Zezé Motta: “Aposentar? Só aos 95”
Cinco décadas após o papel que mudou sua vida, a atriz de 82 anos celebra o relançamento de 'Xica da Silva' em cópia restaurada
Como é testemunhar a volta de Xica da Silva aos cinemas? É difícil descrever. Eu devo tudo a ela, e agora o filme volta novo, bonito e ainda mais colorido. Parece magia, mas Xica é assim mesmo. Ela deu sorte a mim e à Taís Araujo e dará sorte à Salgueiro em 2027, como enredo da escola.
As discussões sobre representatividade e sexualização de personagens negras ganharam contornos bem definidos sob a influência do politicamente correto. Outro remake de Xica da Silva poderia ser feito hoje? Adoraria ver uma nova série sobre a Xica. Quando a interpretei, fui muito perseguida pelo movimento negro. Poucas saíram em minha defesa. Hoje ela seria uma obra diferente, porque a conversa sobre raça, gênero, sexualização e violência amadureceu desde então, mas o importante é que Xica continue provocativa. Em 1976, uma mulher negra à frente de um filme era algo fora da curva.
Como analisa as oportunidades reais para atores negros de lá para cá? Há mais espaço, mas o caminho ainda é longo. Voltei porque gostei da proposta de Nobreza do Amor (no papel de uma benzedeira na novela das 6h da Globo), mas já rejeitei muitos convites para interpretar mães de santo e matriarcas. Respeito esses papéis, mas quero novos desafios após sessenta anos de carreira. Sonho em fazer uma grande vilã.
Receia que a diversidade atual ainda seja revertida? Nenhuma conquista é definitiva. Não podemos baixar a guarda, nem esquecer que os avanços são fruto de muita luta. Creio que a nova geração questiona, cobra e não aceita certos comportamentos de jeito fácil, mas presença não é igualdade. Ainda somos minoria nos espaços de decisão e a diversidade não pode ser só uma tendência ou marketing. Ela precisa integrar a cultura das instituições.
Aos 82 anos, enfrenta o etarismo no meio? Parece que, depois de certa idade, a mulher só pode interpretar avó, bisavó ou figura religiosa. Isso não me representa. Namoro, utilizo as redes, trabalho e viajo sem parar. O audiovisual precisa olhar para essa geração com mais criatividade. Sendo sincera, não me lembro de ter recebido outro papel com o mesmo impacto da Xica.
Como é sua relação com atrizes jovens? É engraçado como me reverenciam. Algumas ficam nervosas de contracenar comigo, mas aí digo que sou eu que aprendo com elas. É uma troca.
Além do cinema e da TV, a senhora ainda tem carreira musical. O que está em seu horizonte? Não planejo, nem nunca planejei o futuro. O que eu quero é estar em cena e não parar de trabalhar. Brinco com meu empresário: aposentar? Só aos 95. Veremos.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






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