João Gomes e mais: os forrozeiros que transformaram o ritmo em sucesso pop
Nova geração exalta origem nordestina e recupera espaço nas festas de São João
É uma tradição inescapável: todo mês de junho, diversas cidades do Brasil são tomadas por bandeirinhas coloridas, quitutes de milho, amendoim e arrasta-pé. Parte essencial da cultura brasileira, as festas juninas ganham ares de festival de grande porte no Nordeste, onde arrebanham multidões, entre locais e turistas. Os dois maiores eventos de São João, o de Caruaru, em Pernambuco, e o de Campina Grande, na Paraíba, aguardam neste ano mais de 7 milhões de pessoas. O impacto econômico esperado por ambos é o mesmo do ano passado, em torno de 1,5 bilhão de reais — uma fatia enorme do total movimentado pelos festejos no país, que chegou aos 7,4 bilhões em 2025. Em paralelo com a gastronomia abundante, um grande atrativo desses eventos são os shows musicais — e, neste momento, não há ninguém mais cobiçado do que a estrela do piseiro, João Gomes.
O rapaz de apenas 23 anos tem mais de trinta apresentações marcadas em junho — em algumas datas, acumula de dois a três shows por dia. “Tento cuidar mais da voz, descansar quando dá e me alimentar ainda melhor, porque é uma sequência intensa”, disse o cantor a VEJA (leia a entrevista abaixo). Nascido em Serrita, no sertão de Pernambuco, ele soma mais de 3,6 bilhões de reproduções de suas músicas no Spotify, ranking encabeçado pelos hits românticos Meu Pedaço de Pecado e Dengo. Gomes é um fenômeno, mas não está só: ele puxa uma nova geração de músicos que defende e moderniza ritmos típicos nordestinos, especialmente o forró. O feito deles é notável: em um meio supercompetitivo, no qual tendências como o sertanejo e o funk dominam as paradas nacionais — e há anos se infiltram nas festas juninas —, artistas como os cearenses Felipe Amorim, Nattan, Mari Fernandez e o paraibano Luan Estilizado popularizaram o som das sanfonas para além das divisas da região. O gosto pelo estilo musical raiz também se renovou, como prova o aclamado projeto Dominguinho, com shows em homenagem ao sanfoneiro pernambucano, encabeçado por João Gomes ao lado de Mestrinho e Jota.pê: o maior espetáculo da turnê, em abril deste ano em São Paulo, atraiu 50 000 pessoas.
Apesar de ser o gênero tradicional dos festejos, o forró vinha perdendo espaço no arraiá nordestino para o sertanejo desde 2017. Houve reclamações, protestos e pedidos de medidas para proteger o som raiz. O quadro, enfim, virou, menos pela revolta e mais pela reconquista dos ouvidos brasileiros. “Acho que o povo estava com saudade de música com identidade, com verdade”, opina Gomes. “Este é um dos melhores momentos da história do forró”, atesta Taty Girl, veterana do estilo, com vinte anos de carreira — e 37 shows marcados até agora para o mês de junho. Neste ano, cerca de 70% das atrações do São João de Campina Grande são forrozeiros. Os cachês da festa paraibana enchem os olhos: alguns chegam a 750 000 reais, como o de João Gomes. Já o cearense Wesley Safadão, adepto do forró eletrônico, foi o mais caro, embolsando 1,5 milhão.
Com origem nas celebrações do solstício de verão na Europa, as festas juninas costumavam ser embaladas apenas por cantigas populares e danças de quadrilha quando chegaram ao Brasil, sendo adaptadas aqui às crenças e aos costumes católicos. Depois, misturaram-se ainda a elementos das culturas indígena e africana. Esse caldeirão de referências, na década de 1940, recebeu de braços abertos o pernambucano Luiz Gonzaga. Através de suas letras sobre a vida no Nordeste e de sua sanfona hipnotizante, o músico popularizou pelo país a base do que viria a ser o forró, ritmo que se tornou um guarda-chuva musical, reunindo variações como baião, xote, xaxado, o pé de serra e, mais recentemente, a pisadinha e o piseiro. O gênero nunca parou de evoluir: hoje flerta com batidas eletrônicas, com instrumentos sofisticados, como o piano e o saxofone, e até com o funk. O pop Felipe Amorim, por exemplo, levou o piseiro ao Carnaval, em uma parceria com Anitta no hit Gostosin. O arrasta-pé foi renovado e está soltinho por aí.
“Mantenho os pés no chão”
João Gomes fala a VEJA sobre carreira, influências e a responsabilidade de representar o forró no país.
Você estourou com o piseiro e depois se aproximou do forró raiz. Qual a importância de dar voz a essa cultura? O forró é uma das maiores riquezas do Brasil. É uma música que fala da nossa vida, da simplicidade, do amor, da saudade, da festa. Poder levar essa cultura para o Brasil é uma responsabilidade muito bonita. O Nordeste merece ser ouvido pela grandeza que tem.
Quais são suas maiores referências musicais? Tenho muitas. Gosto de Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, mas também do romantismo do Raça Negra, da Vanessa da Mata e do jeito simples de cantar do Belchior. Vou pegando um pedacinho de cada artista que me emociona.
A música nordestina já sofreu muito preconceito. O que mudou? As pessoas começaram a conhecer o Nordeste de verdade. Antes existia muito estereótipo. Hoje, com a internet, a música atravessa essas barreiras. O público percebeu a força cultural do forró, e vários artistas levam o ritmo com orgulho, sem esconder o sotaque e a origem.
Como lida com a fama? Eu mantenho os pés no chão. Continuo perto da minha família, dos amigos e das coisas simples que sempre gostei. A fama é consequência do trabalho.
E como sobrevive à maratona de São João? É puxado, mas é a época mais bonita do ano. É avião, estrada, pouco sono. Tento cuidar mais da voz e me alimentar ainda melhor, porque é uma sequência intensa, mas quando subo no palco tudo vale a pena. Meu combustível é o povo.
Com reportagem de Bárbara Bigas e Beatriz Haddad
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998






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