Nova pesquisa ajuda a desvendar as origens e o impacto do ciúme
Embora haja pessoas naturalmente mais propensas a tão incômodo sentimento, o que faz germinar a desconfiança é o tipo de relacionamento
Figuras que deixaram marcas indeléveis na ciência e nas artes se renderam à curiosidade intelectual sobre um dos mais humanos e universais dos sentimentos — o ciúme. Ao produzir a obra-prima Otelo, William Shakespeare deu uma face à perturbadora emoção: a de um “monstro de olhos verdes”, imagem empregada pelo subordinado Iago para despertar as suspeitas do protagonista, levado a acreditar que sua esposa, Desdêmona, mantinha um caso com um de seus oficiais. O resto é tragédia. Convencido da traição, o general mouro assassina a própria mulher, só descobrindo tempos depois que era tudo armação. As engrenagens dessa sensação que a tantos aflige também moveram os estudos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, que no início do século XX cavucou suas origens e escreveu, de forma simples e direta: “É fácil perceber que essencialmente o ciúme se compõe de sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado”. Segundo ele, as raízes de tal incômodo estão lá atrás, no temor infantil de um dia não contar mais com a atenção exclusiva dos pais.
Por muito tempo, vigorou a ideia de que um relacionamento embalado a ciúmes teria tudo a ver com traços de pelo menos um dos envolvidos, naturalmente inclinado a nutrir tal sentimento. Pois um grupo de cientistas derramou recentemente o olhar sobre o tema e concluiu que, ao contrário do que se acreditava, o que faz diferença mesmo em um enlace amoroso é a dinâmica estabelecida entre o par — muito mais do que a personalidade de cada um. O estudo, conduzido por um time de cientistas americanos de universidades diversas e publicado no periódico científico Personal Relations, observou centenas de casais ao longo de cinco anos e trouxe pela primeira vez números que iluminam a questão: enquanto o tipo de elo firmado é o que mais pode favorecer os ciúmes, com um peso de 72%, o jeito de ser dos parceiros influencia apenas 28%. O tal sentimento que ninguém gosta de ter é, portanto, resultado de um complexo mix que entrelaça, sim, características individuais, como um pendor à ansiedade e à instabilidade, com as particularidades da parceria, umas mais sujeitas à ciumeira do que outras.
O que os teóricos mapearam é muitas vezes sentido na pele, de forma consciente, por quem se aventura pelos labirintos do afeto. A turismóloga Raphaela Guimarães, 34 anos, percebeu como o comportamento de variados parceiros impactava na gradação de seu ciúme. “Já estive em relações com gente incoerente em relação ao que dizia e fazia, o que me deixava em estado de maior alerta. Mas se estou com alguém maduro, transparente e que valida meus sentimentos, o ciúme não encontra espaço”, conta. A psicanálise, de novo ela, esclarece que ser tomado de ciúme em nada tem a ver com a intensidade do sentimento pelo outro. Ele está associado à insegurança e desconfiança, e não ao amor propriamente dito.
Outra pesquisa de envergadura sobre o tema lança luz sobre o tipo de relacionamento em que o ciúme encontra terreno fértil. Feito por especialistas da universidade alemã de Colônia e divulgado no prestigiado Journal of Social and Personal Relationships, o estudo distinguiu, dentre um amplo leque, duas formas de encarar a parceria amorosa — enquanto a primeira se volta para dentro, mirando gestos cotidianos ligados a atenção, diálogo e cuidado, a outra se concentra em elementos externos, focando em possíveis ameaças, como o perigo de um rival despontar no horizonte. O estudo mostra o quanto o cenário 2 pode atrapalhar: na preocupação de proteger o laço, o que consome elevadas doses de energia, o ciúme acaba por reduzir a disposição para cultivar o vínculo. E dá-se então um deletério círculo vicioso, de acordo com os pesquisadores — ciúme gera mais ciúme, uma vez que quem é por ele acometido costuma se pôr na defensiva, dando combustível à insegurança. A experiência da estudante de direito Marcella Albuquerque, 22 anos, é ilustrativa dessa bola de neve. “Quanto mais eu revelava meu ciúme, mais ele crescia, assim como as incertezas”, reconhece.
Não apenas no amor, mas também nas amizades tal sentimento floresce, às vezes tomando a pessoa por completo. Em uma dezena de investigações científicas, conjunto publicado na revista Journal of Personality and Social Psychology, fica claro que a chegada de concorrência, alguém que captará a atenção e o afeto de um amigo muito próximo, causa um medo expresso sem meias palavras — o de ser “substituído” na posição de confidente privilegiado. A dor que deriva daí não raro é tanta que há quem prefira chegar ao extremo de romper o elo para evitá-la. Foi assim com o ator Rodrigo Gonçalves, 47 anos, ciumento desde a infância. “Já perdi algumas amizades para não experimentar a angústia do ciúme, que machuca até a alma”, diz. Os cientistas identificaram que, justamente na tentativa de assegurar um lugar insubstituível, o ciumento frequentemente se enreda em uma trama pouco saudável, que pode, ao contrário do que ele quer, vir a comprometer a relação.
Doses razoáveis de ciúme são comuns e esperadas — o problema é quando passa do ponto, dominando o pensamento e norteando as decisões. No cérebro, o sentimento mobiliza circuitos ligados ao medo e à percepção de ameaças, como a amígdala, ao mesmo tempo em que o córtex pré-frontal entra em ação para regular as emoções e controlar os impulsos. Quando esse delicado equilíbrio se desfaz, a coisa pode assumir contornos obsessivos, fornecendo gás a suspeitas recorrentes, acrescidas de uma incessante necessidade de confirmação. “Nos casos mais graves, o estado prolongado de alerta pode afetar o sono, a concentração e a saúde física”, afirma Eduardo Jorge Custodio, da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. O limite mais preocupante, porém, é ultrapassado quando a insegurança se converte em tentativa de controle da vida alheia. “Essa é uma espécie de violência que deve ser sempre evitada”, enfatiza Marta Souza, da Associação Brasileira de Psicologia.
O motor do ciúme é o medo da infidelidade, mas a percepção sobre o que ela representa varia muito entre homens e mulheres, conforme sinalizou um denso mergulho divulgado na revista científica Archives of Sexual Behavior. Para 54% da ala masculina heterossexual, segundo a pesquisa, o que mais dói é a ideia da “traição física”, ao passo que, para a banda feminina, o grande temor de 65% delas é de o parceiro se apaixonar para valer por outra pessoa. “Preocupados em não demonstrar fragilidade, os homens costumam ser mais contidos na demonstração do ciúme”, analisa o antropólogo Bernardo Conde.
Nestes tempos ultraconectados, os estudiosos enxergam na onipresença das redes um impulso ao ciúme. Se antes a desconfiança se baseava em rumores ou na própria imaginação, hoje ela encontra eco em curtidas, comentários e no rol de seguidores da cara-metade. Tudo pode abalar nesta navegação envolta em perigo. “As redes viram palco para o ciúme doentio quando alguém usa a tecnologia para vigiar e restringir a liberdade do outro”, observa a psicóloga Marta Souza. Em um mundo que permite acompanhar quase tudo em tempo real, talvez o desafio maior seja justamente aceitar aquilo que não se pode saber.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018






