Avanço dos robôs ameaça milhões de empregos precários na China
Fundador da JD.com afirma que entregadores serão substituídos por máquinas; governo tenta conter preocupação com mercado
O fundador da gigante chinesa de comércio eletrônico JD.com afirmou que os cerca de 700 mil entregadores da empresa deverão ser substituídos por robôs no futuro, em um sinal de como a rápida automação da economia chinesa começa a pressionar um dos principais refúgios de emprego para trabalhadores de baixa qualificação.
Richard Liu, presidente do grupo, disse durante um fórum empresarial realizado em Shenzhen que as entregas automatizadas são inevitáveis e que a empresa já começou a preparar seus funcionários para a transição.
Segundo ele, a JD.com firmou acordos com mais de uma centena de escolas para treinar entregadores em atividades como manutenção e reparo de robôs.
A declaração ocorre em um momento de crescente preocupação das autoridades chinesas com os efeitos da automação sobre o mercado de trabalho.
A combinação entre avanço da inteligência artificial, disseminação de robôs industriais e desaceleração econômica tem levantado dúvidas sobre a capacidade do país de gerar empregos suficientes para absorver milhões de trabalhadores.
Economia de aplicativos virou amortecedor social
Nos últimos anos, a chamada economia de plataformas se transformou em uma importante válvula de escape para o mercado de trabalho chinês.
Entregadores, motoristas de aplicativos e trabalhadores temporários passaram a ocupar um espaço cada vez maior na economia urbana.
Dados do Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego da China indicam que o número de trabalhadores informais ou temporários deve alcançar 320 milhões neste ano, ante cerca de 200 milhões cinco anos atrás.
O contingente representa aproximadamente 40% da força de trabalho urbana do país.
O crescimento acelerado desse segmento ajudou a absorver parte dos trabalhadores afetados pela desaceleração do setor imobiliário, pela crise na construção civil e pelas dificuldades enfrentadas por pequenas empresas após a pandemia.
Robôs avançam dos galpões para as ruas
A China já lidera a adoção de robôs industriais no mundo, mas a nova fronteira da automação está nos serviços. Empresas chinesas vêm testando robôs capazes de realizar entregas em aeroportos, escritórios, centros comerciais e estações de transporte público.
Em Shenzhen, considerada o principal polo tecnológico do país, projetos-piloto já utilizam equipamentos autônomos para distribuir refeições a passageiros em terminais aeroportuários e reabastecer lojas de conveniência utilizando metrôs urbanos.
A estratégia faz parte de uma política mais ampla de Pequim para fortalecer setores considerados estratégicos.
O plano quinquenal aprovado neste ano colocou a robótica entre as prioridades nacionais, com o objetivo de combinar inteligência artificial e automação física para aumentar a produtividade da economia.
Pressão cresce sobre empregos de baixa qualificação
Especialistas avaliam que os trabalhadores mais vulneráveis tendem a ser os primeiros afetados pela expansão da automação.
Enquanto robôs assumem tarefas repetitivas de transporte e logística, ferramentas de inteligência artificial começam a executar atividades administrativas, atendimento ao cliente e funções tradicionalmente desempenhadas por profissionais de escritório.
O desafio se torna ainda mais relevante diante do desemprego entre jovens. Dados oficiais mostram que a taxa de desocupação entre chineses em início de carreira permanece elevada, refletindo a dificuldade de absorver novos trabalhadores em uma economia que cresce em ritmo mais lento do que nas décadas anteriores.
Para minimizar os impactos sociais, o governo vem discutindo formas de ampliar a proteção trabalhista para entregadores, motoristas de aplicativos e outros profissionais da economia de plataformas.
Autoridades também defendem a criação de novas ocupações ligadas à inteligência artificial, drones e manutenção de sistemas automatizados.
China se torna laboratório da transição tecnológica
As declarações do presidente da JD.com ilustram um debate que começa a ganhar força muito além da China: se a inteligência artificial e a robótica criarão empregos em velocidade suficiente para compensar aqueles que tendem a desaparecer.
Para Pequim, a questão tem peso especial.
O país aposta na automação para sustentar o crescimento econômico diante do envelhecimento populacional e da redução da força de trabalho.
Ao mesmo tempo, precisa evitar que a substituição acelerada de trabalhadores por máquinas aprofunde um problema que já preocupa as autoridades: a falta de oportunidades para milhões de pessoas que dependem de empregos informais para sobreviver.







