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O clique nostálgico que está na moda entre os mais jovens

A tecnologia não para de aperfeiçoar os recursos de fotografia dos smartphones, mas a graça agora é ostentar as câmeras digitais compactas dos anos 2000

Por Ligia Moraes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 set 2025, 08h00
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Com o estardalhaço de sempre, a Apple lançou na semana passada a família do iPhone 17, destacando o sistema de fotografia. Eis os diferenciais da versão Pro Max, segundo o fabricante: “Câmera frontal Center Stage de 18 megapixels; três câmeras traseiras de 48 megapixels, dispostas em triângulo”. Com tanta novidade, tanto avanço tecnológico, parece dissonante que um modismo tenha se espalhado por aí com vigor: a adoração pelas máquinas digitais compactas dos anos 2000, antes da eclosão da era do smartphone, esta que vivemos.

Trata-se de deixar o amanhã no acostamento, um pouco que seja, para empunhar sucessos como a Sony Cyber-shot, a Canon PowerShot, a Nikon Coolpix e cia. (veja as favoritas no quadro). Há espaço também para aparelhos que mimetizam a antiga Polaroid, de impressão imediata. Levados para baladas e viagens, os equipamentos digitais produzem fotos granuladas, de cores estouradas e flash forte. É o oposto da nitidez prometida pelos totens de hoje como os da Apple, e é aí que mora o charme.

IMPRESSÃO IMEDIATA - Os produtos que mimetizam a Polaroid: charme
IMPRESSÃO IMEDIATA - Os produtos que mimetizam a Polaroid: charme (Westend61/Getty Images)

A tendência tomou corpo nas redes sociais, é claro. Hashtags como #digitalcamera já somam centenas de milhões de visualizações no TikTok; a #cybershot acumula dezenas de milhares de postagens, em vídeos que ensinam a transferir fotos antigas para o computador ou exibem garimpos em brechós e sites como eBay e Mercado Livre. Celebridades também ajudaram a impulsionar a moda: no Emmy de 2024, a atriz Ayo Edebiri apareceu com uma Sony Cyber-shot de 8 megapixels; a cantora Dua Lipa já posou com uma compacta, e brasileiras como Bruna Marquezine e Rafa Kalimann também exibiram seus modelos em festivais e postagens no Instagram. Não há, por ora, estimativa econômica de compras, mas os efeitos são claros. As buscas no Google por “câmera digital antiga” dobraram em 2025 na relação com o ano passado.

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A explicação vai além do saudosismo. Para quem vive a hiperconectividade dos smartphones — com notificações constantes de mensagens —, fotografar com uma compacta cria um pequeno oásis de atenção. O ato de ligar a câmera, enquadrar pelo visor minúsculo e clicar sem filtros devolve intenção ao registro. “A câmera compacta oferece o que se pode chamar de monotasking luxuoso, dispositivo com uma única função, sem distrações”, diz Daniel Bichuetti, especialista em tecnologia e negócios. “Essa geração descobriu o poder da desconexão seletiva. Não estão abandonando a tecnologia, mas segmentando experiências digitais.”

arte câmeras digitais

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Outro fator é estético. Os smartphones modernos aplicam dezenas de camadas de algoritmos a cada clique. Os celulares são preparados para fazer correção de cor e suavização de pele, entre outras coisas. O resultado é tecnicamente perfeito, mas visualmente homogêneo. Para a geração Z, a imperfeição virou assinatura — e aí que as câmeras digitais conquistaram corações. “O flash estourado, o granulado e o blur de movimento, antes vistos como limitações técnicas, hoje são buscados de propósito porque transmitem autenticidade”, diz David Bydlowski, especialista em inovação digital e inteligência artificial. No caminho, as agências de publicidade também aderiram ao jeitão de antigamente, porque soa agradável.

Abandonam-se, por ora, as promessas infinitas da tecnologia em troca de uma necessidade humana: a segurança. Dito de outro modo: quando tudo muda o tempo todo, e com rapidez inadiável, o passado é o porto seguro. O vinil, por exemplo, voltou às prateleiras das lojas, e até os “dumbphones”, celulares simples, sem aplicativos, ganharam espaço entre jovens cansados de telas. Há um quê de rebeldia, ao andar no avesso dos avanços, mas o ponto crucial é outro, como mostrou o dinamarquês Martin Lindstrom, no best-seller A Lógica do Consumo: “Quanto maior o estresse a que estivermos submetidos em nosso mundo e quanto maior for o medo, maior será a nossa procura por bases sólidas”. Não tem como ficar mal na foto, ainda que ela saia um tantinho fora de foco.

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Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961

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