Os projetos que querem limpar — e lucrar — com a imagem de Michael Jackson
O apelo comercial é testado novamente com uma cinebiografia grandiosa
Na vida de altos e baixos de Michael Jackson, a fama sempre foi uma constante. O cantor tinha apenas 6 anos de idade quando começou a cantar profissionalmente no grupo The Jackson 5 ao lado de quatro de seus oito irmãos. No fim da década de 1960, Michael mal havia chegado à puberdade e já conhecia bem as paradas de sucesso: o grupo desbancou até os Beatles nos rankings. No caminho acelerado ao estrelato, o caçula de talento indubitável superou os irmãos e continuou a crescer, sendo coroado Rei do Pop — trono assegurado por ele até hoje, mesmo após sua morte, em 2008, aos 50 anos, por overdose de anestésicos.
A trajetória de ascensão conduz a primeira grande cinebiografia oficial do cantor, Michael (Estados Unidos, 2026), que chega aos cinemas na quinta-feira 23 envolta em expectativas e controvérsias. Dirigido por Antoine Fuqua e com Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, no papel principal, o filme custou estonteantes 155 milhões de dólares e tem como missão renovar o gosto do público pelo astro incompreendido e encantar novos fãs em potencial — não por acaso, as polêmicas da carreira ficaram de fora do roteiro. Manter a imagem póstuma de um artista em alta — e, de preferência, imaculada — é parte essencial do trabalho de quem administra um espólio valioso e rentável, e o de Michael vale 3,5 bilhões de dólares.
O trabalho seria muito fácil, não fossem: a) o histórico complicadíssimo de desentendimentos da família Jackson; e b) o passado de acusações de pedofilia contra o cantor. Segundo reportagem da revista americana Variety, os bastidores do filme foram marcados por discussões e idas e vindas, com direito a uma refilmagem que custou 15 milhões de dólares para limar qualquer alusão ao primeiro processo enfrentado por ele por abuso de menor: em 1993, Michael firmou um acordo extrajudicial com a família de Jordan Chandler, então com 13 anos, estimado em 22 milhões de dólares. Outro julgamento, em 2005, inocentou o cantor por falta de provas. Após sua morte, as denúncias pareciam seguir para o vale do esquecimento, não fosse o impactante documentário Deixando Neverland, de 2019, lançado pela HBO.
Na produção, Wade Robson e Jimmy Safechuck revelam em detalhes como, na infância, teriam sido abusados por Michael: o modus operandi do cantor era encantar os pais com sua fama estelar e favores financeiros, para depois manter a família, especialmente os meninos, por perto, em viagens, eventos e em sua extravagante mansão Neverland (Terra do Nunca). Os advogados do espólio do cantor processaram o canal, pedindo 100 milhões de dólares — imbróglio que culminou na retirada do documentário de qualquer plataforma de streaming.
A verdade sobre as acusações, porém, parece ser de menor importância para os fãs e simpatizantes. Michael é o artista morto mais rentável da indústria. Na Broadway, o espetáculo biográfico MJ, lançado em 2021, é um dos mais lucrativos do reduto teatral, superando 300 milhões de dólares em ingressos vendidos. Já o show fixo Michael Jackson One, do Cirque du Soleil, em Las Vegas, é o mais bem-sucedido da história da trupe circense, há treze anos ininterruptos em cartaz. No mundo do streaming, o cantor é hoje o 27º mais ouvido na plataforma Spotify.
Michael continua dando lucros à família. A renda de seu espólio é dividida em 40% para a mãe, Katherine, de 95 anos, 40% para os filhos e 20% para caridade. Os irmãos lucram de forma paralela, com shows e tributos — quatro deles, Jackie, Jermaine, La Toya e Marlon, estão envolvidos na produção do novo filme. O clã está longe de ser um exemplo de boa administração do nome, e uma das herdeiras andou até atirando pedras na produção. “O filme bajula os fãs do meu pai que ainda vivem uma fantasia”, disse Paris Jackson (Michael teve ainda outros dois filhos). Mas a força do astro se sobrepõe a essas confusões e garante a rentabilidade longeva da obra. Seu talento para cantar, dançar, compor e se apresentar no palco dita, ainda hoje, o caminho de qualquer estrela do pop que se preze. Expandindo o gênero que o consagrou, Jackson se mostrou versátil. Aderiu a tendências da discoteca, colaborou com lendas como Paul McCartney e Stevie Wonder, dançou em clipes suntuosos e assim quebrou a hegemonia do rock na programação da MTV. Na cinebiografia chapa-branca de Michael, o que vale é a celebração no tom da Terra do Nunca, sem direito a nenhuma desafinada.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991





