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“Decidi lutar e ser feliz”, diz vítima do césio-137

Lourdes das Neves Ferreira, 74 anos, fala sobre o acidente e a série 'Emergência Radioativa'

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 abr 2026, 08h00
  • Quando saiu na Netflix a série Emergência Radioativa, sobre o acidente com o césio-137 em Goiânia, assisti por curiosidade. Não é fácil reviver aquela experiência. Fiquei triste, mas ao mesmo tempo foi como montar um quebra-cabeças, pois tenho muitas lacunas na memória daquela época. Embora não seja totalmente fiel ao que ocorreu de verdade, já que não conversaram conosco, a maior parte do que a minha família viveu está no programa. Me lembro quando meu marido, Ivo (na série chamado de João, vivido por Alan Rocha), trouxe o pó do césio-137 para casa. Tive pavor, medo, não achei bonito; não sei por quê. Logo limpei toda a casa e lavei as roupas. Como está na série, fomos primeiro isolados em um campo de futebol. A personagem que me representa (Catarina, papel de Marina Merlino) viveu muitas coisas diferentes das que vivi. Especialmente depois do estádio: ela ficou livre, foi trabalhar; eu fui levada para o prédio da antiga Febem, onde montaram um dormitório para quem não precisava ir para o hospital, mas tinha que continuar isolado.

    Passei três meses nesse alojamento. A gente não tinha TV, rádio, nada. Todo dia me davam remédios e eu vivia dopada. Acho que faziam isso porque sabiam que as notícias não seriam boas. Fiquei separada do meu esposo e dos meus dois filhos, Leide e Lucimar (Celeste e Claudinei, interpretados por Mariana da Silva e Enzo Ignácio), que tinham 6 e 14 anos na época. Sendo um caso grave, a Leide foi levada de Goiânia para o Rio de Janeiro com o pai, para receber atendimento especializado. Não pude ir junto e nunca mais a vi. A contaminação aconteceu em setembro de 1987. Na manhã do dia 23 de outubro, recebi a notícia do falecimento da minha cunhada Maria Gabriela Ferreira (Antônia, papel de Ana Costa). No fim do mesmo dia, me avisaram da morte da Leide. Foi um momento tão duro, tão difícil. Quando paro para pensar no passado, ainda não acredito que fui eu quem passou por tudo aquilo. No enterro dela, ainda enfrentei os manifestantes que não a queriam no cemitério. Me despedi da minha filha sendo apedrejada.

    Meu filho e meu esposo ficaram comigo na Febem depois que receberam alta. Não tínhamos para onde ir, nossa casa foi demolida, estava muito contaminada. O governo nos deu uma casa nova, bem afastada de onde morávamos. Vivo nesse endereço até hoje. Recomeçamos do zero, mas nunca foi a mesma coisa. O acidente atrapalhou toda a minha vida. Além de perder minha filha, virei cuidadora, especialmente do meu marido, que passou a depender muito de mim. Ivo se culpava por ter levado o pó para casa, contaminando os filhos. Ele ficou depressivo, desenvolveu medo de tudo e passou a fumar muito. Morreu de enfisema pulmonar em junho de 1994. Meu filho, que hoje tem 52 anos, possui uma saúde delicada. Teve pneumonia diversas vezes. Em 2001, sofreu três paradas cardíacas. Fez cirurgia e se recuperou. Tenho uma filha mais velha, mãe das minhas quatro netas, que me deram doze bisnetos. Minha família é minha fonte de alegria.

    Mesmo com essa tragédia, decidi lutar e ser feliz. Se sobrevivi, é porque Deus quis. Toda vez que fico mal, olho para a foto da Leide. Ela era uma menina alegre, e o sorrisão dela manda minha tristeza embora. Hoje não gosto de associar meus problemas de saúde com o césio. Se eu fizer isso, vou ficar louca. Tenho pressão alta, um problema sério na coluna e nas articulações, mas prefiro achar que é por causa da idade. A série ajudou a trazer o assunto de volta. O reajuste da nossa pensão estava congelado fazia oito anos em 954 reais. Agora, vamos receber um salário mínimo. Estávamos esquecidos. O que passamos foi muito grave e não pode se repetir de jeito nenhum.

    Lourdes das Neves Ferreira em depoimento a Raquel Carneiro

    Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990

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