A classe dos “quase ricos”
O estrato social que vive num estado permanente de expectativa
Existe uma espécie brasileira que merece mais atenção dos cientistas sociais. Não é o rico. Não é o pobre. Não é a classe média. É o “quase rico”.
O quase rico vive numa região nebulosa da economia nacional. Ele não tem helicóptero, mas sabe exatamente quanto custa a manutenção de um.
Não possui casa em Trancoso, mas acompanha a valorização dos terrenos como quem monitora ações na bolsa. Não frequenta a primeira fila do desfile, mas conhece pelo nome quem senta nela.
Eu mesmo, quando era adolescente, colecionava selos. Sonhava ter um Olho de Boi, que é o sonho de colecionadores por ser o primeiro selo postal brasileiro, emitido em 1843.
É uma das peças mais desejadas da filatelia mundial. Para mim, seria a glória ter um. Ou seja, não tinha dinheiro, mas já tinha gosto de um “quase rico” colecionador.
O “quase rico” é um visionário. Ele mora no apartamento que comprou pensando no apartamento que vai comprar depois. Seu carro atual não é um meio de transporte. É uma ponte emocional para o próximo carro.
Ele não viaja. Faz reconhecimento de território. Quando vai a Paris, não visita museus. Avalia bairros.
“Ele conhece marcas que jamais poderá comprar, restaurantes onde talvez nunca consiga jantar”
Quando vai a Miami, não compra roupas. Estuda possibilidades. Quando vai a Lisboa, misteriosamente, volta entendendo tudo sobre vistos, fundos imobiliários e tributação internacional.
O “quase rico” não mede patrimônio. Mede proximidade. Ele está sempre a uma reunião, uma sociedade, uma venda, uma herança, uma oportunidade ou uma ideia brilhante de riqueza definitiva.
O curioso é que o rico de verdade raramente pensa em riqueza. Está ocupado vivendo. Já o “quase rico” pensa nela o tempo inteiro, sem parar.
Ele conhece marcas que jamais comprará, restaurantes onde talvez nunca jante e imóveis cujas plantas decorou como quem estuda para um concurso público.
Existe algo de comovente nisso. Porque o “quase rico” não é movido apenas pela ambição. É movido pela esperança.
A esperança de que a próxima curva da estrada revele finalmente a paisagem prometida. E talvez seja justamente essa esperança que sustente metade da economia nacional.
São os “quase ricos” que visitam decorados. São os “quase ricos” que pesquisam relógios às 2 da manhã.
São os “quase ricos” que entram numa loja dizendo apenas que estão “dando uma olhada”. Oh, céus! Exatamente como eu faço. O brasileiro, aliás, aperfeiçoou essa arte.
Ele não sonha pequeno.
Pode estar parcelando a air fryer em dez vezes e, ainda assim, ter opiniões muito sólidas sobre qual marina é mais valorizada em Angra dos Reis. Isso não é contradição. É imaginação.
E talvez o “quase rico” seja, no fundo, o grande personagem do nosso tempo.
Porque o pobre sonha em melhorar de vida. O rico já melhorou.
Mas o “quase rico” vive num estado permanente de expectativa. Como eu, que sonho ganhar na Mega-Sena sem nunca fazer um jogo.
Todos nós, “quase ricos”, habitamos um lugar onde o futuro parece estar sempre chegando.
E talvez seja justamente por isso que nunca chega.
A riqueza é uma linha de chegada.
O “quase rico” transformou a corrida em endereço fixo.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001







