A guerra pelo ícone pacifista
A obra-prima Guernica está no centro de uma disputa que mobiliza a opinião pública na Espanha
É uma daquelas ironias da história que nem a mente mais criativa imaginaria que um dia pudesse envolver seu legado. Talvez o único artista plástico do século XX que mereça o epíteto de gênio, o espanhol Pablo Picasso (1881-1973) pintou a obra-prima Guernica como um manifesto pacifista que denunciava o brutal bombardeio do vilarejo homônimo de seu país por forças fascistas, em 1937. Agora, o painel cubista está no centro de uma guerra que mobiliza a opinião pública na Espanha. De um lado do front estão as autoridades do País Basco, onde fica a cidade de Guernica e que pretende exibir a obra de Picasso no principal museu da região, o Guggenheim de Bilbao, nas celebrações dos noventa anos do massacre, que se completarão em abril do ano que vem. Na outra ponta, entrincheiradíssimos, estão os administradores de Madri — desde 1992, o painel é atração do Museu Reina Sofía, na capital espanhola. Sob as ordens do governo local, a instituição não autorizou o translado da obra até Bilbao, alegando que a Guernica — com 3,49 metros de altura por 7,76 de comprimento — é frágil e poderia ser danificada. O barraco é pesado: as duas partes se acusam mutuamente de provincianas e hipócritas. A ironia dentro da ironia é que, por desejo do próprio Picasso, o painel ficou por décadas no MoMA de Nova York, e há alguns anos o Reina Sofía também negou um empréstimo ao museu americano que a salvou das garras do ditador Francisco Franco. Na vida real ou no mundo da arte, a guerra vai prevalecendo sobre a paz.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990





