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ETFs superam R$ 100 bi e avançam com híbridos e temáticos no Brasil

Fundos negociados em bolsa atraem pessoas físicas, ampliam oferta e reforçam tendência de expansão acelerada do mercado até o fim da década

Por Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 abr 2026, 08h00

Os ETFs, termo em inglês que designa os fundos de investimento negociados em bolsa, atraem cada vez mais os brasileiros. O patrimônio total de tais fundos encerrou 2025 em 90 bilhões de reais. A cifra representa um crescimento de 68% sobre o ano anterior e o ritmo de expansão continua forte nos primeiros meses de 2026. Em março, por exemplo, os ETFs romperam a marca simbólica dos 100 bilhões de reais e acumularam um patrimônio de 107 bilhões. É verdade que os grandes investidores institucionais, como os fundos de pensão, ainda formam a maior clientela desse mercado, mas a participação das pessoas físicas está crescendo e já representa quase 30% dos recursos alocados. Cerca de 1 milhão de indivíduos cadastrados na B3, a bolsa brasileira, investem em ETFs, estimulados por vantagens que vão desde a praticidade oferecida por esses papéis para diluir os riscos em momentos de elevada incerteza, como o atual, até os menores custos de transação, quando comparados com os fundos de investimento tradicionais. Com quase 190 ETFs listados na bolsa e embaladas pelo maior interesse dos investidores, as gestoras têm diversificado o cardápio nos últimos meses, apostando nos fundos híbridos e nos temáticos.

Federal Reserve: ETFs híbridos combinam os títulos da dívida dos Estados Unidos com papéis do Brasil
Federal Reserve: ETFs híbridos combinam os títulos da dívida dos Estados Unidos com papéis do Brasil (YinYang/Getty Images)

Para entender o que essas apostas representam, é preciso lembrar que, desde que surgiram, nos Estados Unidos, na década de 1980, os ETFs passaram a ser chamados também de “fundos de índices”, dado o seu objetivo de replicar o comportamento de um índice de referência de determinado mercado, como o Dow Jones, da bolsa de Nova York. Para os investidores, a vantagem é clara: em vez de se dar ao trabalho de comprar todas as ações que compõem um índice para tentar lucrar com a sua alta — o Ibovespa, principal representação da B3, por exemplo, é composto atualmente de 85 papéis —, basta adquirir uma cota do fundo que o espelha. Cabe à gestora responsável pelo ETF a missão de comprar tais ações nas proporções prescritas no índice. Tal comodidade é um dos grandes trunfos desse tipo de investimento e atende às necessidades de quem dispõe de pouco tempo para cuidar de seu patrimônio. “Vemos uma demanda crescente por produtos financeiros mais simples, com acesso direto ao mercado e de fácil compreensão”, afirma Bianca Maria, gerente de produtos da B3. Segundo ela, a popularização dos ETFs ajuda também a formar novos investidores ao atrair um público mais jovem. “Esses fundos atuam como uma porta de entrada para quem nunca investiu.”

Como os ETFs tradicionais se limitam a espelhar um índice de mercado, são considerados fundos passivos, ainda que haja um trabalho constante do gestor de manter a carteira alinhada à referência. O mesmo ocorre com os ETFs de renda fixa, que se guiam por parâmetros como o IMA-B, índice composto de títulos públicos indexados à inflação, e o IDA, formado por debêntures de empresas privadas. Mas, assim como ocorreu em países onde o mercado já está mais desenvolvido, a crescente demanda pelos fundos de índices tem incentivado as gestoras a se diferenciarem. Para tanto, um caminho é romper a rígida separação entre a renda fixa e a renda variável e lançar os chamados ETFs híbridos, compostos de ativos de ambas as classes.

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É o caso do It Now S&P 500 IMA-B, lançado há um ano pela gestora Itaú Asset e conhecido como o primeiro ETF híbrido do Brasil. Cerca de 80% de sua carteira reproduz o IMA-B, um indicador formado por títulos públicos atrelados à inflação. O restante espelha o S&P 500, um dos principais índices de ações da bolsa de Nova York. “Combinamos a proteção contra a inflação com a exposição ao exterior”, diz Renato Eid, superintendente de estratégias indexadas da Itaú Asset. Ao misturar a renda fixa local com a renda variável americana, o objetivo é buscar ativos com uma “correlação negativa”, isto é, que andam em sentidos opostos — quando um sobe, o outro cai. Isso serviria como uma “proteção natural” para o investidor, segundo Eid.

Em algumas situações, contudo, os envolvidos na estruturação de ETFs híbridos precisam dar um passo atrás com o objetivo de criar o próprio indicador que servirá de referência para o produto. Para lançar o Nu iBoxx Investment Grade Hedge Carry BRL, por exemplo, a Nu Asset, gestora do Nubank, solicitou à agência de classificação de risco S&P Global que desenvolvesse um índice formado pela variação diária do CDI e pela remuneração oferecida por títulos de dívida de empresas americanas que ostentam o grau de investimento — o selo que distingue os bons pagadores. Por último, o indicador deveria expurgar variações cambiais. Lançado no fim do ano passado, o produto já reúne mais de 2 000 cotistas e um patrimônio de quase 16 milhões de reais. “O resultado é um fundo que se aproxima da renda fixa brasileira, mas cujo risco é ainda menor”, diz Andrés Kikuchi, executivo-chefe da Nu Asset.

Plantação de Cannabis: vários setores alternativos compõem fundos no exterior
Plantação de Cannabis: vários setores alternativos compõem fundos no exterior (Morsa Images/Getty Images)
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Outra frente em expansão no Brasil é a dos fundos temáticos, que se dedicam a explorar um determinado segmento do mercado. Os mais conhecidos são os ETFs atrelados a metais preciosos, vistos pelos investidores como uma proteção contra as incertezas globais que exasperam até os gestores mais experientes, como as causadas pelo impasse da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Há tanto opções de produtos desenvolvidos por gestoras brasileiras, como GOLD11, ETF lastreado em ouro e gerido pela XP Asset, quanto de fundos estrangeiros. Nesse caso, é possível investir via Brazilian Depositary Receipts (BDRs). Um exemplo é o BIAU39, um BDR que representa um ETF negociado na bolsa de Nova York e que acompanha a cotação do ouro no mercado à vista.

Dólar: os ETFs que investem em ativos americanos procuram neutralizar o efeito do câmbio
Dólar: os ETFs que investem em ativos americanos procuram neutralizar o efeito do câmbio (Jackal Pan/Getty Images)

Quando se consideram os mais de 100 BDRs de ETFs listados na B3, o leque de fundos temáticos se amplia muito. É possível investir em setores como os de jogos eletrônicos, inteligência artificial e carros elétricos e autônomos. Em países mais adiantados, as opções são as mais criativas possíveis, como os ETFs focados na indústria de Cannabis. Com isso, o investidor corre o risco de embarcar em um ETF por puro modismo — e amargar um grande prejuízo no fim. “Um setor pode estar em evidência, mas isso não garante resultados positivos”, diz Luiz Arthur Hotz Fioreze, diretor de portfólio da gestora Oryx Capital. “A realidade sempre se impõe.”

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Algo que poucos ousam contestar, no entanto, é a expectativa de que a demanda pelos ETFs continuará crescendo, dadas as suas vantagens em relação aos fundos tradicionais. Um recente relatório da consultoria PwC estima que o mercado global de ETFs alcançou 19,5 trilhões de dólares no ano passado, um avanço de 33% sobre 2024. Nesse ritmo, o estudo projeta que alcançará os 35 trilhões de dólares até 2030. Por aqui, os gestores avaliam que o patrimônio sob gestão dos fundos negociados em bolsa cresça em 500 bilhões de reais até o fim desta década. “O Brasil ainda está começando a desenvolver esse mercado”, diz Fioreze, da Oryx. “Há muito potencial para ser explorado.” Os fundos híbridos e os temáticos são apenas uma mostra do que virá.

Publicado em VEJA, abril de 2026, edição VEJA Negócios nº 25

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