A corrida da Bayer para levar inteligência artificial do laboratório ao campo
Empresa prepara pelo menos 20 lançamentos no Brasil até 2030 e usa uma rede de pesquisa para acelerar o desenvolvimento de soluções para o campo
Nas últimas décadas, poucos países transformaram tanto sua agricultura quanto o Brasil. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de 1976 a 2026, a produção de grãos cresceu 667%, enquanto a área plantada avançou 123%. O desempenho chama ainda mais atenção por ter sido alcançado em um território continental, marcado por ampla diversidade de solos e condições climáticas e dividido em cinquenta mesorregiões agrícolas — grandes áreas que reúnem municípios com características semelhantes de clima, solo e produção rural. Da universidade à fazenda, a tecnologia teve papel decisivo nessa evolução, ao difundir o conhecimento acumulado pelos produtores e adaptar soluções desenvolvidas no exterior às particularidades brasileiras. Nesse processo, destaca-se a atuação do grupo alemão Bayer, líder mundial em sementes e herbicidas para soja, milho e algodão, culturas que responderam por 66,2 bilhões de dólares do total de 169 bilhões faturados pelo Brasil com as exportações agrícolas em 2025.
A experiência acumulada nas lavouras brasileiras serve de base para a próxima investida da Bayer no país, que prevê lançar pelo menos vinte formulações até 2030. “Continuamos focados em ajudar nossos clientes a ganhar produtividade e qualidade”, diz Maurício Rodrigues, presidente da Bayer Crop Science para a América Latina, divisão responsável pelos negócios agrícolas do grupo. Entre as principais apostas da empresa está a Intacta 5+, nova geração de biotecnologia para a soja, que é resultado de pesquisas conduzidas por centros tecnológicos da Bayer no Brasil, em Porto Rico e nos Estados Unidos. Desenvolvida para as condições das lavouras brasileiras, a solução protege a planta contra diferentes pragas. Sua estreia comercial está prevista para a safra 2027/2028, com potencial de vendas globais estimado em cerca de 3 bilhões de euros.
Levar projetos complexos como a tecnologia Intacta 5+ dos centros de pesquisa às lavouras — e fazer isso em prazos cada vez menores — ajuda a explicar a importância crescente da inteligência artificial para a Bayer. A IA vem sendo usada para acelerar a identificação de moléculas, a seleção de características genéticas e o desenvolvimento de produtos. Em comunicado recente, o chefe global de pesquisa e desenvolvimento da Bayer Crop Science, Mike Graham, resumiu essa mudança: “A inteligência artificial está se tornando um capacitador central do modelo de inovação da Bayer, ajudando-nos a avançar na descoberta, melhorar a eficiência do desenvolvimento e traduzir percepções biológicas em produtos diferenciados para os produtores de forma cada vez mais rápida”. No Brasil, segundo maior mercado da companhia, atrás dos Estados Unidos, esse trabalho também se apoia em um extenso programa de parcerias iniciado na década de 1960 e ampliado em 2018, após a compra da Monsanto.
A rede de parceiros reúne a Embrapa, principal instituição pública de pesquisa agropecuária do país, universidades, startups selecionadas por programas de inovação aberta e os próprios agricultores. A colaboração com parceiros tão diversos ajudou a Bayer a formar um amplo acervo de dados sobre solos, condições climáticas e práticas agrícolas no Brasil. Em um mercado concorrido e sujeito a inúmeras variáveis, a qualidade dessas informações influencia diretamente o desempenho das novas ferramentas. “O conhecimento acumulado e a qualidade do acervo permitem que uma empresa tire maior proveito da inteligência artificial”, afirma Mayra Theis, sócia e líder de agronegócio da PwC Brasil. Na prática, a IA tem ajudado os cientistas da Bayer, que dispõem de um orçamento anual de pesquisa e desenvolvimento estimado em 2 bilhões de euros, a reduzir o intervalo entre a identificação de moléculas e novas aplicações para insumos conhecidos, a validação de seus efeitos e o início da fabricação. “Com as novas tecnologias, conseguimos dobrar a taxa de ganho genético e triplicar a velocidade de lançamento do produto”, diz Marcia Ometto Mello José, diretora global de regulamentação de biotecnologias da Bayer Crop Science.
Antes da adoção da IA, os pesquisadores precisavam examinar de maneira quase manual os compostos armazenados na Biblioteca de Moléculas da Bayer durante as etapas iniciais dos estudos, tarefa que podia consumir vários meses. Somente depois dessa seleção começavam os testes de segurança e sustentabilidade. Hoje, a triagem virtual permite percorrer um acervo de 2,6 milhões de compostos, ampliar o número de amostras analisadas e concentrar os testes físicos nas alternativas com maior potencial. Esse processo sustenta a tecnologia CropKey — “chave de cultivo”, em tradução literal —, usada no desenvolvimento de herbicidas, fungicidas e inseticidas capazes de bloquear proteínas específicas de determinadas pragas ou plantas daninhas. A ação é semelhante à de uma chave que interrompe um mecanismo biológico essencial ao organismo que se pretende combater.
Sementes e defensivos mais eficientes, ajustados às características de cada região e aos objetivos dos agricultores, ganham importância diante das alterações provocadas pelo aquecimento global. O aumento da frequência de eventos extremos torna a produção mais vulnerável e reduz a confiabilidade dos padrões históricos usados no planejamento das safras. “As mudanças climáticas trouxeram um desafio adicional para os agricultores”, diz Jayme Barbedo, pesquisador sênior da Embrapa Agricultura Digital. “Mas elas podem ser enfrentadas com o uso de ferramentas que antecipem cenários e garantam um nível maior de previsibilidade.”
As novas soluções chegam ao campo em um período no qual o agronegócio brasileiro registra seu nível mais alto de maturidade digital, segundo o Índice de Transformação Digital Brasil, elaborado pela PwC Brasil em parceria com a Fundação Dom Cabral. Em 2025, o setor alcançou 3,6 pontos, avanço de 0,5 ponto em relação ao ano anterior, e aproximou-se da média de 3,7 registrada pelo conjunto das empresas brasileiras, em uma escala que chega a 6. O resultado mostra que a tecnologia já está presente em boa parte do setor, mas seu aproveitamento depende da maneira como é incorporada à gestão. “A transformação digital no agro deixou de ser uma discussão sobre adoção de tecnologia e passou a ser uma pauta da liderança”, afirma Mayra Theis, da PwC. A tecnologia muda, mas o objetivo permanece: produzir mais, com menos riscos e menor impacto ambiental.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30







