Carta ao Leitor: Entrevistas históricas
Como 'Páginas Amarelas' se tornou o espaço mais respeitado e influente de entrevistas da imprensa brasileira
A edição de VEJA de 4 de junho de 1969 trazia pela primeira vez em sua abertura as Páginas Amarelas. Nelson Rodrigues foi o nome escolhido para a estreia, e a conversa com o escritor começou com o jornalista Luiz Fernando Mercadante perguntando ao dramaturgo quem era Nelson Rodrigues. Ele deu uma resposta bem a seu estilo, na forma de uma autodefinição irônica e hiperbólica: “Eu sou um pierrô, sou um romântico. Mas o romântico piegas. Não o romântico de grande estilo, o wagneriano”. O título escolhido (“Eu sou um ex-covarde”) foi retirado de uma das muitas frases geniais e provocadoras ditas por ele durante a conversa. A seção tornou-se um caso de sucesso imediato. Ao longo dos anos, a novidade acabou se perpetuando a ponto de virar o espaço mais respeitado e influente de entrevistas da imprensa brasileira.
Quase 3 000 personagens passaram pela seção, entre políticos, escritores, economistas, empresários e artistas das mais variadas áreas, sempre com grande repercussão. Alguns entrevistados, dada sua relevância em diferentes períodos da história, acabaram sendo retratados por mais de uma vez nas Páginas Amarelas, a exemplo de Pelé e do ex-ministro Delfim Netto. O campeão foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com onze aparições, sendo a primeira delas em 1983, mais de uma década antes de o então senador iniciar sua campanha vitoriosa ao Palácio do Planalto. A entrevista desta edição traz o economista e ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, que vem a ser justamente o segundo nome com maior frequência nas Páginas Amarelas. Somada à atual, são nove aparições desde a primeira, em 1999, com um detalhe exclusivo nessa trajetória: foi o único personagem da seção que um dia fez o papel de jornalista. Isso ocorreu quando ele entrevistou, em 2021, Angus Deaton, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2015.
A ideia de ter na abertura da revista sempre uma grande entrevista foi de Roberto Civita, o criador de VEJA, e a escolha do amarelo como marca registrada dessas páginas foi obra do acaso. Decidiu-se na época que a novidade merecia um tratamento diferente do restante da edição semanal. Consultada para viabilizar a missão, a gráfica da Editora Abril informou que havia por lá um estoque de papel dessa cor, que acabou sendo escolhido para a tarefa. O sucesso da empreitada garantiu para sempre a manutenção da fórmula. Em setembro de 2021, a seção ganhou uma versão em vídeo, batizada de Amarelas On Air. O primeiro entrevistado foi o ex-presidente Michel Temer, que pregou a necessidade no Brasil de maior harmonia entre os Poderes. Os programas semanais podem ser conferidos hoje no canal VEJA+ TV, disponível no portal de VEJA, no sistema de TV conectada (Samsung TV Plus, LG Channels e TCL Channel) e nas plataformas Roku e NxTV.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






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