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De Cannes às passarelas internacionais, a calça capri ressurge com força

Ela recobra seu lugar como símbolo de elegância feminina que atravessa décadas

Por Simone Blanes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jun 2026, 08h00
De Cannes às passarelas internacionais, a calça capri ressurge com força Priorizar nos meus resultados Google

Numa de suas inúmeras tiradas memoráveis, a estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) pontificou que a simplicidade é “a nota final de toda verdadeira elegância”. A frase se ajusta perfeitamente a uma peça do vestuário que sempre viveu entre o charme e a controvérsia: a calça curta ou capri. Em Cannes, nas ruas e nas coleções de 2026, ela volta a aparecer com força, reposicionando o desejo feminino de se vestir de forma leve, mas com atitude.

Criada no pós-guerra pela designer alemã Sonja de Lennart, a capri nasceu da ideia de libertar o corpo das mulheres de estruturas rígidas, sem abrir mão de certo refinamento. Mas foi no imaginário mediterrâneo da Ilha de Capri, na costa sul da Itália, que ela ganhou status de peça solar, suave, quase arquitetônica. Nos anos 1950, tornou-se símbolo de uma nova feminilidade livre, urbana e provocativa.

LENDÁRIAS - Jane Mansfield e Audrey Hepburn: modelo curto como símbolo de sensualidade e leveza
LENDÁRIAS - Jane Mansfield e Audrey Hepburn: modelo curto como símbolo de sensualidade e leveza (Fotos: Earl Leaf/Michael Ochs/Getty Images; Paramount Pictures/Getty Images)

As celebridades trataram de imortalizá-la como um novo clássico. Audrey Hepburn fez dela um sopro de delicadeza moderna nos filmes Sabrina (1954) e Cinderela em Paris (1957), enquanto Marilyn Monroe e Jane Mansfield a usavam para realçar um magnetismo corporal que subvertia qualquer ideia de inocência. Já Brigitte Bardot adicionava a ela uma camada de sensualidade despreocupada, como se a peça tivesse sido feita para o verão eterno do sul da França. Mais tarde, com a princesa Diana, ganhou contorno mais esportivo, valendo-se de um corte elegante para traduzir conforto e movimento.

No Brasil, curiosamente, a peça por muito tempo foi vista com desconfiança. Bem antes de ser celebrizada lá fora, afinal, a calça curta ganhou por aqui o apelido pejorativo de “pula-brejo”, pois era ligada ao uso prático por pescadores e trabalhadores rurais que encurtavam a barra para enfrentar água e lama sem perder mobilidade. O que nasceu como solução funcional virou, a certa altura, símbolo de falta de elegância — até que, ainda bem, a capri foi ressignificada pela moda também nos trópicos.

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Neste ano, o movimento é novamente de reinterpretação. Celebridades como Demi Moore, Anne Hathaway e Bella Hadid ajudam a consolidar o retorno da peça ao street style — e também ao tapete vermelho —, só que agora com modelagens mais limpas, tecidos tecnológicos e uma leitura menos literal do passado. Nas passarelas internacionais de 2026, o movimento também aparece de forma consistente. Em Paris, Milão e Nova York, além de Londres, a capri ressurge integrada a coleções que exploram o minimalismo de vinte anos atrás, com alfaiataria relaxada em tecidos mais leves e cortes mais precisos. Em muitos casos, ela aparece combinada a sandálias finas, sapatos estruturados e até botas curtas, reforçando o tornozelo como ponto focal do look e reorganizando as proporções femininas.

TENDÊNCIA - As queridinhas do momento, Hailey Bieber e Bella Hadid, aderiram à peça: entre o arrojo e a simplicidade
TENDÊNCIA - As queridinhas do momento, Hailey Bieber e Bella Hadid, aderiram à peça: entre o arrojo e a simplicidade (Aeon/GC Images/Getty Images; Arnold Jerocki/GC Images/Getty Images)

O stylist Dudu Farias, que assina produções de nomes como Renata Kuerten, observa esse retorno como parte de um movimento maior de nostalgia reinterpretada. “Tem muito a ver com os anos 2000, mas de um jeito diferente: com a cintura mais alta e tecidos melhores. Fica retrô sem parecer fantasia”, diz o especialista, fã de carteirinha da capri — que, segundo ele, traz uma silhueta equilibrada e versatilidade para o clima no Brasil. “É uma calça de meia-estação: não é short, não é calça longa, mas dá para usar no trabalho, passeio, jantar. Ela encurta a barra e alonga a atitude”, completa.

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Mais que um resgate nostálgico, a peça reaparece como resposta a um desejo contemporâneo: o de vestir menos, mas dizer mais. Num momento em que a moda oscila entre o luxo desbragado e a busca pela simplicidade essencial, a capri encontra seu espaço exatamente no meio. E aí mora sua força: ela atravessa o tempo sem perder a capacidade de mudar o olhar sobre o corpo da mulher. Nesse sentido, volta acenando com um novo frescor: ligeiramente ousada e, sobretudo, uma delícia de usar e de se ver por aí. Quanto mais curta, melhor — eis sua magia.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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