‘Persépolis’, obra-prima de Marjane Satrapi, é uma verdadeira aula de História
Quadrinho narra as transformações do Irã ao longo do século XX pelo olhar irônico e afetivo da autora franco-iraniana
Obra de referência de Marjane Satrapi (1969-2026), Persépolis não só narra as transformações do Irã sob o olhar afetivo e irônico da artista. A premiada obra, editada no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras, mostra sua juventude durante a transição para a República Islâmica em 1979, expondo as restrições sociais e a opressão política daquele momento. É uma verdadeira aula de História sobre o país que tem presença constante no noticiário internacional atual em razão de uma guerra com Estados Unidos e Israel.
A narrativa de Satrapi, cuja morte foi noticiada nesta quinta-feira, 4, aos 56 anos, começa quando ela tinha apenas dez anos, em 1980. Sua imagem com o hijab, indicando que o regime islâmico já estava em curso, abre o primeiro volume. A volta da sharia, o código de conduta do sistema de leis religioso, foi uma das consequências da subida ao poder do aiatolá Khomeini, após a revolução religiosa que derrubou o xá Reza Pahlevi. O cotidiano tornou-se sufocante, marcado pelo severo controle das liberdades individuais, rígidos preceitos religiosos, além do medo da repressão e dos horrores da guerra contra o Iraque.
Nesse cenário opressivo, a família da artista manteve seus valores progressistas na clandestinidade – fazendo festas secretas regadas a música ocidental e bebida. Para protegê-la do extremismo, os pais a enviaram à Áustria aos 14 anos. No exílio europeu, enfrentou solidão, choque cultural e preconceito. Ao retornar ao Irã, vivenciou uma profunda crise de identidade, não pertencendo nem à Europa e nem ao seu país, por seus novos costumes ocidentais. Após divorciar-se e sentir-se sufocada por pressões de gênero, partiu definitivamente para a França.
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Em 2007, Persépolis foi adaptado para o cinema, no formato de animação, co-dirigido por Satrapi, em parceria com o cineasta francês Vincent Paronnaud. Na versão original em francês, o longa contou com a dublagem de atrizes como Chiara Mastroianni (dando voz a Marjane), Catherine Deneuve (mãe) e Danielle Darrieux (avó). O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, em 2008. A obra também foi duplamente premiada no César (o “Oscar francês”) e venceu o Prêmio de Público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
História ilustrada
A graphic novel de Marjane Satrapi não é apenas um documento autobiográfico, mas uma aula de como o Irã passou de um país progressista após a Segunda Guerra Mundial para um dos regimes religiosos de exceção mais criticados pela comunidade internacional. Antes de contar sua história, Satrapi tomou o cuidado de fazer uma breve introdução histórica para deixar os leitores, seja qual fosse a faixa etária e o nível de conhecimento, informado sobre como o território persa evoluiu historicamente.
Nos anos 1950, o Irã era um país laico e progressista, praticamente uma referência no Oriente Médio. O primeiro-ministro à época, Mohammed Mossadegh, estava revisando contratos com os países que haviam ocupado o território no fim da Segunda Guerra Mundial, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos. Mossadegh estava insatisfeito em especial com a exploração de petróleo, que era feita em conjunto com a British Petroleum e a Anglo-Iranian Oil Company. Queria fazer uma auditoria nas contas das empresas e dos registros delas relativos aos poços da região.
Como resposta, a CIA promoveu um golpe de Estado. Ajudou a derrubar Mossadegh, abrindo caminho para o retorno de Rezah Pahlevi do exílio. No período em que esteve no poder, liderou uma ditadura que contava com o apoio dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como xá, ele se alinhou ao ocidente, favoreceu a entrada de multinacionais no país e se mostrou autoritário, impondo sofrimentos significativos à população.
Como resultado das ações opressivas de seu governo, o país foi tomado por uma onda de protestos no início de 1979, com a população pedindo o exílio do xá como uma tentativa de salvaguardar os seus próprios direitos. Essa insatisfação geral culminou na Revolução Islâmica, que derrubou o governo de Reza Pahlevi e o forçou a fugir do país. Sua queda abriu caminho para que o Aiatolá Khomeini retornasse do exílio e instaurasse uma república teocrática baseada nos preceitos religiosos e antiliberais com os quais Satrapi e sua família tiveram que lidar.






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