O milagre de Rembrandt
O que seria do legado do artista sem o rigoroso trabalho do Projeto de Pesquisa Rembrandt, destinado a separar o joio do trigo?
O que seria da civilização sem Rembrandt van Rijn (1606-1669), o mestre da chamada Era de Ouro holandesa, cujas telas a óleo e gravuras parecem alcançar o inalcançável da alma humana? E o que seria do legado do artista nascido em Leida sem o rigoroso trabalho do Projeto de Pesquisa Rembrandt, destinado a separar o joio do trigo? O grupo, formado por historiadores, químicos e restauradores, lida em permanência para distinguir o que de fato é trabalho dele do que não é. No início do século XX, contavam-se 630 telas atribuídas a ele. Hoje são 420, porque as outras, duvidosas, foram “desatribuídas”, como se diz no jargão das artes. Na semana passada, contudo, deu-se momento de celebração, como claridade a iluminar as pinceladas do clássico e belo chiaroscuro. O Rijksmuseum de Amsterdã confirmou ser de Rembrandt o quadro A Visão de Zacarias no Templo, de 1633, que desde 1960 vivia no limbo, apartado das paredes porque não tinha o selo de autenticidade. Foram dois anos de trabalho para investigar, por meio de raio-x e imagens em infravermelho, as camadas de pigmentos, de modo a saber se coincidiam com o método e o estilo do gênio. Houve cuidado especial na assinatura anotada no canto inferior esquerdo da tela de 60 por 50 centímetros. Sim, é um Rembrandt, o registro estético da passagem em que o padre Zacarias é visitado no templo pelo arcanjo Gabriel, que traz a boa notícia: ele e a mulher, apesar de idosos, terão um filho, de nome João Batista. Rembrandt faz milagres. A obra agora estará exposta ao público, como prêmio para a humanidade — que faz guerras, mas cria belezas quase intangíveis.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





