Kinea vê risco de dívida acima de 100% do PIB sem ajuste fiscal do próximo presidente
Gestora calcula que será necessário corrigir as contas públicas em até três pontos do PIB e mexer em despesas obrigatórias
O próximo presidente da República, seja quem for o vencedor das eleições, terá de promover um ajuste fiscal de 2 a 3 pontos percentuais do PIB para colocar as contas públicas numa trajetória sustentável. A avaliação é da Kinea Investimentos, gestora do grupo Itaú, que alerta para a possibilidade de a dívida brasileira ultrapassar 100% do PIB por volta de 2030 caso não haja correção dos desequilíbrios.
Em sua nova carta aos investidores, intitulada A Bela Adormecida, a Kinea sustenta que, pela primeira vez desde a redemocratização, um ajuste dessa dimensão terá de atingir as despesas obrigatórias, como aposentadorias, benefícios sociais e salários do funcionalismo. Dos 2,83 trilhões de reais em despesas primárias previstas para 2027, cerca de 90% já estão comprometidos.
Segundo a gestora, depois de descontadas as emendas parlamentares e outras vinculações orçamentárias, apenas 143 bilhões de reais poderiam ser efetivamente cortados. Mesmo a eliminação integral desse montante não seria suficiente para realizar metade do ajuste necessário.
Entre as medidas discutidas pela Kinea estão a revisão das regras de reajuste do salário mínimo, que influencia diretamente despesas previdenciárias e assistenciais, a alteração de vinculações orçamentárias e a redução de benefícios tributários.
A gestora traça três cenários. No mais favorável, o próximo governo aprova reformas em 2027, o superávit primário alcança 2% do PIB em 2029 e os juros reais dos títulos públicos longos recuam para perto de 5,5%. A dívida se estabilizaria ao redor de 90% do PIB.
Num cenário intermediário, com ajustes limitados a receitas e cortes temporários, a dívida ultrapassaria 100% do PIB no início da próxima década. Na hipótese de ausência de ajuste, essa marca poderia ser atingida por volta de 2030, acompanhada de juros elevados e deterioração das expectativas.
A conclusão da Kinea é que o próximo governo terá uma janela política curta, entre janeiro de 2027 e meados de 2028, para aprovar medidas capazes de recuperar a confiança na trajetória das contas públicas.






