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Bets avançam e pioram a vida até de quem ganha mais, mostra pesquisa da CNC

Estudo da Confederação Nacional do Comércio sugere novos perfis para endividamento

Por Veruska Costa Donato 28 abr 2026, 14h05 | Atualizado em 28 abr 2026, 14h23

As apostas on-line deixaram de ser apenas um hábito de lazer para se transformar em um problema crescente no orçamento, e os homens são os maiores apostadores. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgado nesta terça-feira, 28, que analisou o período entre janeiro de 2023 e março de 2026, aponta que a explosão dos gastos com as bets — que saltaram de quase zero para mais de 30 bilhões de reais por mês — teve impacto direto no aumento da inadimplência e no agravamento da dificuldade de pagamento de dívidas.

Famílias sem condições de pagar

O dado mais preocupante aparece no indicador de “famílias sem condições de pagar”, considerado o mais afetado e robusto de toda a pesquisa. O coeficiente de 0,122 aponta um aumento de 12,2 pontos percentuais na probabilidade de uma família entrar nesse estágio por causa das bets. É o chamado “efeito puro”: comparando quem aposta com quem não aposta, o estudo conclui que as plataformas são um fator direto de empobrecimento financeiro.

Tempo médio de pagamento das contas

Outro dado forte está no tempo médio de atraso das contas, com coeficiente de 0,456. Traduzindo: houve um avanço de quase 45% no tempo em que boletos e compromissos financeiros ficam parados antes do pagamento já que os recursos foram investidos nas apostas on line.

Homens apostadores

Os homens aparecem como o grupo mais vulnerável, com aumento expressivo no endividamento total, na inadimplência severa e no atraso de pagamentos. Já entre as mulheres, o coeficiente de -0,300 indica uma redução de 30% no impacto das dívidas em atraso em comparação com os homens. O dado sugere um comportamento mais cauteloso ou uma menor exposição direta ao problema, reforçando uma diferença clara de perfil entre gêneros dentro desse mercado.

Famílias mais afetadas e os perfis mais vulneráveis

As famílias de baixa renda, especialmente aquelas com renda de até cinco salários mínimos, também aparecem entre as mais afetadas. Nesses casos, o aumento ocorre tanto no endividamento quanto na incapacidade de pagar dívidas já existentes. Mas o estudo quebra um mito comum: não são apenas os jovens os mais afetados. Pessoas com 35 anos ou mais mostraram maior vulnerabilidade. Nesse caso, a explicação passa pelo maior acesso digital e pela bancarização, que facilitam a entrada nas plataformas e aumentam a exposição ao risco.

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Apostadores estudaram mais

Outro ponto que surpreende está entre os mais escolarizados. Famílias com ensino médio completo ou nível superior apresentaram alta significativa em todos os indicadores analisados. A explicação sugerida pelo estudo passa pelo maior acesso digital e pela bancarização, fatores que facilitam a entrada nessas plataformas e ampliam a exposição ao risco financeiro.

Famílias que ganham mais atrasam contas para apostar

Entre as famílias de alta renda, com mais de 10 salários mínimos, o comportamento é diferente e mais silencioso. O coeficiente de -0,305 mostra uma queda de 30,5% na contratação de novos empréstimos e no total de endividados. À primeira vista parece positivo, mas o estudo alerta para o chamado “efeito de substituição”: essas famílias deixam de recorrer ao crédito formal porque usam o próprio dinheiro disponível para apostar.

“Despoupar”

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Em vez de financiar, passam a “despoupar”, atrasando contas e aumentando a inadimplência severa. O resultado é o mesmo: deterioração financeira. Mesmo em um cenário de melhora da inflação e do emprego, as bets seguem corroendo o caixa das famílias e reforçam a urgência de medidas de proteção ao consumidor, regulação da publicidade e educação financeira.

Metodologia da pesquisa

A pesquisa utilizou a metodologia de Diferenças em Diferenças (DiD), justamente para separar o impacto real das apostas do comportamento normal da economia. A análise utiliza dados mensais da PEIC (pesquisa mensal de endividamento) da Confederação do comércio cobrindo o período de maio de 2021 a março de 2026. As variáveis dependentes analisadas são: Total de Famílias Endividadas; Famílias com Contas em Atraso; Famílias sem Condições de Pagar e Tempo Médio de Atraso em Dias.

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