‘O BNDES é pragmático’, afirma Luciana Costa, diretora do banco
Egressa do mercado financeiro, ela coordena projetos, leilões e investimentos bilionários em concessões e parcerias público-privadas
Qual foi a virada de chave para o atual boom de investimentos em infraestrutura no Brasil? O marco regulatório do setor vem sendo aperfeiçoado e, nos últimos três anos, essa virada ganhou aceleração pela sólida aliança entre o BNDES, as empresas, os bancos e o mercado de capitais. Como ente público, passamos a ser cofinanciadores em lugar de apenas repassadores de recursos. Não temos mais subsídios em nossas linhas. Assim, não deslocamos os bancos privados. Ao contrário, os convidamos a entrar, participar e ganhar junto.
Como avalia o papel do mercado de capitais nesse processo? É o ator principal. O fato de o Brasil viver hoje um superciclo de infraestrutura tem tudo a ver com a ativa participação do mercado de capitais em torno dos projetos e das obras que contam com o selo de qualidade do BNDES. A multiplicação dos fundos de investimento em infraestrutura e as debêntures incentivadas trouxeram um ganho enorme em capilaridade para a sustentação financeira do setor como um todo. Hoje, o Brasil tem milhões de pessoas investidoras em infraestrutura, o que significa um ambiente com muito mais dinheiro à disposição. Esse círculo virtuoso não teria sido possível apenas com recursos do orçamento público.
O BNDES está, de fato, livre da influência ideológica? No setor de infraestrutura, a questão político-ideológica está completamente superada. Governos de direita e de centro-esquerda fazem concessões e PPPs. A diferença é que nós, dentro de um governo de centro-esquerda, temos feito muito mais — e melhor. No início de 2023, na primeira reunião com a equipe do banco, o presidente Aloizio Mercadante nos deu a missão de sermos pragmáticos e aumentarmos a colaboração entre o BNDES e o mercado.
Como se dá esse pragmatismo? A avaliação de cada projeto é exclusivamente técnica, não nos interessa a posição política dos proponentes. Internamente, prestigiamos o quadro técnico de carreira. No mercado, temos um amplo relacionamento de confiança. Prova disso é o recorde, no ano passado, de 300 bilhões de reais em capital público e privado investidos, em todo o Brasil, em mobilidade urbana, rodovias, ferrovias, saneamento, portos, aeroportos, energia e logística. Isso aconteceu independentemente da orientação política dos governadores, prefeitos e empresários com os quais o banco se relaciona. Quando a gente chegou aqui, em 2023, o país estava investindo 170 bilhões de reais por ano, mais ou menos. Agora, a gente está investindo 300 bilhões. Só que no Lula 4 a gente quer chegar a 600 bilhões por ano.
Publicado em VEJA, abril de 2026, edição VEJA Negócios nº 25







