas as etnias do Brasil e do resto do globo.

Mas para quem mora em um pequenino país periférico, onde estrangeiros são tão poucos que acabam se conhecendo pelo nome e cabendo em um grupo de WhatsApp, esses eventos do supermercado se tornam motivo de festa, alegria e êxtase. São o veneno antimonotonia dos pratos insossos, iguais e sem significado. São a chance de reviver, à mesa, as lembranças da infância, o aconchego da comida de casa de vó, as delícias que enchem não só a pança como também o orgulho.

Eu compreendo muito bem o sorriso daqueles chineses que observei de esguelha na sexta-feira.

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No prato, falta a mistura do Brasil com o Egito

Porque nós também ansiamos por aquele momento único do ano em que é possível encontrar farinha de mandioca, goiabada, paçoquinha, feijão preto e coxinhas congeladas nessas mesmas gôndolas. Por isso entendo a alegria dos chineses. Não só entendo como também, compartilhando do mesmo espírito, acabo me misturando a eles: quando notei, meu próprio carrinho também tinha toda sorte de guloseimas orientais.

Quando meu professor de esloveno começa a falar sobre comidas locais, eu preciso me controlar para não ser mal-educado. Ele se entusiasma ao descrever uma potica, sobremesa quase sem gosto, que passaria vergonha se desfilasse em um concurso ao lado de nosso pudim de leite-condensado ou de um delicioso mousse de maracujá. Ele se empolga ao dizer que seu prato favorito é um salsichão com batatas — não é ruim, admito, mas não chega nem perto de uma picanha caprichada.

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O ponto não é só esse. Não é a falta do pê-efe de esquina, a ausência do restaurante por quilo conveniente, as padarias que não servem pão na chapa, a completa inexistência de feira-livre com barracas de pastel sempre posicionadas nas extremidades. Não é.

Eu abro a geladeira no fim do dia pensando na janta e me decepciono com a mesmice. A inapetência é proporcional à homogeneidade étnica e cultural de um país. Falta a mistura do Brasil com o Egito. Falta o tempero diferente incluído no cardápio por alguma leva grande de imigrantes. Falta a inventividade surgida da miséria, faltam os exageros ousados pela fartura. Falta cor, falta sabor. Talvez falte até amor.

No sábado fui à capital e passei em dois mercadinhos voltados a imigrantes. No indiano, comprei temperos e cervejas. No brasileiro, renovei o estoque de farofa, azeite de dendê e tapioca. É o que tem. É o que temos.

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