‘Dia D’, de Steven Spielberg, é o melhor filme do ano até agora
Mais do que advogar pela existência de alienígenas, estreia da semana quer eletrizar o público e convencer que a humanidade tem esperança
Cerca de 50 anos atrás, um jovem diretor lançou seu segundo longa-metragem em circuito comercial e provou que seus dotes para a construção do suspense não estavam limitados a feras aquáticas. Ele era Steven Spielberg, expoente da Nova Hollywood, e o filme que consolidaria sua longevidade era Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), primeiro de quatro longas seus dedicados à ideia de uma invasão alienígena no planeta Terra, cada um deles motivo para intensificar a crença do cineasta de que há vida lá fora — e, ocasionalmente, por aqui, como na conspiração de Varginha endossada por ele. Por mais que pareça, no entanto, seu esforço mais recente não é justificado por delírios sobre extraterrestres. Pelo contrário, Dia D (Disclosure Day, Estados Unidos, 2026. Em cartaz a partir da quinta-feira 10) prefere encarar a humanidade e só poderia ser feito por este homem, com seus 79 anos de bagagem e seu círculo de colaboradores imbatível.
Ao longo das quase duas horas e meia, salta aos olhos a blocagem minuciosa desenvolvida por Spielberg ao lado do diretor de fotografia Janusz Kaminski, com quem trabalha desde 1997, assim como os ouvidos recebem de bom grado a trilha sutil, mas fulgurante do lendário John Williams, colaborador do diretor desde Tubarão (1975). O cacife também está no roteiro: David Koepp deu o pontapé nas sagas Jurassic Park e Missão: Impossível, e agora tece a perseguição eletrizante no centro de Dia D. Na contramão do estilo tardio, todos esses veteranos demonstram um trabalho coeso e um notável aperfeiçoamento formal. Juntos, garantem que o filme jamais desacelere. Sob a condução de Spielberg, vão além e compõem uma trama profundamente sentimental e esperançosa que é clarão em meio à desilusão contemporânea.
Dinâmica, a história já pega o trem andando conforme o hacker Daniel Kellner (Josh O’Connor) carrega uma mochila cheia de informações confidenciais e foge dos homens armados que respondem ao vilão Noah Scanlon (Colin Firth), chefe de uma ONG determinada a manter a existência de vida alienígena em segredo. O caldo engrossa quando a moça do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt) é visitada por um canário vermelho e passa a ser capaz de falar línguas que nunca estudou e de, com uma simples troca de olhar, compreender tudo o que se passa na mente de uma pessoa. A peculiar telepatia a levará ao encontro do fugitivo, e ambos farão o possível para divulgar o que sabem sobre o universo e descobrir por que estão conectados.
Na trama, portanto, não existem personagens centrais vindos de outro mundo, ou objetos voadores não identificados que ameaçam pulverizar metrópoles. Dia D está mais preocupado em ponderar se as pessoas ainda são dignas e capazes de receber informações cataclísmicas, pergunta urgente cinco anos após o estouro de uma pandemia que até hoje é motivo de pânico e desinformação, entre outros eventos que têm inflado o pânico moral e a polarização nesta década.
No lugar da astrofísica, o roteiro se apoia na teologia, belamente representada por Jane (Eve Hewson), namorada do protagonista e ex-noviça, cuja fé entra em crise após a descoberta da espécie superior. O tema ecoa na figura messiânica encarnada por Emily Blunt, que entrega a melhor atuação de sua carreira até então como vetor involuntário de empatia infinita.
A ideia é própria para o cinema. Assistir a um filme não é encarar um espelho, e sim encontrar lugar-comum dentro de imagens feitas a milhares de quilômetros de distância, estreladas por alienígenas, mafiosos, super-heróis, monstruosidades e gente comum. Todos, afinal, foram pensados à nossa imagem e semelhança.
O poder é tanto que há quem carregue a sétima arte como religião. Spielberg certamente é um deles e, por isso, acredita que humanos ainda podem interagir entre si de forma aberta, vulnerável e produtiva. Também por isso crê que um arrasa-quarteirões não precisa se passar em naves frias e cenários inteiramente computadorizados, mas pode cativar o público da mesma forma em recintos mundanos como um quarto infantil e um vagão de trem que carrega pianos. Não é ingenuidade, nem sinal de uma guerra dos mundos, mas a expertise de quem construiu os alicerces da Hollywood de hoje, mexendo com milhões de corações há meio século.
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