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Greve da Caixa trava financiamentos e deixa corretores sem receber comissões

Paralisação afeta análise, assinatura e liberação de crédito imobiliário e pode deixar fila de processos mesmo após retomada

Por Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 set 2026, 16h24 | Atualizado em 28 set 2026, 14h02
Greve da Caixa trava financiamentos e deixa corretores sem receber comissões Priorize VEJA no Google

A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal começa a provocar um efeito em cadeia no mercado imobiliário. Financiamentos que aguardam análise, assinatura ou liberação de recursos ficam represados e impedem que o dinheiro chegue a vendedores e incorporadoras. Na outra ponta, corretores que já concluíram as vendas também podem ficar sem receber suas comissões enquanto a operação não é finalizada.

O problema ocorre porque diferentes etapas do financiamento imobiliário ainda dependem da análise ou validação interna do banco. Entre elas estão a aprovação do crédito, a conferência dos documentos do comprador e do imóvel, análises de conformidade, assinatura do contrato e, depois do registro em cartório, a autorização para que os recursos sejam liberados. “Uma greve não significa necessariamente que 100% do processo fique parado; significa que a capacidade de processamento diminui e começa a haver formação de filas justamente nesses pontos de controle”, explica André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.

José Augusto Viana Neto, presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), afirma que os efeitos já são percebidos pelos profissionais. Segundo ele, o problema não está restrito a São Paulo e também foi relatado por representantes da categoria em outros estados. “Não está sendo feita nenhuma liberação dos recursos de processos que já estavam aprovados. Não tem como dar entrada em novos processos”, afirma. Segundo Viana, há agências em que a adesão de gerentes à paralisação também prejudica o atendimento presencial.

A paralisação também atinge diretamente a remuneração dos corretores. Viana explica que, em uma venda financiada, o pagamento dos honorários ocorre quando o recurso é liberado na conta do vendedor. Sem o processamento pelo banco, o incorporador ou proprietário não recebe o dinheiro e, consequentemente, não consegue fazer o pagamento ao profissional responsável pela intermediação.  “Está sendo realmente uma grande dificuldade, um baque muito forte, porque mexe direto no nosso faturamento”, diz o presidente do Creci-SP.

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Efeito se espalha pela cadeia

O represamento não afeta apenas os corretores. Para Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, o principal problema é a interrupção do fluxo financeiro da operação. O comprador pode ter o imóvel aprovado e ainda assim não conseguir concluir a aquisição, enquanto vendedores e incorporadoras aguardam os valores do financiamento. “O comprador pode ter o imóvel aprovado, mas ainda não consegue concluir a aquisição; o vendedor ou incorporadora deixa de receber os recursos previstos; e os demais agentes envolvidos, como corretores e prestadores ligados ao processo, também podem ter seus pagamentos postergados”, afirma Friggi.

No caso das incorporadoras, o problema pode ganhar escala. Uma empresa pode ter dezenas ou centenas de unidades simultaneamente em fase de repasse. Segundo Caruso, quando essas operações atrasam, há aumento das contas a receber e postergação de recursos que já estavam previstos no caixa.

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Para o comprador, a demora também pode trazer custos adicionais. Além de postergar o recebimento das chaves, o cliente pode precisar continuar pagando aluguel ou atualizar documentos e certidões que vencem enquanto aguarda a conclusão do financiamento. Viana relata que o prazo de validade da documentação é uma das preocupações atuais dos profissionais.

Alguns corretores têm buscado financiamento em outros bancos como alternativa à paralisação. A mudança, porém, não é automática. Segundo Viana, instituições diferentes trabalham com fichas cadastrais, procedimentos e canais de atendimento próprios, o que dificulta a migração de operações que já estavam encaminhadas na Caixa. Até mesmo as negociações de imóveis retomados pela Caixa e comercializados por corretores foram afetadas, segundo o presidente do Creci-SP.

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A paralisação ganha peso especialmente no Minha Casa, Minha Vida pela concentração dos financiamentos habitacionais populares na Caixa. “O Minha Casa, Minha Vida pode sentir impactos relevantes porque a Caixa possui uma participação histórica muito importante no financiamento habitacional popular e concentra uma grande quantidade de operações desse segmento”, explica Friggi.

A possibilidade de simplesmente procurar outro banco também é menor nesse segmento. Em faixas de renda mais altas, o comprador pode ter mais alternativas de financiamento, enquanto no Minha Casa, Minha Vida a dependência da Caixa é maior.

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Fila pode continuar após a greve

O fim da paralisação, no entanto, não deve significar normalização imediata dos financiamentos. Durante a greve, novos pedidos, documentos, contratos e solicitações de liberação continuam chegando enquanto a capacidade de processamento fica reduzida, formando uma fila que precisará ser absorvida posteriormente.

O especialista destaca ainda um efeito em cascata: uma análise concluída gera uma futura assinatura; o contrato assinado precisa ser registrado em cartório; depois, retorna para conferência e só então ocorre a liberação dos recursos. Por isso, os processos represados não chegam às diferentes etapas simultaneamente. “A greve pode acabar em um determinado dia, mas o impacto sobre o mercado imobiliário pode continuar sendo percebido durante algumas semanas até que toda a cadeia volte ao ritmo normal”, afirma Friggi.

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Em nota a Caixa informou que as contratações do crédito imobiliário seguem disponíveis durante o período de greve, com suporte da jornada digital habitacional e da rede de correspondentes parceiros. “A maior parte das etapas da contratação habitacional pode ser realizada de forma digital e remota. Pelo fluxo nato-digital, processo de contratação por meio digital, também disponível na rede parceira, compradores e vendedores podem enviar documentos e assinar formulários e contratos eletronicamente, com certificações digitais reconhecidas. Eventuais situações específicas são avaliadas de acordo com as características e a etapa de cada operação. A instituição adota continuamente medidas para assegurar a prestação dos serviços aos trabalhadores e a manutenção do atendimento aos clientes”, diz a nota.

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