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Nova pesquisa ajuda a desvendar as origens e o impacto do ciúme

Embora haja pessoas naturalmente mais propensas a tão incômodo sentimento, o que faz germinar a desconfiança é o tipo de relacionamento

Por Sara Salbert Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 out 2026, 06h00 | Atualizado em 23 out 2026, 10h29
Nova pesquisa ajuda a desvendar as origens e o impacto do ciúme Priorize VEJA no Google

Figuras que deixaram marcas indeléveis na ciência e nas artes se renderam à curiosidade intelectual sobre um dos mais humanos e universais dos sentimentos — o ciúme. Ao produzir a obra-prima Otelo, William Shakespeare deu uma face à perturbadora emoção: a de um “monstro de olhos verdes”, imagem empregada pelo subordinado Iago para despertar as suspeitas do protagonista, levado a acreditar que sua esposa, Desdêmona, mantinha um caso com um de seus oficiais. O resto é tragédia. Convencido da traição, o general mouro assassina a própria mulher, só descobrindo tempos depois que era tudo armação. As engrenagens dessa sensação que a tantos aflige também moveram os estudos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, que no início do século XX cavucou suas origens e escreveu, de forma simples e direta: “É fácil perceber que essencialmente o ciúme se compõe de sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado”. Segundo ele, as raízes de tal incômodo estão lá atrás, no temor infantil de um dia não contar mais com a atenção exclusiva dos pais.

Por muito tempo, vigorou a ideia de que um relacionamento embalado a ciúmes teria tudo a ver com traços de pelo menos um dos envolvidos, naturalmente inclinado a nutrir tal sentimento. Pois um grupo de cientistas derramou recentemente o olhar sobre o tema e concluiu que, ao contrário do que se acreditava, o que faz diferença mesmo em um enlace amoroso é a dinâmica estabelecida entre o par — muito mais do que a personalidade de cada um. O estudo, conduzido por um time de cientistas americanos de universidades diversas e publicado no periódico científico Personal Relations, observou centenas de casais ao longo de cinco anos e trouxe pela primeira vez números que iluminam a questão: enquanto o tipo de elo firmado é o que mais pode favorecer os ciúmes, com um peso de 72%, o jeito de ser dos parceiros influencia apenas 28%. O tal sentimento que ninguém gosta de ter é, portanto, resultado de um complexo mix que entrelaça, sim, características individuais, como um pendor à ansiedade e à instabilidade, com as particularidades da parceria, umas mais sujeitas à ciumeira do que outras.

Infográfico A Origem sobre ciúme. 72% do sentimento associado à natureza da relação, 28% à personalidade. 54% dos homens temem traição sexual, 65% das mulheres temem traição emocional. Fonte: Archives of Sexual Behavior e Personal Relationships
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O que os teóricos mapearam é muitas vezes sentido na pele, de forma consciente, por quem se aventura pelos labirintos do afeto. A turismóloga Raphaela Guimarães, 34 anos, percebeu como o comportamento de variados parceiros impactava na gradação de seu ciúme. “Já estive em relações com gente incoerente em relação ao que dizia e fazia, o que me deixava em estado de maior alerta. Mas se estou com alguém maduro, transparente e que valida meus sentimentos, o ciúme não encontra espaço”, conta. A psicanálise, de novo ela, esclarece que ser tomado de ciúme em nada tem a ver com a intensidade do sentimento pelo outro. Ele está associado à insegurança e desconfiança, e não ao amor propriamente dito.

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Outra pesquisa de envergadura sobre o tema lança luz sobre o tipo de relacionamento em que o ciúme encontra terreno fértil. Feito por especialistas da universidade alemã de Colônia e divulgado no prestigiado Journal of Social and Personal Relationships, o estudo distinguiu, dentre um amplo leque, duas formas de encarar a parceria amorosa — enquanto a primeira se volta para dentro, mirando gestos cotidianos ligados a atenção, diálogo e cuidado, a outra se concentra em elementos externos, focando em possíveis ameaças, como o perigo de um rival despontar no horizonte. O estudo mostra o quanto o cenário 2 pode atrapalhar: na preocupação de proteger o laço, o que consome elevadas doses de energia, o ciúme acaba por reduzir a disposição para cultivar o vínculo. E dá-se então um deletério círculo vicioso, de acordo com os pesquisadores — ciúme gera mais ciúme, uma vez que quem é por ele acometido costuma se pôr na defensiva, dando combustível à insegurança. A experiência da estudante de direito Marcella Albuquerque, 22 anos, é ilustrativa dessa bola de neve. “Quanto mais eu revelava meu ciúme, mais ele crescia, assim como as incertezas”, reconhece.

Mulher sorridente de cabelos escuros e óculos de sol, vestindo um vestido tomara que caia amarelo, apoiada em um parapeito de pedra. Ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro com prédios, montanhas e o mar azul sob céu claro
PENSANDO A RELAÇÃO – A estudante de direito Marcella Albuquerque, 22, reconhece que alimentou ciúmes sem razões concretas por não acreditar no parceiro. “Me arrependo das brigas que tive por isso”, admite. (Arquivo pessoal/.)
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Não apenas no amor, mas também nas amizades tal sentimento floresce, às vezes tomando a pessoa por completo. Em uma dezena de investigações científicas, conjunto publicado na revista Journal of Personality and Social Psychology, fica claro que a chegada de concorrência, alguém que captará a atenção e o afeto de um amigo muito próximo, causa um medo expresso sem meias palavras — o de ser “substituído” na posição de confidente privilegiado. A dor que deriva daí não raro é tanta que há quem prefira chegar ao extremo de romper o elo para evitá-la. Foi assim com o ator Rodrigo Gonçalves, 47 anos, ciumento desde a infância. “Já perdi algumas amizades para não experimentar a angústia do ciúme, que machuca até a alma”, diz. Os cientistas identificaram que, justamente na tentativa de assegurar um lugar insubstituível, o ciumento frequentemente se enreda em uma trama pouco saudável, que pode, ao contrário do que ele quer, vir a comprometer a relação.

Homem de pele clara e cabelo escuro, sorrindo, com o Coliseu iluminado ao fundo, à noite
DÁ-LHE TERAPIA – Desde a infância, o ator Rodrigo Gonçalves, 47, enfrenta dificuldades para lidar com o medo de perder a atenção de quem gosta. “Precisei de ajuda para ter mais controle sobre meu ciúme”, diz. (Arquivo Pessoal/.)
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Doses razoáveis de ciúme são comuns e esperadas — o problema é quando passa do ponto, dominando o pensamento e norteando as decisões. No cérebro, o sentimento mobiliza circuitos ligados ao medo e à percepção de ameaças, como a amígdala, ao mesmo tempo em que o córtex pré-frontal entra em ação para regular as emoções e controlar os impulsos. Quando esse delicado equilíbrio se desfaz, a coisa pode assumir contornos obsessivos, fornecendo gás a suspeitas recorrentes, acrescidas de uma incessante necessidade de confirmação. “Nos casos mais graves, o estado prolongado de alerta pode afetar o sono, a concentração e a saúde física”, afirma Eduardo Jorge Custodio, da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. O limite mais preocupante, porém, é ultrapassado quando a insegurança se converte em tentativa de controle da vida alheia. “Essa é uma espécie de violência que deve ser sempre evitada”, enfatiza Marta Souza, da Associação Brasileira de Psicologia.

Mulher jovem com cabelo ruivo e tiara, sorrindo levemente, vestindo camiseta branca e cardigã bege, com a mão esquerda apoiada em um muro. Ao fundo, telhados, um rio e uma estrutura arquitetônica moderna com telhado ondulado, sob um céu alaranjado de pôr do sol
PONTA DO ICEBERG – A turismóloga Raphaela Guimarães, 34, aprendeu com a experiência que a falta de uma boa conversa está na base do problema. “O sentimento em si é só um sinal de que a dinâmica a dois não está saudável”, avalia. (Arquivo pessoal/.)
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O motor do ciúme é o medo da infidelidade, mas a percepção sobre o que ela representa varia muito entre homens e mulheres, conforme sinalizou um denso mergulho divulgado na revista científica Archives of Sexual Behavior. Para 54% da ala masculina heterossexual, segundo a pesquisa, o que mais dói é a ideia da “traição física”, ao passo que, para a banda feminina, o grande temor de 65% delas é de o parceiro se apaixonar para valer por outra pessoa. “Preocupados em não demonstrar fragilidade, os homens costumam ser mais contidos na demonstração do ciúme”, analisa o antropólogo Bernardo Conde.

Nestes tempos ultraconectados, os estudiosos enxergam na onipresença das redes um impulso ao ciúme. Se antes a desconfiança se baseava em rumores ou na própria imaginação, hoje ela encontra eco em curtidas, comentários e no rol de seguidores da cara-metade. Tudo pode abalar nesta navegação envolta em perigo. “As redes viram palco para o ciúme doentio quando alguém usa a tecnologia para vigiar e restringir a liberdade do outro”, observa a psicóloga Marta Souza. Em um mundo que permite acompanhar quase tudo em tempo real, talvez o desafio maior seja justamente aceitar aquilo que não se pode saber.

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Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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