‘Ajudamos a transformar desapego em renda’, diz presidente da OLX
Olivier Aizac, explica como uma ideia antiga — o anúncio classificado — se tornou um negócio de 1,2 bilhão de reais
O francês Olivier Aizac, de 54 anos, vive há doze anos no Brasil, mas até hoje se surpreende com o que é possível descobrir sobre os costumes locais ao observar o que as pessoas compram e vendem pela internet. Aizac está há três anos à frente do Grupo OLX, plataforma de classificados on-line que alcançou 1,2 bilhão de reais de receita em 2025 e que avança sobre o mercado de lançamentos imobiliários e carros novos. A operação no Brasil tem como sócios a Prosus, conglomerado global de internet com sede em Amsterdã, dono ainda do iFood, e a também holandesa Adevinta, especializada em classificados on-line, cada uma com 50%. “A OLX influenciou os hábitos de consumo de segunda mão no Brasil, e agora a inteligência artificial pode promover uma nova mudança de paradigma nesse mercado”, afirma Aizac na entrevista a seguir.
Como um negócio baseado em anúncios classificados chega a faturar 1,2 bilhão de reais por ano? As pessoas sempre se agruparam em vilarejos e em feiras para fazer trocas. Posteriormente, os anúncios classificados se tornaram uma linha importante de faturamento da imprensa. A internet mudou totalmente essa dinâmica. No papel, os anúncios eram cheios de palavras abreviadas, porque se pagava por linha, e o volume era limitado pelo número de páginas. Nas nossas plataformas, todo dia entram até 400 000 anúncios novos. Podemos ter um texto de 1 000 linhas, ilustrado por fotos e vídeo. Ficou muito mais atrativo. Com a chegada da inteligência artificial, cria-se um novo jeito de comunicação com os usuários — essa é a nova fronteira.
Na trajetória da OLX no Brasil, qual foi a decisão estratégica mais crucial para os negócios? A história começa em 2012, com a promessa de utilizar a tecnologia para facilitar a compra e a venda de produtos usados entre pessoas físicas — algo que ainda não era corriqueiro para os brasileiros. A OLX criou o conceito do “desapega”, que acabou virando nome genérico. Com o sucesso dessa proposta, chegamos a 62 milhões de usuários ativos por mês. O grande salto veio quando entramos no mercado imobiliário, comprando o Grupo ZAP, em 2020. Hoje, o Grupo OLX reúne a plataforma generalista, onde se pode comprar e vender de tudo, e as duas verticais especializadas em imóveis: o ZAP e o Viva Real.
Esse foi, então, o pulo do gato? Sim, porque metade do nosso faturamento hoje vem do mercado imobiliário. A lógica é simples: as receitas de classificados são diretamente proporcionais ao valor do produto anunciado. Eu invisto mais na venda da minha casa do que na do meu carro, e mais na do carro do que na de um celular. O Grupo ZAP, que era tão grande quanto a OLX, foi comprado por 2 bilhões de reais. A companhia dobrou de tamanho da noite para o dia.
Como funciona o modelo de receita da plataforma? Temos dois grandes pilares. O primeiro são as imobiliárias, que pagam para anunciar e para receber contatos qualificados dos nossos usuários. O segundo são os vendedores de carros. Além disso, numa venda entre pessoas físicas, oferecemos uma camada de serviços parecida com a de um comércio eletrônico: o comprador tem garantia de pagamento e recebe o produto em casa. O dinheiro fica retido conosco e só é liberado para o vendedor quando o comprador confirma que recebeu o produto conforme anunciado. Por esse serviço, cobramos uma comissão sobre a transação.
“As transações na nossa plataforma proporcionam uma redução anual de 321 000 toneladas de CO2 equivalente”
Vocês também estão entrando em serviços financeiros? Sim. O grande desafio do consumidor brasileiro é o poder aquisitivo, especialmente no momento de comprar uma casa ou um carro. Estamos trabalhando com soluções de financiamento, em parceria com bancos e consórcios. Um exemplo concreto: temos uma solução de garantia locatícia, em que a OLX oferece o equivalente à caução para o inquilino que não tem capacidade de pagar esse valor de uma vez, sem precisar de fiador.
De que forma a OLX influenciou os hábitos dos brasileiros? Como sou francês, sempre fico impressionado com as diferenças culturais. Quando cheguei ao Brasil, comprar e vender produtos usados não era um hábito corriqueiro aqui. Havia uma questão de confiança, uma preferência pelo produto novo e também essa característica bem brasileira de preferir doar para quem conhece. O que mudou foi o entendimento de que cada um de nós tem o equivalente a um salário médio em produtos parados em casa — por volta de 4 000 reais em itens que não se usam mais. A ideia do “desapega” foi mostrar que é possível transformar esses produtos em renda. Hoje, há inúmeros grupos de WhatsApp chamados “Desapega” — do condomínio, da escola, do bairro —, o que mostra que o hábito entrou no cotidiano.
Além do motivo financeiro, há outras razões para o crescimento do mercado de segunda mão? Sim, especialmente entre as gerações mais novas. Há uma consciência ecológica forte, uma vontade de consumir de forma mais sustentável, de revender em vez de jogar fora. É o conceito de economia circular. A OLX tem essa ligação com um consumo mais responsável. As transações na nossa plataforma proporcionam uma redução de 321 000 toneladas de CO2 equivalente por ano (comparável a tirar 70 000 carros de circulação).
O que a plataforma revela sobre os costumes e hábitos dos brasileiros? Quando cheguei aqui, por exemplo, não esperava encontrar uma seção relevante de cavalos, mulas e equipamentos rurais numa plataforma digital. Mas é a realidade do Brasil profundo. Você pode comprar uma colheitadeira na OLX — é um investimento milionário, mas o mercado de segunda mão dessa máquina existe e é forte.
Qual é o produto mais inusitado que já apareceu na plataforma? A gente brinca aqui dentro que a OLX provavelmente tem um inventário maior do que qualquer e-commerce do mundo, porque praticamente tudo que já foi produzido pela humanidade pode ser vendido aqui — e o que não foi produzido também. Já apareceu um meteorito que alguém tinha na coleção ou que encontrou no quintal e resolveu vender. Além de ferramentas pré-históricas, quadros de pintores famosos e colheitas de jabuticaba do quintal, e muito mais.
Além de autos e imóveis, o que é mais vendido na OLX? Há dois perfis de busca. O primeiro é de produtos com vida útil longa e preço novo elevado, como celulares, computadores e eletrodomésticos. A pessoa espera dois anos para comprar a geração anterior de um celular pela metade ou um terço do preço. O segundo perfil é de quem busca produtos que não existem mais no varejo convencional: móveis de fazenda, peças de estilo colonial, itens de colecionador. A OLX é o lugar de garimpar aquilo que você não vai achar em nenhuma loja.
“Cada um de nós tem 4 000 reais, em média, em produtos parados em casa que não usamos mais”
Como a inteligência artificial está sendo usada nas plataformas do grupo? Olhamos para a IA com o mesmo tipo de atenção que demos à chegada da internet. Pode ser uma mudança de paradigma completa para a nossa indústria. A OLX tem 400 engenheiros e a IA é mais uma ferramenta poderosa para eles explorarem. Temos duas frentes principais. A primeira é a da descoberta de conteúdo: assim como a internet mudou a porta de entrada para os classificados — do jornal para o buscador —, as ferramentas de IA generativa podem mudar essa porta de entrada de novo. Precisamos garantir que nossa oferta seja visível e relevante nesse novo ecossistema. A segunda frente é a qualificação do contato entre usuário e cliente — seja respondendo a perguntas quando o corretor não está conectado, por exemplo, seja ajudando a escrever um anúncio.
Como os dados gerados pela plataforma ajudam os vendedores? Com 6 milhões de imóveis anunciados, conseguimos ver a evolução do preço do metro quadrado em regiões específicas, identificar quais cidades têm tendência de alta ou de baixa, entender qual tipo de imóvel tem maior demanda. Tudo isso vira um relatório que publicamos anualmente e colocamos à disposição de corretores e incorporadoras. Também mostramos como os anúncios estão performando em relação a produtos similares na plataforma. Se o preço está acima da média, o sistema avisa. Se o texto ou as fotos estão aquém, o sistema sugere ajustes.
Quais são os maiores riscos do negócio? A base de qualquer marketplace é a confiança. Combatemos tentativas de golpes em duas frentes. A primeira é explicar aos usuários como eles funcionam, para não caírem naquela situação. A segunda é a tecnologia: usamos biometria para verificar a identidade no momento do cadastro e do fechamento de compras de alto valor. E estamos implementando um sistema de reputação, em que usuários avaliam uns aos outros após cada transação, como acontece no Uber.
Qual é sua ambição daqui para a frente? O propósito continua o mesmo: usar a tecnologia para facilitar a vida do consumidor brasileiro nos momentos mais importantes — comprar uma casa, comprar um carro. A segunda missão é promover a economia circular e o consumo sustentável. E a terceira é crescer em cima da base sólida que construímos: 1,2 bilhão de reais de receita, liderança em imóveis, em autos e em produtos usados. A partir daí, queremos oferecer mais serviços — de financiamento, de conexão com o mercado primário de lançamentos imobiliários, de parceria com montadoras para além do mercado de seminovos. Esse é o horizonte.
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28






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