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Olho no Japão — A era do dinheiro quase grátis começa a mudar

Juros japoneses atingem níveis não vistos em décadas e grandes gestores já identificam uma mudança na disputa global por capital

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 out 2026, 09h00
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Esta é a primeira de uma série de cinco reportagens que Radar Econômico publicará, de quinta-feira a segunda-feira, sobre a mudança do regime de juros no Japão, o yen carry trade e os possíveis efeitos dessa transformação sobre os mercados globais e os ativos brasileiros.

Durante décadas, o Japão funcionou como uma espécie de usina de dinheiro barato para o mundo. Juros próximos de zero obrigavam investidores japoneses a procurar rendimento no exterior e, ao mesmo tempo, transformavam o iene numa das moedas preferidas para financiar apostas em países que pagavam juros muito maiores. Essa engrenagem começou a mudar.

Em setembro, o Banco do Japão elevou sua taxa básica para 1,25% ao ano, o maior nível em 31 anos. No mercado de títulos, a transformação é ainda mais evidente. O rendimento dos papéis japoneses de dez anos superou 3%, patamar que não era visto havia décadas. Para um país acostumado a conviver até com juros negativos, a mudança é enorme.

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E já começou a alterar as contas feitas pelos grandes investidores.

A Amundi, uma das maiores gestoras de recursos da Europa, afirmou que um título japonês de dez anos rendendo acima de 3%, quando convertido para dólares e protegido contra a variação cambial, oferece retorno próximo de 5% ao ano. É um rendimento que começa a competir diretamente com o de títulos de outros países desenvolvidos.

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“Os títulos japoneses estão se tornando significativamente mais atraentes em termos relativos”, disse ao Radar Econômico régoire Pesques, diretor de investimentos de estratégias de renda fixa da Amundi. A gestora continua comprada na parte mais longa da curva japonesa.

A PIMCO, uma das maiores especialistas mundiais em renda fixa, vai além: para a casa, a mudança já começou.

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Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da PIMCO, afirmou ao Radar Econômico que não existe mais um ponto futuro a partir do qual os juros japoneses começarão a influenciar a alocação global. Segundo ele, esse processo já está “em curso”. Com o aumento dos juros domésticos e o custo da proteção cambial, investidores japoneses simplesmente passaram a encontrar oportunidades melhores dentro do próprio país e têm menos necessidade de procurar rendimento no exterior.

Isso não significa que trilhões de dólares estejam voltando para Tóquio.

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Pelo contrário. Uma das conclusões da investigação do Radar Econômico é que ainda não existe uma grande repatriação estrutural de recursos japoneses.

A própria PIMCO destaca que o GPIF, gigantesco fundo de pensão público japonês, e outros grandes investidores institucionais ainda não promoveram uma alteração relevante de suas carteiras. Dhawan define o que está acontecendo como uma tendência emergente, e não como uma mudança estrutural já consumada.

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A Amundi faz avaliação semelhante. Segundo Pesques, seria razoável imaginar investidores japoneses aumentando suas aplicações domésticas diante dos novos rendimentos, mas isso ainda não está ocorrendo em grande escala. Para que o movimento ganhe força, na avaliação da gestora, o mercado precisaria enxergar mais estabilidade no iene e maior clareza sobre os próximos passos do Banco do Japão.

Mesmo assim, alguns fluxos começaram a chamar a atenção.

Em agosto, investidores japoneses venderam cerca de 1,02 trilhão de ienes em títulos estrangeiros de curto prazo e 143 bilhões de ienes em bonds de longo prazo. Ao mesmo tempo, o aumento dos juros domésticos tornou os títulos japoneses mais competitivos.

O fenômeno já começa inclusive a gerar operações na direção contrária ao velho carry trade. Gestores passaram a enxergar oportunidades no chamado “reverse carry”: em vez de tomar dinheiro barato no Japão para aplicar no exterior, investidores estrangeiros podem comprar títulos japoneses de longo prazo e proteger o risco cambial. Em alguns casos, essa estratégia já entrega entre 1 e 2 pontos percentuais a mais que títulos comparáveis nos mercados de origem desses investidores.

É uma inversão importante.

A relevância do Japão para o resto do mundo decorre do tamanho de sua poupança. Bancos, seguradoras, fundos de pensão, empresas e famílias japonesas acumularam durante décadas enormes posições em títulos estrangeiros. Quando o mercado doméstico quase não pagava juros, havia forte incentivo econômico para mandar parte desse dinheiro para Treasuries americanos, bonds europeus e outros ativos.

Agora esse cálculo está mudando na margem.

E é justamente a margem que interessa aos mercados.

A PIMCO ressalva que a redução da demanda japonesa, isoladamente, não é capaz de determinar os juros americanos. A procura por Treasuries é ampla e global. Mas, segundo a gestora, quando um comprador tradicionalmente estável e pouco sensível a preço passa a exigir retornos melhores, o efeito tende a aparecer no prêmio de prazo cobrado pelos investidores.

Em outras palavras: o governo americano pode ter de pagar um pouco mais para captar dinheiro. E, se a referência mundial de juros fica mais cara, países de maior risco precisam competir com ela.

É aí que a história japonesa começa a chegar ao Brasil.

O país continua oferecendo uma remuneração extraordinariamente elevada em comparação aos mercados desenvolvidos. A Amundi afirmou ao Radar Econômico que permanece positiva tanto na dívida local brasileira quanto no real e cita juros superiores a 14% em termos nominais e próximos de 9% em termos reais como um dos motivos para a atratividade.

Por enquanto, portanto, o prêmio brasileiro continua grande.

A questão é o preço que será necessário oferecer se o mundo passar a dispor de alternativas mais rentáveis nos mercados considerados seguros.

O Japão ainda não chamou seu dinheiro de volta. Mas deixou de ser o país no qual o dinheiro praticamente não rendia nada.

Essa diferença parece pequena. Para um dos maiores credores do planeta, pode mudar a forma como trilhões de dólares são distribuídos pelo sistema financeiro mundial.

Nos próximos quatro dias, o Radar Econômico mostrará onde está escondida a outra parte desse risco: as operações de carry financiadas em iene, os sinais encontrados nas posições de fundos em real, o paralelo entre os movimentos de 2024 e 2026 e os canais pelos quais uma mudança iniciada em Tóquio pode chegar ao câmbio, aos juros e à dívida brasileira.

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