BradSaúde estreia na bolsa para provar força do modelo integrado
Empresa reúne ativos do Bradesco na área médica e aposta em escala e eficiência para destravar valor no setor.
Na teleconferência realizada no fim de fevereiro para anunciar a criação da BradSaúde, o caráter “irreplicável” da companhia foi mencionado quatro vezes por Carlos Marinelli, seu executivo-chefe, para ressaltar tanto o ineditismo quanto o porte do empreendimento. Desenhada para reunir todos os negócios de saúde do Bradesco, a empresa já nasce com faturamento de 52 bilhões de reais, lucro de quase 4 bilhões e fatias relevantes de mercado nos setores em que atuará. Seus planos de saúde e odontológicos alcançam respectivamente 3,9 milhões e 9,3 milhões de beneficiários e asseguram a liderança em faturamento nessas áreas. Além disso, a BradSaúde contará com 40 000 corretores em sua força de vendas, somada à capilaridade do Bradesco para ampliar sua clientela. “Esse ecossistema não só já nasce grande e irreplicável, como também terá poder de atração de outros negócios para se tornar maior ainda”, afirmou Marinelli aos analistas. Procurada por VEJA NEGÓCIOS, a empresa preferiu não se manifestar para cumprir o período de silêncio que antecede sua estreia na B3, prevista para 30 de abril. Para os especialistas, o toque simbólico da campainha iniciará formalmente o teste das virtudes e dos desafios da empreitada.
Para ter seus papéis negociados na bolsa, a BradSaúde recorreu ao chamado “IPO reverso”. Cada vez mais comum, a operação envolve a compra de uma empresa já listada na B3 por outra de capital fechado que, em seguida, assume o direito da nova controlada de negociar ações no mercado. Antes de ser abatida pela Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal no ano passado, a Reag Investimentos liderou um caso emblemático de IPO reverso: a compra, em janeiro de 2025, da GetNinjas, então uma plataforma de serviços domésticos, posteriormente rebatizada de Ciabrasf. No caso da BradSaúde, a operação foi montada sobre a base acionária da operadora de planos odontológicos Odontoprev, listada na bolsa desde 2006 e da qual o Bradesco já detinha uma fatia de 54%. O código de negociação dos papéis passará a ser SAUD3. A nova empresa reunirá ainda as participações do banco na operadora de planos de saúde Bradesco Saúde, na Atlântica Hospitais, que conta com mais de 3 600 leitos das redes São Luiz e D’Or, no Grupo Fleury, líder em medicina diagnóstica, na rede de clínicas Meu Doutor Novamed e na empresa de tecnologia voltada à área de saúde Orizon. “Essa junção tende a melhorar a eficiência operacional e a fortalecer a posição competitiva da BradSaúde, apoiada pela maior escala e pela integração dos negócios”, afirma Daniel Girola, analista sênior da agência de classificação de risco Moody’s.
Os ganhos de eficiência operacional devem vir da centralização dos processos de prestação de serviços de saúde. Atualmente, o modelo fragmentado faz com que a Bradesco Saúde pague clínicas e hospitais pelos atendimentos de seus clientes, sem acesso pleno a informações cruciais, como prontuários e seu histórico médico. Com a incorporação de redes hospitalares e de diagnóstico, a nova estrutura permitirá acesso mais amplo a esses dados, viabilizando medidas preventivas e maior controle sobre os custos assistenciais, por exemplo. Além disso, as despesas administrativas tendem a diminuir com a redução de cargos e níveis hierárquicos. Os analistas estimam que a integração reduzirá os gastos de 30% a 50%. Trata-se de uma economia relevante, quando se lembra que a companhia vai atuar em um setor pressionado por uma inflação que se mantém acima da média do país nos últimos anos. “A inflação médica é a principal dificuldade”, afirma Luciana Faluba, professora da Fundação Dom Cabral.
Cortar despesas é uma parte da missão da BradSaúde. A outra é gerar novas receitas. Para tanto, Marinelli destaca que um eixo estratégico é a ampliação da oferta cruzada de produtos. Os clientes de planos de saúde poderão contratar serviços odontológicos e vice-versa, por exemplo. “Isso pode adicionar até 18 milhões de novos contratos à nossa base”, afirmou na teleconferência. Em um país onde a população é beneficiada, sobretudo, por planos de saúde corporativos, uma frente que merecerá atenção é a oferta de apólices para pequenas e médias empresas. “As PMEs são uma força motriz do setor de saúde”, acrescentou. Os especialistas tendem a concordar e projetam uma expansão relevante, já que o mercado endereçável — aquele em que a BradSaúde é realmente competitiva, seja pelas características dos produtos e serviços, seja por questões geográficas e de preços — soma 435 bilhões de reais. A base de clientes em saúde pode alcançar 12 milhões de beneficiários em oito anos. “Isso pode vir da redução de custos, que tende a gerar um ciclo virtuoso, com a queda de preços e a atração de novos clientes”, diz Carlos Lobbe, gestor hospitalar e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Em se tratando de uma companhia controlada por um banco, há outro resultado que se espera da BradSaúde — a geração de valor para os acionistas. Atualmente, a Odontoprev, que deve ceder seu lugar na B3 à nova empresa por meio do IPO reverso, é avaliada em cerca de 9 bilhões de reais. Marcelo Noronha, presidente do Bradesco, estima que, em sua nova roupagem, a companhia valerá até 50 bilhões de reais a mais. O BTG Pactual tem uma conta semelhante e estima que a operação assuma um valor implícito de 56 bilhões de reais para a BradSaúde. A área de saúde responderia por cerca de 49 bilhões desse total, enquanto os 7 bilhões restantes estariam ligados à odontologia e a outros negócios. Para o banco, esses fatores indicam que a reorganização é uma estratégia acertada para destravar valor. “A BradSaúde emergirá como uma plataforma de saúde grande, bem capitalizada, altamente lucrativa e estrategicamente diversificada”, afirma Samuel Alves, analista do BTG Pactual.
Além dos potenciais ganhos para os acionistas, a criação da BradSaúde reforça uma tendência mais ampla de consolidação do setor. Nos últimos anos, movimentos como a combinação dos negócios da SulAmérica com a Rede D’Or e a fusão entre a Hapvida e a Intermédica redesenharam o mercado. O consenso é de que o setor caminha para a concentração em torno de grandes grupos, já que o ganho de escala é fundamental para lidar com a alta sinistralidade, isto é, as ocasiões em que os beneficiários acionam seus planos para consultas, exames e tratamentos, gerando despesas para as operadoras.
O descompasso entre essas obrigações, o aumento de custos e as dificuldades para captar novos clientes têm levado muitas empresas a sair do ramo. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de operadoras caiu significativamente na última década. De dezembro de 2016 a fevereiro de 2026, o total recuou 39%, passando de 1 095 para 668 companhias. Mesmo as que permanecem no mercado enfrentam dificuldades. Segundo Lobbe, da FGV, atualmente cerca de 20% das empresas estão no vermelho. “Esse é, provavelmente, o grupo que tende a desaparecer nos próximos anos”, diz. “Nenhuma empresa consegue sobreviver por muito tempo acumulando prejuízos.” Por isso, Lobbe estima que, nesse ritmo, o Brasil chegará a 2030 com pouco mais de 500 operadoras de saúde.
Como os problemas do setor são estruturais, as grandes fusões são vistas pelos especialistas como uma estratégia que ainda precisa se provar no longo prazo. O histórico recente reforça a cautela. No caso da Hapvida, principal concorrente da BradSaúde, a união com a Intermédica enfrentou dificuldades e gerou atritos entre acionistas. A gestora Squadra criticou a alocação de capital da companhia após a operação e afirmou que decisões equivocadas contribuíram para uma queda superior a 80% no valor das ações. Os desarranjos levaram a Hapvida a encerrar 2025 com dívida líquida de 5,2 bilhões de reais, 14% maior que a do ano anterior, fruto sobretudo da queda de 12% no caixa disponível. Por isso, a Squadra defende mudanças na condução do negócio e a venda dos hospitais que eram da Intermédica.
Os tropeços da concorrência devem servir de alerta à direção da BradSaúde. “Mesmo que a fusão seja positiva e gere valor, ainda restam os riscos de execução e os desafios setoriais”, diz Caroline Sanchez, da casa de análises Levante. “A área de saúde já mostrou casos em que a integração fracassou.” O ponto de partida pode ser favorável, mas as boas práticas médicas recomendam que a BradSaúde realize check-ups periódicos para evitar surpresas que ponham em risco seus planos.
Publicado em VEJA, abril de 2026, edição VEJA Negócios nº 25









