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Mente aberta, vida longa: estudo mostra um caminho para a velhice saudável

Pesquisa aponta como traços de personalidade que ensejam a sociabilidade e a coragem para se atirar no desconhecido influenciam a longevidade

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 10 ago 2026, 10h53
Mente aberta, vida longa: estudo mostra um caminho para a velhice saudável Priorizar nos meus resultados Google

Por muito tempo, a pirâmide etária, na imensa maioria dos países, era um bem definido triângulo sustentado sobre uma vasta geração jovem, em contraste com um topo pontudo, ocupado por uma minoria mais velha. Pois as aceleradas mudanças da demografia vêm se encarregando de transformar esse formato de forma radical, com o piso se estreitando conforme o contingente de cabeças prateadas só avança. No Brasil, a turma dos superidosos, que ultrapassou a barreira dos 80 anos, crava 4,6 milhões de pessoas, uma disparada de 150% em relação à década passada. A boa nova é que uma fatia expressiva delas apaga hoje as velinhas do bolo com vigor renovado, esbanjando saúde. Verdade que a genética tem peso relevante na equação, assim como alimentação equilibrada, exercícios em dia e uma rotina social plena, fórmula já bem conhecida. Mas, como a ciência não para, os pesquisadores decidiram verter o olhar para um aspecto inexplorado, ao examinar como o jeito de ser de cada um pode impactar o relógio humano. E a conclusão é que, sim, cultivar certos traços de personalidade costuma dar um bem-vindo empurrão à dobradinha da vida longa e saudável.

O melhor laboratório do mundo para esse tipo de investigação são as chamadas blue zones, nacos do planeta com a maior concentração de centenários, que, no início dos anos 2000, entraram no radar por destoarem das usuais curvas de expectativa de vida. E foi para uma delas, a Sardenha, ilha mediterrânea cercada por águas de um turquesa único, que pesquisadores da Universidade de Cagliari, na Itália, partiram para analisar a questão. Observaram ali uma amostra entre 70 e 100 anos, de nível escolar semelhante e com acesso ao sistema de saúde, cujos integrantes se distinguiam entre si no modo de ser e encarar a vida — justamente este o objeto do inédito mergulho.

O trabalho se debruçou então sobre os big five, modelo amplamente adotado pela psicologia que mapeia cinco traços decisivos da personalidade — extroversão, abertura a experiências, um senso de responsabilidade aliado à autodisciplina, a capacidade de ser empático e ajudar os outros e, por fim, a tendência de ressaltar emoções negativas. Resultado: as quatro primeiras características são bastante favoráveis à longevidade junto ao bem-estar, enquanto o último fator, aquele que conduz à instabilidade emocional, tecnicamente conhecido como neuroticismo, conspira contra.

Já é bem sabido que a personalidade, apesar de embutir uma dose de carga genética, vai sendo delineada com o passar do tempo, consolidando-­se na maturidade. Para os estudiosos, isso significa que é possível fazer ajustes aqui e ali para viver mais e melhor e, embora muita gente comece o processo com a cabeça já branca, nunca é tarde. “Frequentemente, é na velhice, quando não há mais tempo a perder, que as pessoas encontram coragem para abraçar mudanças”, afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de A Invenção de uma Bela Velhice: Projetos de Vida e a Busca da Felicidade. Ao se abrirem ao novo mesmo diante das limitações que vão aparecendo, demonstram um poder de adaptação que um vasto contingente da Sardenha exibe em alto grau, segundo os pesquisadores. No lugar de lamentar que não conseguem executar algumas tarefas como antes, a escolha da maioria é observar o lado cheio do copo, enfatizando aquilo que ainda executam com destreza e satisfação.

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NUNCA PARAR - A professora aposentada Ruth Roder, 97, diz que, ao se manter em movimento, garante a autonomia e aplaca a ansiedade que às vezes bate. “Nunca perco a alegria de viver”, garante ela, que faz tudo sozinha.
NUNCA PARAR – A professora aposentada Ruth Roder, 97, diz que, ao se manter em movimento, garante a autonomia e aplaca a ansiedade que às vezes bate. “Nunca perco a alegria de viver”, garante ela, que faz tudo sozinha. (./Arquivo pessoal)

Um hábito importante no rol dos ingredientes da existência longeva é manter constante convívio social, sem o qual males da mente como a ansiedade e a depressão se tornam mais frequentes — 14% dos que cruzam a fronteira dos 70 registram algum transtorno dessa natureza, de acordo com a OMS. Pois no laboratório a céu aberto da Sardenha essa é uma lição bem aplicada, tal como visto em vários lares brasileiros que impulsionam as taxas da expectativa de vida. “Tenho amigas antigas com quem adoro sair para passear, um jeito de espantar a solidão que me traz muita alegria”, diz a professora aposentada Ruth Roder, 97 anos. E os laços não precisam ser apenas entre indivíduos da mesma idade. Uma pesquisa realizada ao longo de oito décadas na Universidade Harvard concluiu que a turma da terceira idade que firma elos afetivos com gente mais jovem revela níveis de felicidade três vezes superiores aos dos que restringem o círculo social à própria geração.

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Manter a curiosidade a toda, reforça o estudo da Universidade de Cagliari, leva os indivíduos a se lançar em um leque diverso de atividades, de jardinagem a esportes em grupo, o que pesa a favor. “Quem apresenta essa característica costuma adotar rotina mais saudável, ativa e aberta a desafios”, explica a psicóloga Thaís Juliana Medeiros. Exemplo disso é o médico José Valdivia, 83 anos. Após a aposentadoria, ele trocou os livros sobre anestesia por literatura de todos os gêneros e, com tempo agora para se dedicar aos hobbies, também estuda línguas estrangeiras. “Sempre fui disciplinado. A consistência é importante para que essas iniciativas deem fruto”, ensina ele, que engrossa a amostra mapeada por especialistas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Eles ressaltam que é justamente na terceira idade que a dedicação a interesses específicos se faz mais visível, já que a lista de obrigações vai minguando.

Aqueles que conseguem afiar a capacidade de lidar com os contratempos sem tanto peso costumam ser agraciados com mais anos de vida. A maturidade certamente ajuda. “Estar mais velho coloca tudo em perspectiva, e os problemas tendem a ser vistos com maior leveza”, diz a psicóloga Lidia Aratangy. Pois se a medicina vem conseguindo estender o período de vida como nunca antes, agora se sabe o quanto a personalidade e as escolhas de cada um têm o poder de determinar a qualidade desses anos. Não custa aqui revisitar as palavras de Charles Darwin (1809-1882), cujos estudos foram um divisor de águas na teoria da evolução das espécies: “Não é o mais forte que sobrevive nem o mais inteligente, mas o que se adapta melhor às mudanças”, escreveu. Dito isso, vida longa a todos.

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Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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