Paul McCartney e Rolling Stones, as lendas do rock que se recusam a descansar
Eles lançam novos álbuns neste ano, ambos em parceria com um produtor jovem e com direito a um clipe feito por deepfake
Quando perguntaram a Paul McCartney, em 1964, quanto tempo os Beatles durariam, ele preferiu não se comprometer: “Vamos ver”, disse o companheiro de banda de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. O vocalista Mick Jagger, confrontado com a mesma dúvida, ali pela mesma época, deu aos Rolling Stones uma data de validade de dois anos. A pergunta dizia respeito não apenas às chances de os dois grupos perdurarem, mas também à longevidade do estilo de música que representavam — e ao nível de interesse do público. Ainda bem, ambos estavam equivocados: passadas mais de seis décadas, cá estão eles, compondo e gravando músicas novas, lotando shows em megaturnês — e, ainda mais importante, com fome de jogo. Paul lança nesta sexta-feira, 29, seu vigésimo álbum solo, The Boys of Dungeon Lane, enquanto a trupe de Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood dá prosseguimento a um “esquenta” iniciado em abril para a chegada de Foreign Tongues, o 25º disco da carreira dos Stones, que sai em 10 de julho.
A longevidade dos roqueiros, que já passaram dos 80 anos de vida — Wood, o caçula, tem 78 —, é admirável, não só pela manutenção do nome de suas bandas famosas, mas pela habilidade de manter a relevância e a qualidade, sem descansar sobre os louros do passado, muito menos sugerir uma possível aposentadoria. Dedicados, os veteranos continuam a inovar, a aprender, e ainda dão a cara a tapa em penosos esquemas de divulgação com táticas de guerrilha — afinal, nesse mercado competitivo, o marketing continua sendo a alma do negócio. Antes de anunciar o novo disco, os Stones primeiro se fizeram passar por uma banda fictícia, The Cockroaches — nome adotado por eles no passado para anunciar shows-surpresa. Lançaram um vinil exclusivo com a canção inédita Rough and Twisted, um blues feroz que serviu como primeiro aperitivo do que esperar de Foreign Tongues. Depois, plantaram pistas do nome do novo disco — Línguas Estrangeiras, em português — em cartazes pelo mundo, nos quais o título aparecia em diferentes idiomas. Já McCartney enfileirou uma série bem coordenada de produtos paralelos: um documentário sobre seus anos com o Wings, banda que criou após o fim dos Beatles, e outro sobre a recuperação de seu primeiro baixo Höfner, aquele em forma de violino, desaparecido por cinquenta anos. Apostou também no básico bem-feito: fez participações em programas de TV e podcasts importantes, com alcance entre adultos e jovens, além de listening parties — reuniões superexclusivas com fãs e imprensa para audição do disco em primeira mão.
Em paz com a própria sombra, gigantesca e inescapável, Paul se permite compartilhar em The Boys of Dungeon Lane memórias do passado e se referir, sem rodeios e com carinho, aos velhos companheiros de banda. Caso da faixa Down South, sobre uma viagem de carona que ele e George fizeram na adolescência, e do dueto inédito com Ringo, Home to Us. Tocando praticamente todos os instrumentos e tomado de um espírito aventureiro, Paul mergulha em experimentos interessantes — como anexar no meio de uma faixa intervenções de uma banda de swing, no estilo do astro do jazz Glenn Miller. Mas entre as muitas qualidades do álbum está aquela que coloca McCartney entre os grandes do pop, se não o melhor de todos: sua habilidade de compor e contar histórias através de canções. Exemplo marcante disso é o encerramento do disco, Momma Gets By, na qual a história de uma família é contada do ponto de vista de um garoto, embrulhada num arranjo orquestral cinematográfico. É o Paul de Another Day, She’s Leaving Home e Lady Madonna em sua mais pura essência. Por sua vez, os Stones, movidos pelo eterno desejo de Jagger de soar “atual”, se permitem até olhar um pouco para trás — faz parte de Foreign Tongues uma versão de Beautiful Delilah, música de uma das inspirações do grupo, Chuck Berry (já gravada por eles num show da BBC, em 1964). O foco principal, contudo, é mostrar a banda no século XXI, consistente com seu passado mas com um casco sonoro tinindo de novo, “competitivo”, exemplificado por In the Stars, que ganhou um clipe em que Mick, Keith e Ronnie são representados por deepfakes de sua encarnação anos 1970, aplicados nos rostos de dublês de corpo (a banda inglesa Hot Property).
Curiosamente, a nova arma secreta dos Stones é compartilhada com Paul e se chama Andrew Watt, músico nova-iorquino de 35 anos, produtor de ambos os discos. Antenado, focado e bastante versado no pop e no rock, é uma espécie de “encantador de astros”, capaz de revigorá-los. Em muitos aspectos estes álbuns são obras tanto de Andrew quanto de seus artistas — ele até assina a coautoria de várias músicas. Vale um agradecimento a ele, por ajudar a manter acesa a fornalha da locomotiva que move esses dois gigantes da música.
Cúmplices na elaboração de grande parte da cartilha pop e rock que faz parte do DNA planetário, os Beatles e os Rolling Stones possuem laços fortíssimos. O primeiro grande hit da banda de Mick e Keith, I Wanna Be Your Man, foi escrito por John e Paul, que ofereceram a canção aos colegas durante uma corrida de táxi compartilhada. Jagger canta nos vocais de apoio da clássica All You Need Is Love, dos Beatles; John Lennon participou do Rock and Roll Circus, programa de TV gravado pelos Stones em 1968; Paul tocou baixo numa das faixas do álbum de 2023 dos Stones — e está em outra, no novo álbum, Covered in You. Por fim, há algo que apenas estes roqueiros podem oferecer ao mundo: somente os Beatles e os Stones conseguem ser os Beatles e os Stones. Sorte a nossa poder testemunhar o trabalho desses monumentos vivos da música.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997






