MRV quer reduzir custos de construção em até 20% com modelo industrial
Construtora aposta em padronização, tecnologia e processos inspirados na indústria automobilística para acelerar obras
Construir apartamentos como se fossem carros em uma linha de montagem. Essa é a lógica que a MRV, uma das maiores construtoras residenciais do Brasil, pretende incorporar à sua operação para reduzir custos e acelerar a entrega de moradias. A companhia está reformulando projetos, centralizando compras e reorganizando o trabalho nos canteiros, em uma estratégia que busca aproximar a construção civil dos processos utilizados pela indústria.
A transformação também envolve uma discussão sobre as regras de construção no país. Segundo Ronaldo Motta, vice-presidente de Produção da MRV, uma legislação mais padronizada para habitações de interesse social poderia reduzir entre 15% e 20% os custos de produção dos imóveis. A estimativa, porém, está condicionada à adoção de regras que permitam repetir soluções construtivas em diferentes municípios.
A iniciativa ocorre em um setor que ainda depende fortemente de processos manuais. Apesar dos avanços tecnológicos, a construção residencial brasileira continua utilizando métodos semelhantes aos de décadas atrás, o que dificulta ganhos expressivos de produtividade. “Se você visitar uma obra hoje, vai ter a sensação de que ela é muito parecida com uma obra que pode ter visitado há cinco ou dez anos”, afirma Motta, em entrevista à VEJA.
Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostram que a industrialização começa a ganhar espaço. O Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC) passou de 14,8 pontos, em 2025, para 15,7 pontos em 2026. No segmento de edificações, o indicador avançou de 16,1 para 18,8 pontos. Ainda assim, embora 48,2% das empresas utilizem algum sistema construtivo industrializado, a aplicação em larga escala permanece limitada.
Na MRV, uma das principais iniciativas é o projeto interno chamado LEGO, que busca transformar os elementos dos empreendimentos em componentes padronizados. A ideia é trabalhar com um conjunto menor de modelos de apartamentos, torres e áreas comuns, combinados conforme as características de cada terreno. A companhia já reduziu cerca de 70% das tipologias de empreendimentos utilizadas em seu portfólio. A simplificação também alcançou estruturas como piscinas, que passaram de aproximadamente 220 modelos para apenas seis.
A mudança permite reutilizar projetos, reduzir a necessidade de diferentes formas de alumínio e diminuir a complexidade da execução das obras. A implementação, entretanto, será gradual. Segundo Motta, alterar empreendimentos que já receberam aprovação das prefeituras pode exigir novos processos de licenciamento, capazes de atrasar lançamentos em um ou dois anos. Por isso, a expectativa da construtora é que, até 2029, a maior parte dos novos empreendimentos já seja lançada dentro das tipologias padronizadas.
Meta é concluir obras em até 25 meses
Além da padronização, a MRV aposta em um conceito chamado de linearização, inspirado nas linhas de produção da indústria automobilística. Na prática, a companhia procura organizar as diferentes etapas da construção em uma sequência contínua, garantindo que equipes e materiais estejam disponíveis no momento adequado. A diferença em relação a uma fábrica tradicional é que, na construção civil, o produto permanece no mesmo lugar enquanto os trabalhadores se deslocam entre as etapas de produção.
Para isso, a MRV utiliza sistemas de planejamento de materiais que relacionam cronogramas, contratos e necessidades de abastecimento. O objetivo é evitar interrupções provocadas pela falta de insumos ou pela desorganização das equipes. A ambição da construtora é atingir uma velocidade média de execução equivalente a 4% a 5% da obra por mês, permitindo concluir os empreendimentos em um prazo de 20 a 25 meses, desde o início das fundações até a validação final dos apartamentos.
Segundo Motta, a padronização contribui principalmente para reduzir custos, enquanto a reorganização das etapas produtivas é o principal instrumento para encurtar os prazos. “Depois da padronização, a gente precisa da linearização para conseguir dizer que está, de fato, começando um processo de industrialização da construção civil. E essa linearização é o elemento mais importante de todos para que a gente consiga ver o nosso prazo reduzir”, afirma.
O avanço da industrialização depende tanto de mudanças internas nas construtoras quanto de adaptações na regulamentação do setor. Para a MRV, a combinação dessas medidas é um caminho para ampliar a oferta de moradias e tornar os empreendimentos mais acessíveis ao público atendido pelos programas habitacionais.






