Oferta hexa: Assine por apenas 5,99
Imagem Blog

Walcyr Carrasco

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Sobre os ossos de Freud

Como o “psicologismo” se tornou uma praga no cotidiano

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 mar 2021, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 13h13
Sobre os ossos de Freud Priorizar nos meus resultados Google

Freud mudou a maneira de pensar sobre nós mesmos. Fosse religioso, sua tumba seria objeto de peregrinação, seus ossos miraculosos, exibidos em um altar. A adoração de muitos psicanalistas por Freud é semelhante à de um fiel a Santa Terezinha. Repetem suas palavras, como mantras. Mas não tenho nada a ver com isso. A não ser que me trate com algum deles. Freud é o fundador da psicanálise, o primeiro a trazer o incons­cien­te para a ordem do dia. É profundo, instigador. Mas o jargão psicanalítico entrou no cotidiano das pessoas. Encontro com um amigo e reclamo de que estou com dor de estômago. “Deve ser psicológico.” Sorri, satisfeitíssimo com o rápido diagnóstico. Só que nunca estudou psicologia ou psicanálise. Seria impossível explicar as teorias de Freud aqui, resumidamente. Mas sou obrigado a conviver diariamente com palavras como “neurose”, “trauma”, “inconsciente”. Há algum tempo, uma conhecida pediu meu apartamento no Rio emprestado para passar uma temporada. Respondi que não, nunca empresto. Meu motivo: eu fico bastante no Rio, trabalhando, e a convivência com quem está de férias não dá certo. O comentário dela com um amigo: “Ele deve ter algum trauma”. Quer dizer, eu não quero emprestar o apartamento e, por causa disso, tenho um episódio terrível segregado nas profundezas do meu inconsciente (eta, Freud)? O jargão psicanalítico virou um tipo de fé. Já vi alguém comentar, sobre um assassino cruel, que certamente agia assim devido a traumas de infância. Não tenho formação para saber. Mas o psicologismo transformou-se em uma nova fé, que tudo explica. E, assim, “perdoa”.

“É difícil conviver com essa selva de conceitos psi. Eu tento, mas quase nunca entendo o que querem dizer”

Ou complica. Uma expressão que veio à tona é “ato falho”. Está banalizada. Em linhas rápidas, é quando você quer dizer algo e fala outra coisa, que o denuncia. Um amigo certa vez trocou o nome da esposa pelo da amante. O resultado foi uma DR de proporções inacreditáveis. Eu mesmo já aprontei coisas do tipo várias vezes. Quem nunca? Imagino que, em outros séculos, seria uma simples troca de nome. Com a influência maligna do psicologismo no cotidiano, vem logo uma explicação. E o falho que se livre.

Há situações mais cruéis. É comum acreditar-se que o câncer tenha uma origem psicológica. Uma amiga, já falecida, teve no seio. Encontrei com ela, em pleno processo, estava melhor e acreditando na cura. Reclamou: “O pior é quando as pessoas dizem que é psicológico, que tudo depende da minha atitude. Como se, além de tudo, eu fosse a culpada da minha própria doença”.

O ser humano é complexo. Mas a banalização da psicologia criou conceitos tão rígidos quanto os dos evangélicos. Se é psicológico, depende de você, de sua atitude, e você mesmo pode curar-se. Mas, se alguém aprontou feio, é preciso explicar, entender e superar. É difícil conviver com essa selva de conceitos psi. Eu tento, mas quase nunca entendo exatamente o que querem dizer. Só não me preocupo porque também ninguém sabe o que está dizendo. Os ossos de Freud devem estar chacoalhando na tumba.

Publicado em VEJA de 24 de março de 2021, edição nº 2730

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner com fundo escuro e pontos de luz dourados. À esquerda, um ícone de árvore estilizada e a palavra Abril em dourado. Ao centro, o número 76 em dourado, com efeito tridimensional. À direita, o texto ANOS FAZENDO HISTÓRIA. HOJE, VOCÊ FAZ PARTE DELA. em douradoBanner da Abril comemorando 76 anos. O número 76 dourado e grande à esquerda, com o logo da Abril e a frase ANOS FAZENDO HISTÓRIA. HOJE, VOCÊ FAZ PARTE DELA. À direita, Assine com preço especial de aniversário e um botão dourado ASSINE AGORA, sobreposto a várias capas de revistas como Veja e Superinteressante
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).