Como funcionam os shows sem celulares de Phoebe Bridgers, Jack White e mais
Os artistas que lutam contra uma praga da atualidade
Quando voltou aos palcos, em maio, a queridinha da música indie Phoebe Bridgers não anunciou shows via Instagram, mas preferiu agir como em décadas passadas. Espalhou cartazes pelas cidades onde tocaria e foi além: proibiu a entrada de aparelhos celulares, câmeras e outros objetos capazes de registrar as faixas do disco que lançaria apenas em agosto, Lost Weekend — agora, sim, disponível nas plataformas digitais. Tamanho cuidado poderia ser mera estratégia para atiçar a curiosidade ou uma forma de preservar canções ainda em fase de teste, mas logo se tornou indispensável para a cantora de 32 anos. Expandindo a turnê pelo Hemisfério Norte, ela continua a proibir o uso de dispositivos eletrônicos, pegando de surpresa seus fãs, séquito formado principalmente pela geração Z, viciada em TikTok. Gostem eles ou não, esta é a nova e bem-vinda tendência: shows e festas sem celulares cresceram 567% neste ano, segundo dados da Eventbrite, plataforma global de gestão de eventos e de venda de ingressos. Segundo especialistas, um número cada vez maior de apresentações exigirá atenção completa, sem direito a stories ou ao disparo de flashes ofuscantes.
O controle não é feito só com um pedido encarecido de “guarde seu celular, por favor”. Em shows como os de Phoebe Bridgers, os espectadores devem colocar seus smartphones em pequenas bolsas desenvolvidas pela Yondr, empresa americana que cobra cerca de 3 dólares por cabeça aos organizadores. Elas são seladas por fechaduras magnéticas e abertas no fim do evento ou em áreas designadas, como fumódromos para a tecnologia. Exceções são feitas mediante atestado médico.
A luta contra smartphones ocorre em um crescendo. Antes de Phoebe, o roqueiro Jack White aderiu à política em 2018, determinado a convencer seus fãs a jamais tapar a visão de alguém com uma tela erguida. Um ano depois, Bob Dylan deu uma bronca no público — “podemos tocar ou podemos posar para vocês” — e adotou a restrição. Até o momento, a Yondr esteve em mais de 10 000 eventos em 27 países, incluindo shows de Paul McCartney, Alicia Keys e Guns N’ Roses. Um dos poucos avessos, Damon Albarn, das bandas Blur e Gorillaz, defende que uma boa apresentação já afasta a plateia dos dispositivos. Nem sempre o show vale a pena. Devido à receptividade fria que recebeu no Coachella 2024, Damon prometeu jamais voltar ao festival.
O desconforto com o mar de aparelhos é sentido até por uma celebridade como Anitta, que confessou ao blogueiro Hugo Gloss o desejo de bani-los da turnê Equilibrivm, mas lamentou o alto custo do esquema. Uma startup brasileira, a Hup, fundada em 2025, vem tentando replicar o modelo por aqui. “Já fui filmado ou fotografado contra a minha vontade”, conta o fundador Martin Lowy. “O celular banaliza qualquer espaço, deixa o público exposto e inibe quem quer agir de forma natural.” Atualmente, o serviço é prestado principalmente para escolas particulares da Região Sudeste, mas o plano é adentrar logo o mercado musical, com o custo de 15 reais por cabeça. “Já tivemos solicitações de grandes artistas do ramo e faremos nosso primeiro show, ainda secreto, em agosto”, comemora o empreendedor.
Aos poucos, ao que parece, a era da superexposição vai cedendo lugar ao culto à discrição. Até mesmo estrelas como Taylor Swift andam colocando o pé no freio. A cantora proibiu a entrada de aparelhos em seu casamento grandioso em 3 de julho com o atleta Travis Kelce, no Madison Square Garden — mais de quarenta dias depois, nenhum clique do evento com 1 000 convidados foi divulgado. Outro casal poderoso, Tom Holland e Zendaya, também adotou a privacidade completa em uma cerimônia para amigos e familiares na Inglaterra. A tela, enfim, foi bloqueada — que tal simplesmente viver o momento?
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







