Sozinhos e bem acompanhados: pessoas mundo afora derrubam um velho tabu
Não ter alguém por perto vai deixado de ser sinônimo de depressão e fracasso pessoal
Por muito tempo, a palavra solitude era usada como sinônimo de solidão, até que os ventos contemporâneos revestiram o vocábulo de novo e mais leve significado. Ao contrário do dolorido sentimento que hoje tanto assola a humanidade, o termo com raízes no latim se refere a uma experiência solo vivida por escolha e na boa companhia de si mesmo. É uma ideia em alta no mundo moderno, que, claro, reverbera nas redes, onde uma bem-intencionada turma de influenciadores vem contribuindo para derrubar o tabu de que não é possível extrair verdadeira alegria sem alguém ao lado. Em um típico perfil, seguido por 200 000 pessoas, a estudante de engenharia Aline Ghidetti, 22 anos, dá o tom: ela frequenta charmosos cafés e embarca para destinos deslumbrantes marcando posição — no jantar à luz de velas, aparece só e, garante, muito bem acompanhada. “Encaro estar comigo mesma como um ritual de autocuidado, me divertindo de verdade”, diz.
Ela e tantos outros caminham em direção justamente oposta ao que predomina no ambiente virtual — imagens de uma vida sempre cercada de gente, encontros e festas. Não é que façam a apologia de nunca ter um ombro amigo com que contar ou enalteçam a solteirice, mas enfatizam que cultivar um espaço próprio é algo precioso. No Instagram, a hashtag #solitude, que avança no Brasil, já acumula mais de 4 milhões de marcações, juntando-se a um rol que atrai diferentes nacionalidades, como #alonenotlonely (sozinho mas não solitário) e #cozyathome (aconchegado em casa). Uma das mais visíveis defensoras de tal filosofia é a canadense Lana Isa, 24 anos, que arrebanha centenas de milhares de seguidores mundo afora com vídeos assistindo a séries esparramada no sofá ou bebendo um vinho na sala com a legenda: “Sexta-feira à noite, sem filhos nem namorado”. Pode até soar melancólico, mas ela diz que faz um imenso bem e que, sim, também adora uma boa balada.
A ciência vem investigando os benefícios que os momentos sem companhia no horizonte podem proporcionar — e o efeito daquele verdadeiro mergulho em si mesmo é sempre positivo. Um recente estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Reading, na Inglaterra, concluiu que períodos voluntários de isolamento estão associados à redução dos níveis de tensão emocional, ao aumento da sensação de autonomia e a uma melhora gradual no bem-estar. O alerta aí é não exagerar na dose para que a salutar busca por introspecção não se converta em solidão, um mal desta tão acelerada era que já fez até a Organização Mundial da Saúde (OMS) acender a luz amarela. “Passar um tempo sozinho é uma escolha saudável e desejável, como mostra o estudo, mas é preciso manter a socialização em dia em prol do equilíbrio”, observou a psicóloga Netta Weinstein, à frente da pesquisa inglesa.
Mas não são apenas os posts e vídeos que inundam as redes a combater a distorcida ideia de que estar sozinho é sinônimo de falta de desenvoltura para firmar elos. Uma mudança de comportamento já é percebida ao vivo e em cores em locais normalmente frequentados em bando. Segundo um recém-divulgado levantamento da OpenTable, plataforma global de reserva de restaurantes, o grupo dos que jantam em mesas para um subiu 18% na Alemanha e 29% nos Estados Unidos em dois anos. O motivo: as pessoas dizem precisar de tempo para si em meio à alta pressão cotidiana. É mais um movimento que ajuda a dissolver a visão, impiedosa sobretudo com as mulheres, de que estar sozinho é falta de opção melhor.
É verdade que muita gente pena para descobrir os prazeres da própria companhia, o que sabidamente exige empenho. Acostumado a rodear-se de amigos, o estudante de psicologia Adair Ledino, 30 anos, comprou pela primeira vez um só ingresso para ir ao cinema no susto, depois de levar um bolo de uma garota em cima do laço. Gostou e, a partir daí, alimentou o hábito. “Adoro estar com os outros, mas um novo universo se abre quando fico sozinho”, conta ele, que martela a ideia para uma plateia virtual de quase meio milhão de seguidores.
A maneira como cada um encara as silenciosas horas sem interações acaba alterando a experiência de forma decisiva. Uma pesquisa da Universidade de Michigan, recém-publicada pela revista Nature, mostra que indivíduos que veem tais ocasiões como oportunidade para exercitar a independência, crescer e amadurecer são os que mais apreciam a própria companhia. Já os que tendem a olhar a situação como fracasso em tecer amizades relatam algum sofrimento. “Não existe cientificamente uma linha que diferencie solitude de solidão, mas está comprovado que períodos de introspecção são sempre bem-vindos”, reforça o psicólogo André Luiz Rabelo, ponderando que o exagero pode levar a angústia e desaguar em males da mente em gente que acaba se sentindo solitária. A sabedoria, já dizia o psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), em uma era pré-internet e pré-influencers, está em saber tirar o máximo que der dos voos solo. “A solidão é tremendamente bela porque nos torna profundamente livres”, escreveu. Dito isso, boa viagem.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif?quality=70&strip=info)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif?quality=70&strip=info)