Comer com fé: o sucesso da dieta com releitura de hábitos alimentares da Bíblia
Com produtos frescos, ela conquista cada vez mais seguidores nas redes sociais
Muito se celebra a “cozinha da vovó”, a culinária cujos ingredientes são o afeto, a memória e a escolha de produtos do cantinho de terra ali ao lado. E se a ideia for voltar um tanto mais lá para trás? Eis o caminho sugerido pela chamada “dieta bíblica”. Ela propõe um retorno às origens, com refeições mais naturais, baseadas em produtos frescos mencionados nas Escrituras Sagradas. Fenômeno nas redes sociais, o regime já acumula milhões de visualizações no TikTok e no Instagram e mostra como a fé religiosa pode, sim, dar as mãos a uma outra celebrada crença, a do bem-estar.
A prática mistura espiritualidade e saúde, atraindo seguidores ao defender um cardápio associado à ideia de que cuidar do corpo seria também uma forma de cuidado espiritual. A teoria se apoia em citações como a do apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (6:19): “Não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo?”. Com quase 2 000 anos, a frase ganhou novo significado para quem busca cuidado com o que vai ao estômago. Não se trata, convém ressaltar, de um plano único descrito na Bíblia, mas de uma releitura contemporânea dos hábitos alimentares do mundo antigo. Prioriza a ancestralidade dos ingredientes, sugerindo o consumo de pão de fermentação natural, vegetais, frutas, peixes, azeite, ovos, lentilhas, mel e laticínios (veja abaixo). Algumas versões também incluem jejum inspirado em passagens religiosas. Eating biblically (“comer biblicamente”), como virou moda dizer nos Estados Unidos, ganhou força entre influenciadores cristãos que compartilham receitas, rotinas e desafios à mesa, muitas vezes acompanhados da venda de livros, suplementos, guias e programas de saúde. Além de valorizar alimentos naturais, o movimento questiona o padrão alimentar contemporâneo, dominado por produtos com exageradas doses de açúcar, gordura e aditivos.
Um dos pilares da onda é o best-seller americano The Biblio Diet, lançado em 2025 pelos especialistas em nutrição Josh Axe e Jordan Rubin. O livro logo entrou para a lista dos mais vendidos do The New York Times. Os autores são ligados ao universo do bem-estar cristão, embora Axe se destaque pelo trabalho como influenciador digital: produz conteúdos sobre nutrição e longevidade, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. Rubin, por sua vez, é empresário do setor de suplementos e se apresenta como America’s biblical health coach (“treinador de saúde bíblica dos EUA”). Juntos ajudam a transformar o tema em bom negócio. Axe já declarou que “uma dieta bíblica pode aumentar a longevidade e reverter qualquer doença”.
É preciso crer muito e abandonar todo aspecto científico, porque não há mágica e todas as promessas precisam passar por testes rigorosos. As dietas, convém reafirmar, não têm poder curativo. Mas contribuem para reduzir o risco de algumas doenças, como as cardiovasculares e metabólicas, além de certos tipos de câncer. Estudos vêm associando padrões alimentares ricos em carnes processadas e pobres em fibras ao aumento do risco de câncer colorretal, enquanto grãos integrais, cálcio e laticínios aparecem ligados à menor incidência da doença.
Pesquisas recentes de grande porte, como a da Mass General Brigham, publicada na revista JAMA Oncology, apontam o consumo excessivo de carnes e comidas processadas e ultraprocessadas como fator para o aumento de câncer colorretal entre americanos de 20 a 49 anos. Desde 2011, a incidência pulou de 1% para 3% ao ano. Antes, a doença estava restrita à população com mais de 64 anos.
Combater o aumento da obesidade, da resistência à insulina e das doenças metabólicas virou uma bandeira do governo americano que se alinha a dietas naturais como a bíblica. Ela é interessante por estar atrelada a boas posturas, e não porque tenha cunho religioso. “Insulina alta é estímulo ao surgimento de qualquer tipo de câncer, porque favorece o crescimento de células tumorais em laboratório, e por isso refeições regradas são interessantes”, diz o oncologista Antonio Carlos Buzaid, diretor médico geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis. “O problema começa quando a tendência se radicaliza”, ecoa a nutricionista Lara Natacci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. Jejuns sem orientação médica e dietas excessivamente restritivas raramente são recomendáveis. A principal orientação continua sendo o equilíbrio: alimentação variada, atividade física, controle do estresse e moderação. Afinal, como costuma dizer Buzaid, parafraseando o filósofo Arthur Schopenhauer: “A saúde não é tudo, mas sem ela quase todo o resto perde valor”. Até mesmo a fé.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997






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