Receba 4 Revistas em casa por 32,90/mês

Ian McEwan reforça a onda do cli-fi – a ficção climática sobre apocalipses possíveis

Em novo livro, o renomado autor inglês explora o filão com alertas sobre colapso ambiental

Por Diego Braga Norte 9 Maio 2026, 08h00

Há um certo fascínio perverso em ler distopias climáticas enquanto o noticiário na vida real anuncia enchentes históricas, recordes de temperatura e espécies extintas. É quase como folhear um manual de instruções que chegou tarde demais. Tal sensação é patente no novo livro do excepcional autor inglês Ian McEwan, O que Podemos Saber, que chega às livrarias a partir de terça-feira 12. O romance se passa no ano de 2119, num mundo que sobreviveu — por pouco — a uma hecatombe climática agravada por guerras nucleares e tsunâmis. O planeta que restou é um arquipélago de picos montanhosos onde costumavam existir países. Londres, Paris, Amsterdã, Lisboa e outras cidades da Europa foram submersas. Os Estados Unidos viraram um território tomado por guerras civis. A Nigéria é a potência hegemônica, dona de tecnologias de ponta.

O QUE PODEMOS SABER de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 384 págs., R$ 89,90 e R$ 39,90 o e-book)
O QUE PODEMOS SABER de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 384 págs., R$ 89,90 e R$ 39,90 o e-book) (./.)

É nesse mundo que o protagonista, professor Thomas Metcalfe, especialista no período literário de 1990 a 2030 — a última era antes da chamada “grande inundação” —, parte em busca de um poema perdido escrito em 2014 por um poeta brilhante e detestável (e negacionista) chamado Francis Blundy. O poema foi lido uma única vez num jantar em homenagem à esposa do autor e nunca mais foi encontrado. Sua reputação cresceu na exata medida de sua ausência, lacuna que move o romance. Assim, McEwan foge da armadilha de fabricar uma distopia banal de cenários apocalípticos e heróis resistentes. O que ele faz é mais perturbador: usa fatos do presente — aquecimento global, guerras, pandemias etc. — e os deixa seguir em frente até seu desfecho lógico.

IRÔNICO - McEwan: autor questiona a serventia da literatura feita por quem ignorou o próprio planeta
IRÔNICO - McEwan: autor questiona a serventia da literatura feita por quem ignorou o próprio planeta (Joanna Chan/AP/Imageplus)

O que Podemos Saber pertence a um gênero que ganhou nome próprio nas últimas duas décadas, a ficção climática, ou cli-fi (de climate fiction), expressão cunhada por volta de 2007 e atribuída ao jornalista americano Daniel Bloom. Não se trata exatamente de uma novidade — Octavia Butler já escrevia sobre colapso ambiental nos anos 1990, Ursula K. Le Guin o fazia nos anos 1970, e no Brasil o visionário Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, imaginava uma Amazônia extinta já em 1981. Mas a ficção climática literária contemporânea ganhou musculatura e urgência próprias — com um bem-vindo reforço de McEwan, este membro da chamada “alta literatura”.

Continua após a publicidade

Antes relegada ao subgênero da ficção especulativa — reduzida a imagens exageradas de catástrofes, como as do filme O Dia Depois de Amanhã (2004), baseado no livro de não ficção de Art Bell e Whitley Strieber, a cli-fi vem derrubando preconceitos ao perder a pecha de premonitória para se revelar cotidiana. “O que aconteceu no Rio Grande do Sul, por exemplo, é coisa de livro, de filme”, afirma o pesquisador da USP George Amaral, referindo-se às enchentes que assolaram o estado em 2024. Amaral é autor da tese A Forma do Romance no Antropoceno — termo que remete à época geológica atual, marcada pelo impacto humano sobre a Terra. “Essa tendência literária demonstra que existe uma mudança na nossa estrutura de pensamento sobre o tema.”

SOBREVIVÊNCIA - O Fim de Onde Começamos: a Inglaterra se torna um lugar inabitável no livro que virou filme em 2023
SOBREVIVÊNCIA - O Fim de Onde Começamos: a Inglaterra se torna um lugar inabitável no livro que virou filme em 2023 (Anika Molnar/Republic Pictures/.)

No Brasil, proliferam títulos do filão, como Água Turva, da autora gaúcha Morgana Kretzmann; Contra Fogo, do paulista Pablo Casella; e O Deus das Avencas, do paulistano Daniel Galera — todos em clima de thriller e com a natureza daqui como ambientação. No exterior, o americano Richard Powers foi laureado com o Pulitzer pelo ótimo A Trama das Árvores — previsto para se tornar uma série na Netflix. A inglesa Megan Hunter viu sua distopia O Fim de Onde Começamos, sobre uma inundação que toma a Inglaterra, virar filme com estrelas de Hollywood em 2023.

Continua após a publicidade
REALIDADE - Inundação em Porto Alegre em 2024: cena digna de uma distopia
REALIDADE - Inundação em Porto Alegre em 2024: cena digna de uma distopia (SEDAC/AFP)

Mais novo integrante desse filão, McEwan, autor erudito e deliberadamente sofisticado, usa a catástrofe climática não apenas como cenário, mas como pergunta filosófica central: para que serve a literatura quando o mundo desmorona? Seu protagonista é um professor obcecado por um poema — não por vacinas, energia limpa ou engenharia climática. Um poema. Seus alunos de 2119, crescidos entre as ruínas do Antropoceno, não têm paciência para entender o que perderam. “O passado era povoado por idiotas”, pensam sobre nossa época. McEwan até lhes dá razão, mas reserva à literatura o papel incômodo de testemunha dos tempos em que os idiotas ainda tinham escolha e, aparentemente, preferiram não usá-la. “Em meio aos desastres”, escreve o narrador, “a literatura mundial produziu seus mais belos lamentos, uma nostalgia maravilhosa, uma fúria eloquente”. A frase, linda e melancólica, serve de consolo aos que restaram — e de escada para a ironia do autor atingir seu ponto mais agudo. O planeta pede socorro e o alerta vem agora na forma de literatura de primeira qualidade.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).