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Como os bicheiros se tornaram os senhores do Carnaval carioca

Contraventores como o Capitão Guimarães e Anísio Abraão David se transformaram em verdadeiros patronos da folia

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 fev 2026, 14h05 | Atualizado em 17 fev 2026, 14h07
Como os bicheiros se tornaram os senhores do Carnaval carioca Priorize VEJA no Google

Muito antes que produções badaladas como as séries Os Donos do Jogo (2025-) e Vale o Escrito (2023) convertessem histórias do Jogo do Bicho em horas eletrizantes de conteúdo audiovisual, a ligação entre tal crime organizado e o entretenimento já era muito próxima. Na verdade, a influência dos bicheiros no Rio de Janeiro é tanta que diversos deles podem ser considerados senhores do Carnaval.

Dentre as figuras infames, um dos mais importantes bicheiros a comandar o carnaval carioca é Capitão Guimarães, hoje com 84 anos. O ex-oficial do exército — apontado pela Comissão da Verdade como torturador do DOI-Codi — trocou a farda pelo crime nos anos 1980 e, apesar de ser então acusado de homicídio e corrupção, entre outras contravenções, se tornou presidente da Vila Isabel em 1983 ao lado de outro bicheiro, Waldemiro Garcia, o Miro — que, pouco depois, assumiria papel de patrono da Salgueiro.

Em 1984, Guimarães e mais nove dirigentes das principais escolas fundaram a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). O ex-militar presidiu a organização em dois turnos: entre 1987 e 1993 e de 2001 a 2007. Tal molde permite que bicheiros convertam o dinheiro obtido ilegalmente em verniz para sua influência social.

Desde a criação da liga, apenas 10 escolas sem o envolvimento de bicheiros conseguiram conquistar um título no Rio de Janeiro. As outras 31 vitórias estão ou já estiveram conectadas ao jogo. A Beija-Flor, por exemplo, tem Anísio Abraão David como seu patrono até hoje. Em 2007, o criminoso foi preso pela Polícia Federal em meio à Operação Hurricane, acusado de ameaçar jurados para garantir o título à escola.

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Já a Imperatriz Leopoldinense tinha apoio de Luizinho Drummond (1940-2020) e a Mocidade, de Castor de Andrade (1926-1997), conhecido como o maior bicheiro do Brasil. O dinheiro do crime proporcionou que tais agremiações atingissem parâmetros inalcançáveis para escolas como a Império Serrano, fundada em 1947 e isenta de ligações à contravenção. Outro fator que favorece tais escolas é que, desde a criação da Liesa, é ela quem organiza os desfiles e a seleção dos jurados.

Hoje, herdeiros da cúpula do jogo do bicho — com a ficha limpa — dão as caras no Carnaval carioca. Marcelo Calil Petrus Filho, neto de Antônio Petrus Kalil, o Turcão (1925-2019) —, assumiu o comando da Viradouro em 2017, enquanto Cátia Drummond, filha de Luizinho, chefia a Imperatriz Leopoldinense. Luiz Guimarães, por sua vez, virou presidente da Vila Isabel em 2022, aos 24 anos. Gabriel David, herdeiro de Anísio, por fim, é presidente da Liesa desde 2024.

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