‘Quem Ama Cuida’ prova a força da vingança nas novelas
Inspirado no clássico O Conde de Monte Cristo, roteiro de calvário seguido pela volta por cima contra os inimigos alavanca a audiência
Em 1807, um sapateiro francês chamado Pierre Picaud estava prestes a se casar com o amor de sua vida. Porém, vítima da inveja de três “amigos”, ele foi acusado de um crime que não cometeu e ficou anos na prisão até conseguir fugir. Fora das grades, conquistou riqueza graças a um amigo que lhe apontou onde estaria um tesouro escondido. Ele retornou à vida dos traidores para se vingar de cada um dos responsáveis por sua ruína. Picaud morreu em 1815 após cumprir seus objetivos — e sem imaginar que sua história inspiraria um dos grandes romances da humanidade, O Conde de Monte Cristo, do francês Alexandre Dumas (1802-1870), publicado em folhetins entre os anos 1844 e 1846. Mais surpreso Picaud ficaria se soubesse que, dois séculos após sua morte, sua trajetória continuaria servindo de base para tramas no cinema e na TV mundial — e faria sucesso em um distante país apaixonado por novelas melodramáticas.
A saga do injustiçado que busca vingança é, hoje, a espinha dorsal de Quem Ama Cuida, atual novela das 9 da Globo, escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Em suas primeiras semanas no ar, o folhetim atraiu o amor e o ódio do público com o sofrimento constante de Adriana, papel de Letícia Colin. Humilde e batalhadora, a fisioterapeuta perde tudo em uma enchente, incluindo o marido. Dias depois, ela consegue um emprego para cuidar do ricaço Arthur Brandão (Antonio Fagundes). Cansado dos familiares interesseiros, ele se afeiçoa da moça e lhe propõe casamento, para que ela herde sua fortuna. No dia da união, contudo, Brandão é assassinado. Sua irmã, Pilar, megera vivida por Isabel Teixeira, orquestra um plano para condenar Adriana, em um complô com outra meia dúzia de personagens. A mocinha vai para a cadeia comer o resto do pão que o diabo não parava de amassar.
O calvário da protagonista foi longo e irritante — até durante a Copa do Mundo: ela teve pouquíssimos momentos de alívio na novela durante o Mundial, como deixar a prisão. A tristeza deve ser proporcional à volta por cima. Com 22 pontos de média na Grande São Paulo até o momento, o folhetim se aproximou dos 25 pontos de audiência nos primeiros dias de vingança de Adriana, enfim, fora da prisão. Se repetir o feito de outras tramas do tipo, o ibope tende a crescer.
A Globo já testemunhou fenômenos do tipo ao seguir a trama da jovem pobre e devastada que deixa de lado a bondade resignada dos humildes para assumir uma postura impiedosa contra os inimigos. Assim Avenida Brasil (2012) chegou a estrondosos 50,9 pontos de audiência em seu último capítulo, no desfecho da vingança tramada por Nina (Débora Falabella) contra a vilã carismática Carminha (Adriana Esteves). Fez também sucesso a marcante O Outro Lado do Paraíso (2017/2018), outra assinada por Carrasco, que gravou nos anais da TV a excelente fala do retorno da heroína Clara (Bianca Bin). “Vocês não imaginam o prazer que é estar de volta”, disse ela, de vestido vermelho, em uma festa, diante de seus algozes — que chegaram até a colocá-la em um sanatório. “Essa é uma aspiração muito frequente: a de dar a volta por cima em uma situação na qual um personagem sente-se diminuído, como em O Patinho Feio”, afirma Carrasco.
O apelo da revanche desnuda a faceta humana que torce para que algum tipo de justiça seja feita. “A vingança na ficção traz o elemento de catarse, fazendo o público experimentar o sentimento de vingar suas próprias dores”, explica Claudia Souto. “O mal não pode ficar impune, e ela precisa provar isso com as próprias mãos”, analisa Letícia Colin sobre a nova fase de sua personagem.
O primeiro alvo de Adriana é o advogado corrupto Ademir (Dan Stulbach), grande responsável por sua condenação. A lista de inimigos ainda envolve Tom (Allan Souza Lima), Ulisses (Alexandre Borges), Silvana (Belize Pombal) e Diná (Rosi Campos) — além, claro, da vilã Pilar. Danos colaterais são esperados, como o grande amor de Adriana, Pedro (Chay Suede), que será afetado no processo. O fim dessa jornada está longe, mas, até aqui, sabe-se que a vingança e a felicidade não são causa e efeito garantido.
Em Avenida Brasil, Nina aceita uma conciliação com Carminha e a perdoa — isso após atormentá-la até o limite. Em outra novela de sucesso, Beleza Fatal, de Raphael Montes, da plataforma HBO Max, a anti-heroína Sofia (Camila Queiroz) não mediu esforços para punir Lola (Camila Pitanga) por crimes do passado — por fim, se igualou à inimiga e terminou sozinha, em um fim para lá de agridoce.
Na contramão, O Outro Lado do Paraíso terminou com os malvados pagando pela vilania, enquanto deixou a mocinha feliz e em paz com um novo romance. “Nada melhor que o amor para balancear a sanha vingativa que rege tais personagens”, ressalta Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP. Popular, Clara até ganhou uma série de dez episódios no Globoplay, focada totalmente na vitória triunfal da personagem. A vingança pode até ser um prato que se come frio, mas na televisão, pelo menos, ele parece bastante saboroso.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif?quality=70&strip=info)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito](https://beta-develop.veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif?quality=70&strip=info)