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João Portinari: “A arte aproxima povos”

O único filho do pintor Candido Portinari fala sobre a exposição inédita que levou mais de cinquenta obras de seu pai ao Museu Nacional da China

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 ago 2026, 08h00
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De que forma a mostra ajuda o Brasil no esforço diplomático com a China? A arte é uma poderosa ferramenta de soft power. Ela aproxima povos, cria vínculos e desperta interesses mútuos, de uma forma que a diplomacia não consegue. A China é nosso principal parceiro comercial, mas os dois povos ainda se conhecem pouco. Esse Brasil não está nos cartões-postais.

Como essa conexão ocorre em culturas tão diferentes? Meu pai era filho de imigrantes italianos que trabalhavam na lavoura, de origem muito humilde. A figura do trabalhador do campo está no centro de sua obra. A China também tem uma forte memória rural e uma valorização histórica do trabalho, um aspecto que cria uma identificação imediata.

Por que o fascínio por esse Brasil permanece? O interesse de Portinari era o ser humano. Ele nutria profunda empatia pela dor do outro. Isso ajuda a explicar por que suas pinturas seguem tocando pessoas de diferentes países e gerações. No fim da vida, escreveu um poema que resume bem sua personalidade: “Todas as coisas frágeis e pobres se parecem comigo”.

Qual o motivo de ele não figurar entre grandes artistas do século XX, embora parte da crítica o ponha no patamar de Picasso? Durante muito tempo, o circuito valorizou somente o que era produzido na Europa e nos Estados Unidos. Certa vez, na França, me perguntaram se Portinari era o Picasso brasileiro. Respondi, com ironia, que o Picasso é que estava mais para um Portinari espanhol. O Brasil possui uma das culturas mais ricas e originais do mundo, mas nem sempre recebe o reconhecimento merecido.

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Como era sua relação com ele? Meu pai era um homem muito afetuoso, mas angustiado. Tinha uma dedicação quase religiosa ao trabalho. Seu compromisso inabalável me lembrava a figura de um monge. Cresci rodeado de gente como Oscar Niemeyer, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos e Jorge Amado. As conversas giravam em torno de arte, política, literatura e, principalmente, da realidade brasileira.

O que ele pintaria hoje, se estivesse vivo? Os mesmos temas que pintou a vida inteira. Infelizmente, a desigualdade continua existindo, as guerras não cessaram e a busca pela paz continua atual. Meu pai, um idealista, sempre sonhou com a convivência pacífica entre os povos. As questões que ele denunciava no século passado, infelizmente, não foram resolvidas.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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