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Fed admite alta de juros se inflação continuar resistente, aponta comunicado

Ata da reunião de julho revela divisão no banco central americano; três dirigentes defenderam aumento imediato dos juros

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 ago 2026, 16h40 | Atualizado em 19 ago 2026, 16h42
Fed admite alta de juros se inflação continuar resistente, aponta comunicado Priorizar nos meus resultados Google

O Federal Reserve deixou aberta a possibilidade de voltar a subir os juros nos Estados Unidos caso a inflação continue distante da meta de 2%, segundo a ata da reunião de política monetária realizada em julho e divulgada nesta quarta-feira (19).

O documento mostra que a discussão dentro do banco central americano mudou de tom. Em vez de debater apenas quando e quanto cortar os juros, parte dos dirigentes passou a considerar a necessidade de uma nova alta para evitar que a inflação permaneça elevada por mais tempo.

“Vários participantes avaliaram que um aperto da política monetária provavelmente seria necessário caso a inflação não recuasse”, segundo a ata do encontro de 28 e 29 de julho.

Alguns dirigentes também consideraram que as condições financeiras não estavam suficientemente restritivas para garantir a convergência da inflação para a meta.

Mesmo assim, o Federal Open Market Committee (FOMC), órgão responsável pela definição dos juros, decidiu por 9 votos a 3 manter a taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75%. Os três votos dissidentes foram a favor de uma elevação de 0,25 ponto percentual.

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Foi uma das decisões mais divididas do Fed em um momento em que a política monetária americana enfrenta um dilema: a inflação ainda está acima do objetivo, mas o mercado de trabalho começou a mostrar sinais mais claros de perda de força.

Três dirigentes queriam juros mais altos

Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland; Lorie Logan, de Dallas; e Neel Kashkari, de Minneapolis, defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual.

A justificativa apresentada pelos dissidentes foi preventiva. Segundo a ata, eles consideraram que uma elevação naquele momento poderia evitar a necessidade de um aperto ainda maior no futuro.

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A lógica é conhecida na política monetária: se o banco central esperar até que a inflação esteja claramente fora de controle, poderá precisar elevar os juros de maneira mais agressiva posteriormente, aumentando o risco de provocar uma recessão.

A divisão é relevante porque o Fed havia passado boa parte do ano mantendo os juros estáveis. Agora, a discussão sobre uma alta voltou ao centro do debate.

Inflação continua acima da meta

O principal problema para o Fed é que a inflação americana ainda não voltou aos 2% considerados compatíveis com estabilidade de preços.

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O índice de preços de gastos de consumo pessoal, o PCE, considerado a medida de inflação preferida pelo banco central, acumulou alta de 3,7% em 12 meses até junho. Em maio, a taxa havia sido de 4,1%.

Apesar da desaceleração, o indicador ainda está quase duas vezes acima da meta.

Os dados mais recentes trouxeram algum alívio. O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu apenas 0,1% em julho, depois de registrar queda de 0,4% em junho, segundo o Departamento do Trabalho. O resultado reduziu parte das apostas em uma alta imediata dos juros.

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Mas os dirigentes do Fed ainda veem riscos de pressão sobre os preços.

Petróleo e guerra no Oriente Médio complicam cenário

Um dos fatores que dificultam a tarefa do banco central é o comportamento da energia.

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã provocou interrupções e incertezas no transporte de petróleo e gás, especialmente em torno do Estreito de Ormuz. O petróleo Brent voltou a subir e chegou a níveis próximos de US$ 92 por barril nesta quarta-feira.

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O problema para o Fed é que uma alta do petróleo pode ser transmitida rapidamente para combustíveis, transporte e outros custos empresariais. Se o choque persistir, pode dificultar ainda mais a queda da inflação.

As atas de reuniões anteriores já mostravam preocupação dos dirigentes com o efeito da guerra sobre energia e preços. Em abril, praticamente todos os participantes avaliavam que o conflito poderia prolongar a inflação acima da meta.

Mercado de trabalho começa a preocupar

Ao mesmo tempo em que a inflação continua elevada, o mercado de trabalho americano perdeu força.

A economia eliminou 23 mil postos de trabalho em julho, segundo os dados mais recentes do Departamento do Trabalho. A taxa de desemprego, porém, caiu para 4,1%, principalmente porque houve redução da força de trabalho.

O resultado criou um dilema para o Fed. Elevar os juros ajuda a combater a inflação, mas também encarece o crédito para empresas e consumidores e pode enfraquecer ainda mais a contratação.

Antes dos dados recentes de emprego, os dirigentes vinham demonstrando maior preocupação com a inflação do que com o mercado de trabalho. A deterioração das contratações, porém, aumenta a pressão para que o banco central seja mais cauteloso.

Uma pesquisa da Reuters com economistas realizada entre 12 e 17 de agosto mostrou que a maioria ainda espera que o Fed mantenha os juros entre 3,50% e 3,75% até o fim do ano. A avaliação predominante é que inflação moderada e sinais de enfraquecimento do emprego tornam uma alta em setembro improvável.

Mercado mudou aposta sobre setembro

A leitura dos investidores também mudou nas últimas semanas.

Antes dos dados recentes de inflação e emprego, os contratos futuros indicavam maior probabilidade de uma alta dos juros em setembro. Agora, o mercado passou a apostar que o Fed deve permanecer parado por mais tempo, com uma eventual elevação ficando mais provável para outubro ou dezembro caso a inflação continue resistente.

Isso cria uma divergência importante entre o que parte do mercado espera e o alerta contido na ata.

Os dirigentes não decidiram que os juros serão elevados. O que o documento mostra é que uma alta voltou a ser considerada uma possibilidade real se os preços não desacelerarem.

Juros altos também pressionam os títulos

A discussão ocorre em um momento especialmente delicado para o mercado de títulos americanos.

Os rendimentos dos Treasuries de longo prazo chegaram recentemente aos maiores níveis em quase duas décadas, refletindo preocupações com inflação, oferta de dívida do governo americano e prêmio de risco.

Nesta quarta-feira, porém, as taxas recuaram depois de o Tesouro anunciar que pretende ampliar as recompras de títulos de prazo mais longo.

O Treasury anunciou que pretende dobrar as operações de recompra de títulos de vencimento mais longo entre setembro e novembro. A medida aumentou a liquidez no segmento e ajudou a derrubar os rendimentos dos papéis.

O movimento, no entanto, cria uma questão adicional para o Fed: quanto mais o Tesouro atuar para aliviar as condições financeiras, maior pode ser a necessidade de a política monetária compensar esse efeito caso a inflação continue elevada.

Fed avalia reduzir número de reuniões

A ata também revelou uma discussão menos convencional: a possibilidade de reduzir o número de reuniões do FOMC.

Atualmente, o comitê realiza oito reuniões regulares por ano. O presidente do Fed, Kevin Warsh, levantou a possibilidade de passar para seis encontros, aproximadamente a cada dois meses.

A justificativa seria dar mais tempo para que novos dados econômicos se acumulem entre as reuniões e permitir que dirigentes e técnicos dediquem mais tempo a questões estratégicas de política monetária.

Não houve decisão sobre a mudança, e qualquer alteração não afetaria o calendário de 2026.

Debate sobre o balanço patrimonial

Os dirigentes também discutiram o tamanho e a composição do balanço patrimonial do Fed.

Warsh criou uma força-tarefa para analisar os ativos do banco central e a melhor forma de conduzir a política monetária no futuro. A discussão ganha importância porque o Fed reduziu significativamente seu balanço desde o pico registrado durante a pandemia.

A questão é como combinar o uso dos juros com operações envolvendo os títulos mantidos pelo banco central sem provocar turbulências nos mercados financeiros.

Warsh tem indicado preferência por utilizar a taxa de juros como principal instrumento para controlar a inflação, em vez de depender excessivamente da redução do balanço. O debate ocorre em um momento em que os mercados já enfrentam forte volatilidade nos títulos de longo prazo.

Próximos dados serão decisivos

A ata não define o que o Fed fará em setembro. Ela mostra, porém, que a possibilidade de alta deixou de ser uma hipótese distante.

A decisão dependerá principalmente da combinação entre inflação e emprego. Se os preços continuarem desacelerando, os dirigentes que defendem uma postura mais paciente terão mais argumentos para manter os juros parados. Se a inflação voltar a acelerar, especialmente por causa de energia ou tarifas, a pressão por uma alta aumentará.

O próximo dado importante será o PCE de julho, previsto para 26 de agosto.

O cenário, portanto, é menos favorável a cortes de juros do que parecia no início do ano. Ao mesmo tempo, a fraqueza recente do mercado de trabalho torna uma alta imediata mais arriscada.

Para o Fed, o desafio agora é evitar que a inflação permaneça persistentemente acima de 2% sem provocar uma deterioração maior da economia. As atas de julho mostram que, dentro do banco central, alguns dirigentes já consideram que o risco de fazer pouco contra a inflação pode ser maior do que o risco de apertar demais a economia.

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