Por que os apps de relacionamento podem estar gerando uma crise de intimidade
Os aplicativos alteraram o modo pelo qual a humanidade se relaciona desde sempre
Na pré-história, caçadores e coletores se juntavam em pequenos grupos em prol da sobrevivência em um mundo inóspito e permeado de perigos. Ao tecer laços, ampliavam as chances de obter alimento e proteger-se de ataques inimigos, e assim se acasalavam, garantindo a permanência da espécie. Tudo era no tête-à-tête, com os cinco sentidos em plena ação, um ambiente que por milhares de anos foi moldando os elos humanos. No curso da história, é verdade, houve alguns facilitadores para o encontro do que a biologia evolutiva chama de parceiros sexuais. Um deles, a anos-luz de distância da Idade da Pedra, foi o advento do automóvel, em fins do século XIX, que deu impulso ao universo dos dates, os quais passaram a extrapolar fronteiras físicas. Também a massificação do telefone fez não só estreitar a conversa, mas simplificar a vida dos pombinhos. Nada disso, porém, causou um tremor de tamanha magnitude na dinâmica dos relacionamentos quanto a revolução tecnológica e os apps de namoro que com ela vieram, sacudindo toda a lógica da busca por um par tal como as civilizações se habituaram a fazer.
Eis que daí surgiu um dos grandes paradoxos da modernidade, ao qual um dos maiores pensadores da área, o biólogo evolutivo Justin Garcia, derrama luz no recém-lançado The Intimate Animal (O Animal da Intimidade). Diretor do Instituto Kinsey, o mais respeitado núcleo de pesquisas no campo da sexualidade, ele chama atenção para o fato de o cérebro ter sido lapidado sob uma moldura de agrupamentos reduzidos, em que a compatibilidade afetiva entre os membros era testada no dia a dia, ao longo do tempo e com contato de sobra. Por outro lado, o que os humanos imersos no caldo virtual vivem agora é justo o contrário: lidam a distância com uma oferta infindável de gente de quem nunca ouviram falar e com quem, não raro, travam uma, duas conversas — o insuficiente, segundo Garcia, para uma avaliação mais profunda da figura do lado de lá da tela.
O cientista ainda ressalta que os filtros à disposição (aparência, gosto musical, hábitos) conferem uma enganosa sensação de familiaridade. “A tecnologia ainda não conseguiu derrubar 4 milhões de anos de evolução”, resume ele, que não é contra os aplicativos, os quais podem muito bem conspirar a favor, mas alerta que, do modo como vêm sendo usados pela maioria das pessoas, acabam produzindo conexões frágeis e geram uma crise de intimidade.
Sentimentos conflitantes de quem se aventura nos labirintos da paquera on-line foram captados em um novo levantamento, feito pela Forbes Health, com o propósito de investigar o humor dos usuários de plataformas de encontros. E não deu outra: 78% deles, quase todos marinheiros de muitas viagens naquelas telas, revelam alguma dose de “frustração” ou “esgotamento”, sendo que 40% até acham por lá perfis interessantes, mas se ressentem da falta de uma conexão mais real, consistente e, por que não?, longeva. “Percebo uma menor disposição das pessoas hoje para se conhecerem de verdade”, diz a psicóloga Amanda Garcia, 31 anos, integrante da turma que perdeu a paciência para o modo não presencial, o preferido por uma banda dos frequentadores desses apps. “Fiquei semanas falando com um cara pelo celular, mas, na hora de marcar dia e hora para o encontro, ele enrolava. Sem ser pessoalmente, não funciona para mim”, conta Amanda. Às vezes, o cansaço em meio às incertezas dessa ciranda se converte em exaustão, um fenômeno ao qual os especialistas já deram até nome: dating burnout.
O tema inspirou uma nova frente de estudos capitaneada pelo psicólogo Paul Eastwick, da Universidade da Califórnia, autor do muito comentado livro Bonded by Evolution (Conectados pela Evolução). Com base em experimentos e na observação de décadas, ele, que é também diretor de um laboratório de pesquisas voltado para a ciência da atração e do relacionamento, sustenta que fatores como beleza e carisma podem, sim, ser ingredientes essenciais para o magnetismo no começo da relação, período não raro envolto em paixão, mas não é o que explica aquele vínculo que viceja em terreno mais sólido. “A forma mais tradicional de estabelecer um relacionamento é convivendo ao longo do tempo, muitas vezes em um contexto que não era explicitamente sobre namoro”, explica. O enrosco moderno é que a incessante busca de afeto on-line — um usuário típico passa noventa minutos diários deslizando o dedo sobre perfis de possíveis candidatos — embute a ideia de que, em meio a tamanha variedade, o próximo match pode, quem sabe, ser melhor que o anterior. “Neste contexto, torna-se natural descartar tudo aquilo que não parece espetacular no primeiro instante ou em um único encontro, uma armadilha que dificulta a verdadeira conexão”, pondera Eastwick.
Sob o ângulo do lado cheio do copo, pesquisadores da Universidade Rutgers e do mesmo Instituto Kinsey foram a campo para examinar o quanto o fator tempo pode pesar em prol de laços afetivos verdadeiros. E o resultado confirmou com números a hipótese de que dar chance ao amor, como se diz, pode provocar elevados níveis de satisfação e plenitude. O levantamento mostra que 70% dos entrevistados reconhecem já ter se sentido fortemente atraídos por alguém que, em um primeiro momento, não lhes despertava uma fagulha sequer, e 30% contam ter inclusive se apaixonado — tudo isso depois de certo convívio, deixando o acaso se encarregar do resto.
Pois nessa teia, já bastante complexa, as redes adicionam à receita um complicador, justamente por subtrair, com frequência maior do que a desejada, a possibilidade do tradicional, e às vezes tão certeiro, olho no olho. “As bolhas digitais podem gerar ruídos de interpretação de mensagens e ansiedade naqueles que só se comunicam por elas. A humanidade precisa do modo presencial”, enfatiza a antropóloga Aline Gama, da Uerj. Sem ele, o terreno para distorções se faz fértil. O estudante de direito Ian Moura, 22 anos, admite que os apps estavam lhe fazendo mal ao notar que nada mais ali o satisfazia. “Criei um ideal de perfeição e o outro nunca correspondia à minha expectativa”, relata ele, que decidiu se abrir à selva amorosa longe das telas, no que não está sozinho. Grandes aplicativos, como Bumble e Tinder, que costumavam registrar crescimento de adeptos ano após ano, estão assistindo pela primeira vez a um declínio (de 5% e 10%, respectivamente, em 2025). Não chega a ser expressivo, até porque uma multidão ainda tenta a sorte ali, mas é um sinalizador de que os ventos estão mudando — e também os apps terão de acompanhá-los.
Ao mesmo tempo que podem ser fonte de dissabor, frustrando a turma à procura de uma conexão que faça sentido à vida, os aplicativos de namoro também veem florescer casos exitosos, como o do psicólogo Felipe Gomes, 27 anos, que na origem era um cético da trilha virtual, mas se surpreendeu. “Fiquei uma semana falando com minha atual noiva. Buscamos afinidades, passamos a sair e descobrimos que tínhamos tudo a ver”, lembra Felipe, já contabilizando cinco anos de estrada ao lado da engenheira Ana Beatriz Oliveira, 27 anos. “Os aplicativos são uma forma contemporânea de se relacionar; não podemos ter uma visão saudosista e preconceituosa, insistindo que o passado era melhor. São apenas modos diferentes que podem ser muito bem aproveitados”, observa a psicanalista Regina Navarro Lins.
É verdade que a modernidade, com tudo o que ela traz, tornou mais desafiador o encontro de parceiros, tão mais simples em tempos nos quais o que estava em jogo era a sobrevivência acima de tudo. Mas nem tudo deságua na tecnologia. Um dos pontos que mais atormenta integrantes da espécie é alimentar elevadas expectativas de que, em algum canto do planeta, há uma cara-metade que lhes completará à perfeição. O mito da alma gêmea ganhou impulso em plena Idade Média, na voz de trovadores que faziam odes musicais venerando a figura feminina. Por séculos, essa ideia abasteceu as artes e cultivou a busca pelo amor. As novas gerações, embora afeitas a relações mais fluidas e com menos amarras, não se despiram de todo desse inalcançável ideário, daí a torrente de frustração que tantos relatam. Ao se debruçar sobre o tema no clássico A Arte de Amar, o filósofo alemão Erich Fromm já alertava nos anos 1950 para o perigo de a sociedade contemporânea produzir uniões vazias, apenas para escapar da solidão. “Amar é dar ao outro a liberdade de ser quem realmente é”, dizia. Combater a tal crise de intimidade, como se vê, exige muito mais que uma rápida passada de dedos pela tela.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991








