Mercado perde a paciência com Milei e risco-país dispara na Argentina
Indicador supera 500 pontos pela primeira vez desde maio, enquanto títulos argentinos caem
Por Ernesto Neves
A percepção de risco sobre a Argentina voltou a piorar.
O risco-país, indicador calculado pelo banco JPMorgan que mede o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo argentino em comparação com os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, ultrapassou novamente os 500 pontos nesta terça-feira (18).
O índice chegou a 506 pontos, alta de cerca de 3,5% no dia e maior nível desde o fim de maio. A deterioração veio acompanhada de novas quedas dos títulos da dívida argentina negociados em dólar e de pressão sobre as ações de empresas do país.
O movimento representa uma reversão parcial da melhora observada no primeiro semestre. Em julho, o risco-país havia chegado a aproximadamente 402 pontos, menor nível durante o governo de Javier Milei até então.
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Por que o risco-país voltou a subir
Há uma combinação de fatores externos e domésticos por trás da piora.
No exterior, os investidores passaram a exigir retornos maiores dos títulos de longo prazo de grandes economias, movimento que reduz a atratividade de ativos considerados mais arriscados, como a dívida argentina. O ambiente internacional mais difícil ocorre justamente quando o mercado começa a reduzir posições em países emergentes.
Mas o movimento argentino não pode ser explicado apenas pelo cenário internacional.
O mercado também passou a demonstrar maior cautela com a atividade econômica do país, a inflação, o comportamento das reservas e o cenário político. A proximidade das eleições e as dúvidas sobre a condução da política monetária e cambial aumentaram a incerteza entre investidores.
Essa combinação ajuda a explicar por que os ativos argentinos vêm sofrendo mais do que alguns mercados emergentes.
Por que os títulos argentinos são tão afetados
Um dos fatores que ajudam a entender a intensidade das quedas é a própria liquidez da dívida argentina.
Os títulos soberanos em dólar estão entre os papéis mais negociados da Argentina. Quando grandes fundos precisam levantar dinheiro rapidamente ou reduzir sua exposição a ativos de risco, esses papéis podem ser vendidos com relativa facilidade.
Isso cria uma situação paradoxal: a liquidez que torna os títulos atraentes em períodos de bonança também pode acelerar as vendas quando o mercado fica mais avesso ao risco.
A queda dos preços dos títulos aumenta o retorno exigido pelos investidores e, consequentemente, eleva o risco-país.
Bolsa também sente a pressão
A deterioração não ficou restrita à dívida pública.
O S&P Merval, principal índice da Bolsa de Buenos Aires, operava em queda de cerca de 1,3% nesta terça-feira. As ações de bancos estavam entre as mais pressionadas no mercado local.
Em Nova York, os chamados ADRs, recibos que representam ações argentinas negociadas nos Estados Unidos, também registravam perdas. Entre os papéis pressionados estavam os de BBVA, YPF e Banco Macro.
O movimento ocorre em um momento de maior cautela global com ativos de risco, o que torna as empresas argentinas ainda mais sensíveis às mudanças de humor dos investidores.
Dólar continua perto dos 1.500 pesos
Apesar da piora no mercado de ações e da alta do risco-país, o câmbio argentino apresenta comportamento diferente.
O dólar oficial no mercado atacadista permanece próximo da marca de 1.500 pesos, que passou a funcionar como uma referência importante para o mercado.
Na terça-feira, a cotação atacadista chegou a aproximadamente 1.495 pesos por dólar, enquanto o dólar oficial vendido ao público terminou próximo de 1.515 pesos. As cotações financeiras também subiram.
A manutenção do dólar em torno desse nível contrasta com a deterioração dos preços dos títulos. Na prática, o governo argentino vem enfrentando um dilema: preservar a estabilidade cambial em um momento de maior pressão sobre os ativos pode exigir juros elevados e condições financeiras mais apertadas.
O que o mercado está dizendo sobre a Argentina
A mudança de humor é relevante porque a Argentina havia sido uma das histórias de maior recuperação entre os mercados emergentes durante a primeira metade do ano.
A queda do risco-país havia refletido a percepção de melhora das contas públicas e das condições de financiamento do país. Agora, parte desse movimento começa a ser devolvida.
O risco-país de 506 pontos, portanto, não significa que a Argentina tenha voltado aos níveis de estresse observados antes do programa de estabilização de Milei. Mas mostra que a melhora da percepção de crédito deixou de ser uma trajetória linear.
Para o governo, o desafio é manter a confiança dos investidores enquanto enfrenta um ambiente externo menos favorável e uma agenda econômica e política cada vez mais sensível.







