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Paolla Oliveira: ‘A inteligência artificial nos atropela’

Estrela de A Herança de Narcisa, em cartaz nos cinemas, a atriz dá seu primeiro mergulho no terror psicológico e reflete sobre agruras femininas

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 jul 2026, 08h00
Paolla Oliveira: ‘A inteligência artificial nos atropela’ Priorizar nos meus resultados Google

O terror tem ganhado mais espaço no cinema brasileiro. Isso despertou sua vontade de se dedicar a um projeto do tipo? O que chamou a minha atenção foi o ponto de partida da história. A Herança de Narcisa nasceu de situações muito pessoais da roteirista e diretora Clarissa Appelt com a própria mãe. Percebi que, apesar de ser um filme de terror, é também uma trama que pode tocar as pessoas. Eu fiquei comovida com o roteiro, então decidi encará-lo. Assim como a comédia, o gênero é um artifício utilizado para falar sobre o que é absurdo. Hoje já gosto mais do terror.

O nome do filme já remete à figura da mãe narcisista — você, aliás, viveu essa relação na novela Vale Tudo como Heleninha, em contraponto à mãe, Odete Roitman (Debora Bloch). Agora, você interpreta a mãe e a filha também. Como foi a experiência de ver os dois lados? Pois é, a Clarissa e o Daniel Dias (codiretor do filme) falam que esse é um “terror-terapia”. Quando a gente fala em terror, não imagina que as pessoas vão sair da sala de cinema dando uma choradinha. As sensações se mesclam. É comum caracterizarmos a pessoa como uma coisa ou outra. A mãe da trama não é resumida ao narcisismo. Há muitas camadas ali que as mulheres vão compreender.

Em que sentido? A mãe, Narcisa, viveu a vida como conseguiu, em uma época complicada. Era uma vedete quando a mulher valia apenas pela juventude, até ser descartada. Já a filha, Ana, tem as próprias mágoas para resolver. Todas nós podemos nos identificar com ambas as personagens, mãe e filha, de alguma maneira. E, assim, nosso terror-terapia funciona.

Recentemente, você utilizou as redes para falar de outro horror feminino: a disseminação de imagens de inteligência artificial que usam seu rosto sem consentimento. O que achou da repercussão? Faz muito tempo que eu queria falar sobre isso — e eu posso, pois tenho rede de apoio e condições de brigar na Justiça. Ouvi muitos relatos de várias colegas que passam pela mesma coisa. A inteligência artificial está atropelando a gente, em especial as mulheres. Temos, sim, que falar e cobrar. Não podemos só aceitar, dizer que a IA chegou e agora estamos em uma realidade que não muda mais.

O que fazer em situações assim? Precisamos partir do início: não compartilhe o que não sabe se é real. Meu rosto foi usado em várias mensagens com as quais não compactuo. A internet é maravilhosa, mas é um mundo no qual temos que viver desconfiados. Nós, mulheres, ainda temos que ser firmes e estar seguras sobre nossa identidade e nossas relações, pois não podemos ter vergonha do que a gente não fez.

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A Herança de Narcisa é escrito e dirigido por uma mulher. Nota maior presença feminina no cinema? Sim, e faço questão de assistir aos filmes de diretoras e aos filmes com histórias femininas, porque é um dever alinhar meu discurso às minhas atitudes. É preciso prestigiá-las.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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